Esse é o mundo quando nele não está presente a santa Igreja de Deus. O quadro aqui apresentado, embora não esteja completo, é suficientemente trágico para expor as mazelas da Antiguidade pagã e nos dar uma ideia do choque ocorrido no tempo em que a mensagem do Evangelho começou a exaltar valores opostos, ordenados e santos.
O choque dos valores do Evangelho com os contravalores mundanos
A mensagem de Jesus Cristo veio desequilibrar o carcomido mundo antigo. Ela censurava a libertinagem e a crueldade, e exaltava a liberdade para praticar o bem, a castidade, a virgindade, a inocência, a fidelidade conjugal, o amor aos inimigos, a caridade, a abnegação, a bondade para com os mais fracos, a dignidade de todos os seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus.
Um horror especial ao pecado da pedofilia foi instilado nas almas por nosso Divino Mestre, com palavras de uma extrema severidade: "Se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que creem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar" (Mt 18,6).
Ante a sublimidade do Evangelho, o paganismo não conseguiria ficar indiferente. Só lhe restavam duas reações: ou encantar-se e submeter-se ao suave jugo de Deus, ou odiar e perseguir. Não poucos se converteram. Muitos, porém, aferraram-se ao lodo, e seu ódio levou ao martírio milhões de cristãos.
Todavia, o sangue dos mártires começou a ser semente de novos cristãos, segundo a célebre afirmação de Tertuliano47. O espetáculo de homens e mulheres, idosos e idosas, adultos no auge da saúde, jovens vigorosos, virgens, crianças — todos confessando a fé em Jesus Cristo e caminhando resolutos em direção à morte —, arrancava admiração de muitos espectadores, acarretando conversões cada vez mais numerosas.
O paganismo necessitou, pois, lançar mão de outra arma, para tentar reverter o jogo: a difamação e a calúnia. Como observam os Apologistas cristãos daqueles primeiros séculos, os pagãos passaram a acusar os cristãos exatamente dos delitos que o paganismo cometia.
46 JUSTINUS, op. cit, 27: PG 6, 370. Ver tb. DEMAUSE, op. cit., p. 52-53.
47 Apologia, 50,13.
É digno de nota que uma das acusações era a da pedofilia, agravada com incesto48. São Justino comenta: "As coisas que vós fazeis abertamente e com aplauso, [...] dessas mesmas coisas vós nos acusais" 49. E Arnóbio lança ao rosto dos pagãos: "Quão vergonhoso, quão petulante é censurar, em outro, aquilo que o acusador vê que ele mesmo pratica — aproveitar a ocasião para ultrajar e acusar outros de coisas que podem ser retorquidas contra ele mesmo!" 50.
Ou seja, aqueles pagãos faziam como o ladrão que, ao roubar, grita: "Pega ladrão!"
Uma civilização governada pelo Evangelho
A Igreja Católica acabou por vencer, em virtude da força intrínseca do bem. E aos poucos, auxiliada pela graça divina que nunca falha, ela tomou os greco-latinos decadentes e os bárbaros germanos, converteu-os, educou-os e inspirou a edificação de uma brilhante civilização cujo ápice, nunca antes alcançado, ocorreu nos séculos XII e XIII.
Nessa época, segundo diz o Papa Leão XIII, "a filosofia do Evangelho governava os Estados". Então, "a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil". Da relação harmoniosa entre o poder religioso e o temporal, "a sociedade civil deu frutos superiores a toda a expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer" 51.
Foi nesse tempo que a Igreja desenvolveu a escolástica, edificou as catedrais góticas (com seus vitrais e monumentos), criou as universidades e os hospitais, impulsionou as ciências e o progresso técnico, aperfeiçoou as relações internacionais entre os estados, aboliu a escravidão, fez avançar o progresso social, elevou a condição da mulher, de tal modo que, no século XIV, a Europa havia ultrapassado de muito todos os outros continentes.
Conforme ressalta um estudioso do progresso técnico medieval, naquela época, "pela primeira vez na história se construiu uma civilização complexa que não mais se sustentava nas costas suarentas de escravos ou de servos, mas principalmente na energia não humana" 52.
Quanto mais avançam os estudos históricos e científicos sobre esta matéria, tanto mais vai ficando demonstrada esta verdade, jogando por terra o mito de que a Idade Média foi uma era de atraso e de opressão. A literatura especializada a tal respeito vai se multiplicando 53.
