A vidente


A miséria visita o lar dos Soubirous.
Quando Bernadette tinha oito anos, a época era difícil e os negócios do moinho começaram a correr mal. De insucesso em insucesso, a família foi mudando para locais cada vez mais simples. Com admirável resignação, Bernadette acompanhou os progressivos fracassos dos pais, mas sua saúde já frágil, foi se deteriorando. Passou a sofrer de asma, doença que a atormentaria por toda a vida.

A miséria ali era completa O cômodo media menos de 20 metros quadrados e a família não possuía nada, além da mobília mais indispensável e das poucas roupas.
A luz do sol mal penetrava no aposento, marcado pela grade da janela e pelo ferrolho da pesada porta – reminiscências do antigo calabouço. A comida era escassa e, muitas vezes Bernadette, preocupada com os irmãos mais novos, dividia entre eles a pequena porção que lhe cabia.
À noite, sem conseguir dormir, atormentada pela asma, Bernadette chorava, mas não por causa da doença ou das privações materiais. Seu único e mais ardente desejo era fazer a Primeira Comunhão, mas a necessidade de cuidar dos irmãos e da casa a impedia de freqüentar as aulas de catecismo, de aprender a ler e escrever. Mal falava o francês, expressando-se em patois, o dialeto da região de Lourdes. Mesmo assim, educada na fé católica, Bernadette sabia rezar o Pai Nosso e a Ave Maria e rezava diariamente o Rosário, que trazia sempre consigo.

As poucas aulas de catecismo que Bernadette conseguiu assistir foram malogradas, porque ela não conseguia acompanhar as outras crianças, bem mais novas e adiantadas do que ela. Preocupada com a filha de treze anos, que ainda não fizera a Primeira Comunhão, Louise Soubirous pediu à amiga, Marie Lagües que a acolhesse a menina em Bartrès - vilarejo não muito distante de Lourdes, a fim de que ela pudesse ali freqüentar as aulas de catecismo.
Por consideração e amizade, Marie concordou, mas não foi fiel à promessa. Logo Bernadette se viu ocupada nos serviços da casa, e nos cuidados com as crianças. Além disso, o marido de Marie encontrou nela a pastora ideal para cuidar de suas ovelhas. Foi nesse pastoreio, nas longas horas transcorridas na mais completa solidão, em meio ao belíssimo panorama dos Pirineus, que Bernadette fortaleceu-se na oração e na contemplação, recitando o Rosário.
Quanta esperança de aproximar-se da Mesa Eucarística e quanta decepção! Aquela espera interminável a afligia, mas, como tudo na vida do homem, foi permitida por Deus.
“Sofre as demoras de Deus, dedica-te a Deus, espera co paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça” (Eclo 2,3)
Essas palavras, desconhecidas para Bernadette, significam exatamente o modo como Deus procedeu a seu respeito. Ao mesmo tempo em que a graça lhe inspirava um desejo ardente das coisas do alto, estas pareciam ser-lhe tiradas. Com isso, seu anseio se robustecia, e tudo que era terreno ia se afigurando como pouco a seus olhos, cada vez mais aptos a compreender as realidades sobrenaturais. Como costuma acontecer com as almas que Deus prova por meio de longas esperas, estavam-lhe reservadas grandes graças.
Celestial surpresa

Eis sua própria narração do que então sucedeu:
“Escutei um barulho, como se fosse um sopro de vento.Virei a cabeça para o lado do prado, mas vi que as árvores não se mexiam. Continuei a descalçar-me. Escutei de novo o mesmo barulho. Levantei a cabeça, olhando para a gruta. Avistei uma Senhora toda de branco, com um cinto azul e uma rosa dourada sobre cada pé, da mesma cor da corrente do rosário que ela segurava. As contas do rosário eram brancas”
Sorrindo, a aparição indicou-lhe, por gestos, que se aproximasse.