48 MINUCIUS FELIX, Octavius, c. 9; LECLERCQ, Henri, P. Verbete: "Accusation Contre les Chrétiens", in Dictionnaire d’Archéologie Chrétienne et de Liturgie. V. 1, 1e partie. Paris: Letouzey et Ané, 1924. Cols. 274, 275.
49 JUSTINUS, op.cit., c. 27.
50 ARNOBIUS, op. cit., l. 2., n. 70.
51 LEÃO XIII. Encíclica Immortale Dei. 1/11/1885, n. 28.
52 WHITE, Lynn. Medieval Religion and Technology. Berkeley and Los Angeles: University of Los Angeles Press, 1978, p. 22.
53 Ver, p.exe., WOODS, Thomas E. How The Catholic Church Built Western Civilization. Washington, DC: Regnery, 2005; STARK, Rodney. The Victory of Reason. How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Sciences. New York: Random House, 2005; PERNOUD, Régine. Pour en finir avec le Moyen Âge. Paris: Seuil, 1977; SWEENEY, Jon M. Beauty Awakening Belief. London: Society for
Por que acusar só a Igreja?
Entretanto, sempre houve minorias inconformes com o domínio da virtude, da verdade e do bem, de modo que, periodicamente, a Igreja se vê vítima de novas investidas.
Um dos procedimentos preferidos continua a ser o de acusar a Igreja precisamente dos delitos que o próprio mundo não se envergonha de cometer. Quais são os maiores destruidores da inocência infantil hoje em dia? Quem promove uma pornografia irrefreável, que não respeita nem idade, nem dignidade, e que incita a todo tipo de crime sexual? Quais os que, de todos os modos, pressionam as escolas para iniciarem as crianças em práticas imorais? Quem impulsiona as mudanças das leis de maneira a abolir a influência cristã e a substituí-la pela do velho paganismo? Eis questões que pedem respostas; eis um tema muito apropriado para um futuro estudo.
Consideremos a acusação de pedofilia. Como afirmam os especialistas, baseados nas pesquisas até agora realizadas, a maior parte desses crimes são cometidos especialmente na própria casa da família, e os abusadores são principalmente os padrastos, seguidos — ó tristeza! — pelos pais, por outros parentes e pelos namorados das parentas das vítimas54. Curiosamente, nunca se
Promoting Christian Knowledge, 2009; JAKI, Stanley L. Patterns or Principles and Other Essays. Wilmington: Intercollegiate Studies Institute, 1995; JONES, Terry. Medieval Lives. London: BBC Books, 2004; GRANT, Edward. God and Reason in The Middle Ages. Cambridge: Cambridge University Press, 2001; LINDBERG, David C. (editor). Science in the Middle Ages. Chicago: University of Chicago Press, 1980.
54 A literatura a esse respeito é abundante. Ver, por ex., CARROLL, Janell L.; WOLPE, Paul Root. Sexuality and Gender in Society. New York: HarperCollins College Publishers, 1996: "Com efeito, ter um padrasto é um dos mais potentes prognósticos de abuso sexual" (p. 553). FINKELHOR, David. "Child Sexual Abuse", in ROSENBERG, Mark L.; FENLEY, Mary Ann (editors). Violence in America. A Public Health Approach. Oxford, New York: Oxford University Press, 1991: "Diversos fatores têm se revelado consistentemente associados com um maior risco de abuso: (1) quando a criança vive sem um dos parentes biológicos, (2) quando a mãe não está sempre ao alcance da criança, em virtude de emprego fora de casa, ou por causa de invalidez ou doença, (3) quando a criança relata que o casamento de seus pais é infeliz ou marcado por conflito, (4) quando a criança informa que tem um relacionamento pobre com seus pais ou é sujeita a castigos ou abuso infantil, (5) quando a criança diz ter um padrasto" (p. 85). Segundo vários estudos, as meninas que vivem com padrasto compõem o grupo de mais alto risco. Por tal razão, Finkelhor, uma conceituada autoridade nesta matéria, pensa que as famílias nas quais há padrasto deveriam ser foco de políticas para prevenir abusos (FINKELHOR, David; and associates. A Sourcebook on Child Sexual Abuse. Newbury Park, CA: Sage Publications, 1986, p. 77-79). No mesmo sentido, a Rádio Vaticano, na edição de 5/4/2010 do Radiogiornale, expressando estranheza pela campanha paradoxal contra a Igreja, lembra que, segundo os dados oficiais, os principais culpados do abuso sexual de crianças não são padres. É o que demonstra um relatório do governo americano, de 2008, segundo o qual "mais de 64% dos abusos são perpetrados por pais, parentes ou outras pessoas que vivem na mesma casa, portanto, no âmbito das relações familiares. Nas escolas do país, quase 10% dos jovens sofrem abusos. No que toca aos sacerdotes católicos envolvidos, estima-se que sejam menos de 0,03%". Estudos recentes realizados em outros países indicam que os dados referentes aos Estados Unidos se repetem, com ligeiras variações, em todo o Ocidente. Uma estatística publicada no "Portal da Criança", da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Humano (SEDH/PB) do Estado da Paraíba, mostra que 90% dos casos de pedofilia ocorrem dentro de casa, sendo que as maiores incidências ocorrem na seguinte ordem: pai, padrasto, irmão, tio, avós, padrinhos e vizinhos (http://crianca.pb.gov.br/contador/?p=479). A revista Veja (18/3/2010, p. 112) informa que, na classe média brasileira, em 37% dos casos de pedofilia, o abusador é o padrasto, e em 34% é o próprio pai. Além disso, nas classes C e D, 74% das vítimas são filhos de pais separados.
viu algum adversário da Igreja pedir um estudo sério sobre a relação entre a desagregação da família, causa principal da existência de milhões de padrastos, e os crimes de pedofilia, nem exigir uma investigação sobre os perigos de se levar, para dentro de casa, namorados, quando ali residem menores.
Apenas de passagem, note-se que a massa dos pedófilos é constituída por homens casados. Também é de notar que todas as religiões têm membros seus envolvidos em casos de pedofilia, e algumas em proporções gigantescas.
Por que, então, levantar uma campanha internacional somente contra a Igreja Católica?
Prova inequívoca da santidade da Igreja
Ressaltemos mais uma vez: foi a Igreja Católica que, sempre fiel aos ensinamentos de seu Fundador, fez cessar no Ocidente a prática da pedofilia e inspirou horror a ela.
Portanto, quem ataca a Igreja a esse propósito está utilizando, contra ela, um valor a ela pertencente, e está implicitamente reconhecendo que ela é inatacável a partir dos contravalores do mundo.
Ou seja, os próprios adversários estão fornecendo a prova de que a Igreja Católica Apostólica Romana é substancialmente santa.
A Igreja Católica censura o mundo, porque este é corrompido. Ela requer um alto padrão de comportamento, casto e puro. E a feroz e cerrada investida dos inimigos injustamente consiste em procurar acusá-la de não praticar a moral que ela mesma implantou na sociedade. A isto se reduz a atual campanha publicitária, no tocante à pedofilia.
Mas como fazer para atingir a Igreja pelas faltas de uma minoria de seus membros? Um dos estudos mais autorizados sobre o problema da pedofilia, de Philip Jenkins, analisa as técnicas jornalísticas usadas para enfatizar, não os delitos de indivíduos que por acaso são padres, mas o contexto institucional como dando origem ao comportamento deles 55. Utilizam-se títulos sugestivos, jogos de palavras, termos bem estudados, como, por exemplo, dar a um livro o chamativo nome de: "E não nos deixeis cair em tentação". Por sua vez, programas de televisão sobre os casos de pedofilia colocam, como fundo de quadro, cerimônias litúrgicas, música gregoriana, sacerdotes de batina, de modo a ficar estigmatizada a Igreja como um todo e a se fazer uma associação visual entre aquilo que é distintamente católico com o estereótipo de padres lascivos e cínicos 56.
Ora, médicos, professores, enfermeiros e outros profissionais aparecem em alto número entre os perpetradores de crimes de pedofilia 57, mas quem vai chegar ao absurdo de acusar todos os membros dessas categorias e a denegrir uma classe inteira pelos crimes de uma minoria?
No entanto, assim se procede no caso dos sacerdotes católicos. O choque que o delito sexual de um padre causa na opinião pública — choque justificado, porque a Igreja Católica é a única insti
55 JENKINS, Philip. Pedophiles and Priests: Anatomy of a Contemporary Crisis. Oxford, New York: Oxford University Press, 1996, p. 55.
56 Ibid., p. 56.
57 Ibid., p. 126-128.
tuição da qual se espera que seus membros sejam de uma pureza sem mancha, bem como que seus sacerdotes sejam santos — os adversários sabem explorar.