Em conseqüência, Louise Soubirous proibiu a filha de voltar para a gruta. Em geral, Bernadette era muito obediente aos pais, mas naquele caso, sentiu-se interiormente compelida a retornar ao local da aparição. No domingo seguinte, depois da missa, ela voltou à gruta, onde de novo experimentou a visão da “Senhora de branco”, que, como na primeira aparição, nada lhe falou, apenas a acompanhando, em silêncio, na recitação do rosário. Na quinta-feira seguinte,18 de fevereiro, Bernadette retornou ao local, desta vez acompanhada por diversos adultos. Esta foi a primeira ocasião em que a “Senhora” lhe falou, perguntando-lhe se queria ir até lá durante os próximos quinze dias. Foi também nesta terceira visita que a Senhora revelou a Bernadette:
“Não prometo fazer-te feliz neste mundo, mas sim no outro”
Durante a quinzena seguinte, as visões de Bernadette criaram enorme interesse e especulação em Lourdes.

“ O que mais me impressionou foi a alegria e a tristeza refletidas no rosto de Bernadette... Respeito, silêncio, reflexão reinavam em toda parte. Oh, era tão bom estar ali - Era como estar às portas do paraíso.”!
Fr. Desirat, Lourdes, 1º de Marçode 1858
Críticas e descrença
Entretanto, embora muitos acreditassem estar testemunhando uma ocorrência milagrosa, numerosos outros havia na cidade que estavam descrentes e suspeitosos. Autoridades e até mesmo a polícia, por várias vezes, submeteram Bernadette a pesados interrogatórios. Ela precisou até mesmo passar por exames médicos para atestar sua sanidade mental. Grande pressão foi exercida sobre a menina para impedi-la de voltar à gruta. Contudo, mesmo diante dos mais ardilosos interrogatórios, ela mantinha sua inocência infantil e uma fé inabalável na verdade do que havia experimentado. Apesar das freqüentes e intensas inquirições, não conseguiram encontrar qualquer falha em seus relatos. Bernadette não exagerava e não procurava tirar proveito material de suas experiências.
Na nona aparição, a “Senhora” solicitou a Bernadette que bebesse da água da fonte. Embora a menina não conseguisse ver fonte alguma (nada havia na época), ela começou a escavar com as mãos nuas o local indicado pela “Senhora”, no fundo da gruta.


Duas aparições mais se seguiram à revelação da identidade da “Senhora”. Uma das testemunhas destas aparições foi o Dr. Dozous, medico da cidade, que, impressionado ao ver por quinze minutos, contados no relógio, a chama de uma vela queimar a mão de Bernadette em êxtase, e esta permanecer impassível, tentou depois da volta da menina ao estado normal, passar de novo a chama de uma vela por sua mão, fazendo-a protestar com um grito de dor. Impressionado, ele testemunhou a favor da veracidade das experiências de Bernadette.
Na sexta-feira, 16 de Julho, Bernadette fez sua última peregrinação à gruta de Massabielle. Por determinação do bispo e de autoridades locais, ela foi impedida de aproximar-se da gruta, mas mesmo do outro lado do rio, Bernadette sentiu que a “Senhora” estava tão perto dela quanto na gruta. Em silêncio, elas se despediram. Durante as aparições, a Santíssima Virgem Maria fez diversas revelações a Bernadette.
Pediu-lhe que fizesse penitência e rezasse muito pelos pecadores. Também lhe revelou um segredo, que não deveria comunicar a ninguém, coisa que Bernadette jamais fez.
Vida após as aparições

Contudo, embora paciente com os visitantes, Bernadette estava cada vez mais atraída pela idéia de ingressar no Carmelo. Mas sua saúde frágil tornava a rotina de um convento carmelita inadequada para ela. Por fim, depois de passar vários anos no Asilo, administrado pelas Irmãs da Caridade, onde finalmente pôde fazer seus estudos, ajudando no serviço da cozinha, no