A santidade substancial da Igreja
Resta perguntar como pode a Igreja manter-se santa ante as evidências de que alguns padres cometem esses graves delitos.
Na realidade, o argumento mais forte contra a Igreja Católica sempre foi a vida dos maus católicos. Contudo, não nos pode surpreender que na Igreja de Cristo haja membros indignos. O próprio Jesus comparou sua Igreja à rede que apanha maus e bons peixes (cf Mt 13, 47-50); ao campo onde o joio cresce entre o trigo (cf Mt 13, 24-30); à festa de casamento, para a qual um dos convivas se apresenta sem a veste nupcial (cf Mt 22, 11-14) 58.
Não obstante, a Igreja será sempre sem mancha, como ressalta São Paulo: "Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível" (Ef 5, 25-27).
Não acontece o mesmo com as outras instituições terrenas. Sendo meramente humanas, as falhas de seus integrantes podem desdourá-las. A Igreja é a única que tem uma dimensão divina. Por isso, apesar das faltas de sua dimensão humana, sua substância permanece sempre pura. Ela é santa, porque santo é seu Fundador: é a imaculada Esposa de Cristo. Só os homens da Igreja são pecadores, mas a Santa Madre Igreja não pode pecar.
Ela "é santa", ressalta Paulo VI, "não obstante compreender no seu seio pecadores, porque ela não possui em si outra vida senão a da graça: é vivendo da sua vida que os seus membros se santificam; e é subtraindo-se à sua vida que eles caem em pecado e nas desordens que impedem a irradiação da sua santidade" 59. Portanto, para qualquer membro da Igreja, incluindo os pertencentes ao clero, aplica-se esta regra: eles somente caem quando diminuem seu amor à Igreja e relaxam em seu compromisso para com ela.
"Nessa perspectiva", diz-nos o Cardeal Biffi, Arcebispo emérito de Bologna, "torna-se claro que toda nossa culpa — pequena ou grande — não constitui apenas infidelidade ao amor que nos liga ao Pai, menoscabo pela obra redentora de Cristo, resistência à ação santificante do Espírito Santo; é ademais ultraje e sofrimento infligidos à Igreja. Toda incoerência com nosso batismo é sempre ingratidão para com aquela que, no batismo, nos gerou, é atentado contra sua beleza de Esposa do Senhor; beleza que, aos olhos humanos, fica ofuscada por nosso ato reprovável. [...] Mas nós, pelo menos, embora pequemos quase como eles, habituamo-nos a pedir perdão diariamente a essa nossa Mãe caríssima por tudo o que nos ocorre de pensar, dizer e fazer com ânimo não integralmente ‘eclesial’" 60.
Os pecadores não pertencem à Igreja por seus pecados, diz o Cardeal Journet, "mas por aqui
58 TRESE, Leo J. A fé explicada. São Paulo: Quadrante, 2007. p. 147-148.
59 PAULO VI. Sollemnis Professio Fidei, 19: AAS 60 (1968) 440.
60 BIFFI, Cardinale Giacomo. Meditazione Gesú di Nazareth, la fortuna di appartenergli. Giubileo Diocesano dei Catechisti, Cattedrale di San Pietro, Bologna, 29/10/2000.
lo que ainda há neles de dons de Deus, pelos caracteres sacramentais, a fé, a esperança teologal, suas orações, seus remorsos. Eles estão como que vinculados aos justos. Encontram-se na Igreja provisoriamente para serem um dia, ou definitivamente reintegrados, ou separados dela. Estão na Igreja não de uma maneira salvífica, mas como paralisados naquilo que diz respeito às suas atividades mais altas e decisivas" 61.
Claro está que a Igreja "não expele os pecadores de seu próprio seio, mas só seu pecado; continua a mantê-los em si na esperança de poder convertê-los. Luta neles contra o pecado que cometeram" 62.
Ressaltando a santidade da Igreja, que não se mancha nunca pelos pecados de seus filhos, o Cardeal Journet chama a atenção para sua íntima relação com cada uma das três Pessoas da Santíssima Trindade: desde toda eternidade, a Igreja Católica é conhecida e querida pelo Pai. É fundada por seu Filho, que veio para nos remir pela cruz. E é vivificada pelo Espírito Santo, que veio para estabelecer, nela, sua morada. "A Igreja inteira aparece, assim, como o povo reunido à imagem da unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, de unitate Patris et Filii et Spiritus Sancti plebs adunata" 63.
A relação da Mãe de Deus com a Santa Igreja é outro fator de santidade. O conhecimento da verdadeira doutrina sobre Maria será sempre uma chave para compreender o mistério de Cristo e o da Igreja. A santidade de Nossa Senhora se reflete na Igreja, sua virgindade, sua pureza, sua disponibilidade em relação à vontade de Deus. Também os anjos do céu e os bem-aventurados conservam a Igreja na santidade, enobrecendo o culto que ela presta a Deus 64.
Todas as obras da Igreja têm por finalidade a santificação dos homens em Cristo e a glorificação de Deus65. Entretanto, ela não poderia realizar essa finalidade se não fosse santa. Assim, mesmo que nesta terra seja governada e composta por pecadores, ela é indefectivelmente santa, conforme provam os frutos abundantes de santificação que tem produzido66. Um possante sinal dessa santidade é a observância voluntária dos conselhos evangélicos, pelo qual centenas de milhares de homens e mulheres renunciam a tudo o que poderiam ter de legítimo nesta vida — família, posses, liberdade de decidir o que fazer — para imitar totalmente a Cristo Jesus 67.
A Igreja tem a coragem de exigir de todos os seus filhos o combate contra o pecado. Muitas almas dizem "sim" a esse apelo, porém, em geral, o bem que praticam fica escondido. O mal, neste mundo, conta com uma publicidade bastante maior, pois sua petulância solicita a atenção de todos. Seja como for, homens e mulheres de extraordinária santidade nunca faltaram à Igreja68, e é como instrumento de santificação que ela passa por uma contínua renovação 69.
61 JOURNET, Charles. Il mistero della Chiesa secondo il Concilio Vaticano II. Brescia: Queriniana, 1967, p. 84-85.
62 Ibid., p. 85.
63 Ibid., p. 31. Ver tb. CONCILIO VATICANO II, Lumen Gentium, n.4.
64 JOURNET, op. cit., p. 91-95.
65 CONCÍLIO VATICANO II. Sacrossantum Concilium, n. 10.
66 ARANGÜENA, José Ramón Pérez. A Igreja. Iniciação à eclesiologia. Lisboa: Diel, 2002. p. 110.
67 JOURNET, op. cit., p. 89.
68 KEMPF, Constantino. A santidade da Igreja no século XIX. Porto Alegre: Barcellos, Bertaso & Cia., 1936. p. 11-12.
69 CONCÍLIO VATICANO II. Lumen Gentium, n. 15.
Constitui, pois, um grande equívoco propor modificações na estrutura eclesial. "Quando o valor do compromisso sacerdotal é questionado como entrega total a Deus através do celibato apostólico e como disponibilidade total para servir às almas", assinalava Bento XVI em sua vinda ao Brasil, "dando-se preferência às questões ideológicas e políticas, inclusive partidárias, a estrutura da consagração total a Deus começa a perder o seu significado mais profundo. Como não sentir tristeza em nossa alma?" 70
Um pastor solícito para com seu rebanho
Alguns jornais têm tentado implicar o Papa Bento XVI na ocultação de crimes, no tempo em que ele era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e certas vozes estridentes chegam ao ponto de propor sua prisão.
A nosso ver, esse é o maior erro do adversário na atual campanha contra a Igreja. Sua insolência é o que mais tem causado geral indignação, contribuindo até mesmo para despertar e afervorar os católicos adormecidos.
A injustiça dos acusadores ainda se mostra mais flagrante quando, indo-se aos fatos, constata-se que foi Bento XVI, já quando era Cardeal, quem mais agiu para erradicar o problema, zelo esse que se acentuou ao ocupar a Cátedra de Pedro.
É emblemática a Carta Pastoral que, pouco antes da Páscoa, ele enviou aos católicos irlandeses, para ser lida em todos os púlpitos do país. Num gesto sem precedentes, o Santo Padre pedia perdão diretamente às vítimas e às suas famílias, expressando sua profunda desolação pelos "atos pecaminosos e criminosos" dos abusadores.
Dirigindo-se aos bispos, ressaltava os "graves erros de juízo" e a "falta de governo" por parte da Hierarquia. Por fim, sublinhava que a Igreja se pôs a trabalhar com afinco para corrigir e remediar o mal que foi feito.