Seus treze anos de vida religiosa foram marcados pela prática de todas as virtudes. De modo especial, o desprendimento de si mesma e o amor ao sofrimento. Desse período, passou nove anos de ininterruptas enfermidades: a asma inclemente, um doloroso tumor no joelho, que degenerou para uma terrível cárie óssea. Apesar de sofrer tremendamente, ela nunca se queixou, continuando a oferecer, em suas próprias palavras tudo “pelos pecadores”. Quando lhe perguntavam porque não ia a Lourdes para curar-se na fonte milagrosa, respondia: “Isso não é para mim”.
Morte de Bernadette
- No dia 28 de março de 1879, pela quarta vez recebeu a Extrema Unção. Protestou:
- "Curei-me todas as vezes que a recebi".
Depois do Santo Viático ministrado pelo Padre Febvre, disse:
- "Minha querida Madre, peço-lhe perdão por todos os sofrimentos que lhe causei, com minhas infidelidades na vida religiosa e peço também perdão às minhas companheiras dos maus exemplos que lhes dei... sobretudo com o meu orgulho"!
Durante a Semana Santa, celebrada do dia 6 ao dia 13 de abril, os escarros agravaram-se e ela pede um "alívio" .
- "Se pudesse encontrar na sua farmácia qualquer coisa para aliviar os meus rins, estou toda esfolada".
E de outra vez manifestou-se assim:
- "Procure então nas suas drogas... qualquer coisa para me fortificar. Não tenho forças nem para respirar. Mande-me vinagre bem forte para cheirar".
Depois mandou tirar todas as imagens e estampas de Santos que ornavam o seu quarto.
- "Este me basta" (mostrou o Crucifixo).
Por fim, às 15 horas do dia 16 de abril de 1879, ainda jovem com 35 anos de idade, morreu Bernadette depois de um intenso e penoso sofrimento que lhe impuseram seus diversos males.
Fez um grande sinal da Cruz, pegou no copo contendo a bebida fortificante que lhe apresentaram, toma por duas vezes algumas gotas e inclinando a cabeça, entrega docemente a sua bela alma ao Criador.
Santa Bernadette Soubirous
Seguindo-se aos eventos das aparições e das curas milagrosas, uma investigação foi estabelecida por determinação do Papa. Depois de longas deliberações e cuidadoso exame das evidências, foi declarado que as visões da Virgem Maria tinham realmente ocorrido na gruta de Lourdes.
Bernadette foi beatificada em 1925 e canonizada em 1933, por SS. Santidade o Papa Pio XII, não tanto pelo conteúdo de suas visões, mas sim pela santidade de sua vida. É a padroeira dos doentes, da família e também dos pobres.
“ Encontrar-me-eis junto ao rochedo”

Seus restos mortais incorruptos constituem um dos mais belos indícios da felicidade eterna que Deus quer outorgar aos pobres mortais. Intocado, puro, angélico é o corpo de Bernadette, diante do qual o peregrino sente-se atraído a passar horas seguidas em oração, saindo com a doce impressão de ter penetrado na felicidade eterna de que goza a vidente de Massabielle.
Ali estão, cerrados, mas eloqüentes, os olhos que outrora contemplaram a Virgem Maria aqui na terra, a nos lembrar que os únicos a serem exaltados são os mansos e humildes de coração; a nos lembrar que, para realizar Suas grandes obras, Deus não precisa das forças humanas, mas sim da fidelidade á voz de Sua graça.
Sabemos que a missão de Bernadette não terminou. A ação benfazeja de sua intercessão se faz sentir junto à gruta, conforme ela mesma predisse: “Encontrar-me-eis junto ao rochedo que tanto amo”. Que ela nos obtenha, neste ano do jubileu das aparições, uma confiança inquebrantável no poder d’Aquela que disse: “Eu sou a Imaculada Conceição”
Consultas: Site http://www.biographyonline.net/spiritual/bernadette-soubirious.html com tradução livre sem aprovação do autor. Revista Arautos do Evangelho: Número 7 –fevereiro de 2008 e o site http://www.fimdostempos.net/lourdes5.html .