Ressalte-se igualmente que, em maio de 2001, o então Cardeal Ratzinger enviou uma carta aos bispos, ordenando que lhe encaminhassem todas as acusações, contra clérigos, fossem velhas ou novas. Com essa iniciativa, a Santa Sé chamava a si a investigação dos abusos e a punição dos culpados. A partir daí, vários acusados tiveram de enfrentar um processo canônico completo, muitos foram demitidos do estado clerical, ou então demitiram-se voluntariamente, enquanto outros sofreram punições administrativas e disciplinares, incluindo a proibição de celebrar missa.
Contrariamente ao que certas fontes têm propalado, a referida carta não proibia a ninguém de comunicar-se com a polícia para denunciar eventuais abusos.
Na verdade, os Bispos pelo mundo afora — como nos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá — já vinham adotando o procedimento de comunicar-se com as autoridades policiais, tão logo houvesse a confirmação de algum caso.
De outro lado, o Vaticano tem editado normas que tornam rigorosa a seleção dos candidatos ao seminário. Ademais, vem levando a cabo iniciativas como o Ano Sacerdotal, ainda em curso, e o Congresso Teológico Internacional, realizado em Roma no último mês de março, visando à renovação do clero e à remoção de conceitos errôneos sobre o sacerdócio, causados por uma "hermenêutica da descontinuidade e da ruptura"71 em face do Concílio Vaticano II.
70 BENTO XVI. Discurso. Encontro com os Bispos do Brasil, Catedral da Sé, São Paulo, 11/5/2007.
71 BENTO XVI, Discurso à Cúria Romana, 22/12/2005.
Esperamos que essas brisas de renovação tragam um pouco de consolo para as vítimas dos horríveis delitos cometidos por homens que, como representantes de Deus, deveriam ser os primeiros protetores das crianças e dos jovens. Delas nos condoemos e compartilhamos seus sofrimentos e suas desilusões, oferecendo por eles nossas orações. Aliás, a tragédia que os envolveu nos leva, uma vez mais, a recordar com dor aquelas incontáveis crianças que, na Antiguidade, foram vítimas do cruel paganismo.
De cada perseguição, a Igreja sai fortalecida
Haja o que houver, contemplando a sua própria história, a Igreja Católica pode dizer com Cícero: "Alios vidi ventos, alias prospexi animo procellas" 72.
Como das investidas anteriores, ela sairá ainda mais forte da atual refrega. Incontáveis reações pelo mundo afora já antecipam tal desfecho.
Na Irlanda e na Espanha, as igrejas se encheram, durante a Semana Santa, como há muitos anos não ocorria. Nos Estados Unidos, na Inglaterra e em outros países do Ocidente, o número de conversões aumentou. Vários jornalistas, muitos dos quais não católicos, tomaram a defesa da Igreja. Será preciso lembrar que as perseguições são indispensáveis para o alcandoramento da Esposa de Cristo? E também para a sua renovação? Com efeito diz São Paulo: "Nam oportet et hereses esse ut et qui probati sunt manifesti fiant in vobis" ("É necessário que entre vós haja heresias para que possam manifestar-se os que são realmente virtuosos". 1 Cor 11,19).
Para destacar a perenidade da Igreja Católica Apostólica Romana, Santo Agostinho nos deixou esta sábia reflexão: "A Igreja vacilará, se vacilar seu fundamento. Mas pode Cristo vacilar? Visto que Cristo não vacila, a Igreja permanecerá intacta até o fim dos tempos" 73.
Lembremo-nos de que "Deus é o Senhor do mundo e da história" 74.
Foi Ele mesmo quem decretou que "as portas do Inferno" não prevaleceriam contra a sua Igreja (Mt 16,18).
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Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, é Cônego Honorário da Basílica Papal de Santa Maria Maior, de Roma, Protonotário Apostólico Supranumerário, Doutor em Direito Canônico pelo Angelicum, Mestre em Psicologia da Educação pela Universidade Católica da Colômbia, Doutor Honoris Causa pelo Centro Universitário Ítalo-Brasileiro, Membro da Sociedade Internacional São Tomás de Aquino (SITA) e da Pontifícia Academia da Imaculada, Fundador e Superior Geral de três entidades de Direito Pontifício: Associação Internacional de Fiéis Arautos do Evangelho, Sociedade Clerical de Vida Apostólica Virgo Flos Carmeli e Sociedade de Vida Apostólica Regina Virginum.
72 "Vi outros ventos e enfrentei sem temor outras tempestades" (In L. Calpurnium Pisonem, oratio, 9).
73 Enarrationes in Psalmos, 103,2,5; PL, 37, 1353.
74 Catecismo da Igreja Católica, n. 314.