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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - ÚLTIMA PARTE


Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
Última Parte


A GRAÇA DAS ORIGENS
Frei Celso Márcio Teixeira ofm


Em 2004, o Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores enviou carta a todos os frades sob sua autoridade, convocando-os à celebração dos 800 anos da aprovação da Regra. Juntamente com a carta, explanava toda a programação que se estendia de 2006 até o ano de 2009. E propunha três atitudes fundamentais que deveriam marcar as celebrações: recordar o passado com gratidão, viver o presente com paixão e abrir-se ao futuro com confiança.
A convocação soou-nos, porém, pouco empenhante. Claro que nas entrelinhas há um desejo e apelo a vivermos mais plenamente o carisma, mas, segundo nosso parecer, falta algo que nos conclame a comprometimentos mais corajosos. Corre-se, assim, o risco de uma celebração muito bonita, triunfalista, cheia de incenso voltado para nós mesmos; leva-nos a um ingênuo estar contentes com nós mesmos (portanto, se justificaria ficar ou continuar como estamos); não nos incentiva a uma busca nem nos incita a mover-nos.

A Ordem precisaria de convocação mais provocativa, contundente, profética. Algo que nos incomodasse, que nos despertasse de nossa letargia, que nos questionasse em nosso auto-contentamento e nos colocasse em movimento ou em processo de conversão.

Não somos contra a atitude de gratidão ao dom recebido nem de viver com paixão nem de ter confiança no futuro. Mas talvez seja o momento de questionar: Quais são as nossas origens? O que fizemos com o carisma recebido? Em que estamos investindo as entranhas de nossa paixão? Quais as bases concretas para termos confiança no futuro?

Esta pequena reflexão pretende retomar com simplicidade a convocação do Ministro Geral e de seu governo com a finalidade de torná-la mais incisiva em nossa vida.

1. Retorno crítico às origens

Mais do que por recordar as origens com

gratidão, porém sem descartar esta atitude, nosso retorno às origens deveria ser marcado por uma atitude crítica. Esta consistiria em buscar com discernimento o que constitui a proposta original do nosso carisma. Incluiria um estudo ou aproximação da maneira como esta proposta se concretizava naquela época e do impacto que aquela novidade causava na Igreja e na sociedade em geral.

Sem dúvida, esta aproximação metodológica exigiria um grande esforço, pois seria como um deslocar-se do século XXI ao primeiro quarto do século XIII. O retorno às origens – ou situar-se na origem – seria a maneira mais própria a permitir a verificação da proposta original e das formas concretas que ela assumia e, inclusive, das variações que sofria ou das evoluções (naturais) pelas quais passava.Duas grandes dificuldades encontramos para nos colocarmos nas origens, uma em nível teórico e outra em nível prático.


a) Em nível teórico. Ousamos afirmar que o franciscanismo em que fomos formados não é o das origens. Para provar que não afirmamos coisas absurdas e sem sentido, lembramos que é somente a partir das últimas décadas que temos a ventura de poder confrontar-nos diretamente com todos os escritos de São Francisco. Tínhamos conhecimento apenas da Regra Bulada e do Testamento. E mesmo aquilo que hoje compreendemos como “origens” nos foi transmitido por ideologias que marcaram profundamente a história (e a formação) da Ordem. Portanto, a leitura que temos das nossas origens foi feita com óculos de ideologias que muito pouco têm das origens verdadeiras. Em nossa concepção atual de franciscanismo temos “verdades absolutas e inquestionáveis” que não passam de preconceitos (preconcepções) que nos foram transmitidos como as verdades das origens. Quem, por exemplo, nunca ouviu falar que São Francisco era contrário aos estudos? Quem nunca ouviu falar que a vocação de Francisco consistia em viver a pobreza e que esta é o elemento mais importante do franciscanismo? Para quem é novidade a afirmação de que Francisco foi enviado por Deus como “homem novo” não somente para tirar o mundo da lama dos vícios (cf. 3Cel 1,3), mas também como reformador da Igreja ou para inaugurar uma Igreja espiritual, cujo elemento de identificação era a pobreza? Quantos não se encantaram com os relatos poéticos e não menos caricaturais de Fioretti, a ponto de julgar que o franciscanismo que esta obra nos transmite é o genuíno franciscanismo das origens? Todas estas afirmações, geralmente categóricas, são uma maneira preconceituosa de ler as origens, porque oriundos de grupos extremistas que fizeram sua leitura dos primórdios da Ordem e nos transmitiram seus conceitos (ou preconceitos), seu modo de conceber a vida franciscana.

Segundo nosso parecer, a formação do nosso modo de conceber e de viver o franciscanismo data da metade do século XIII. A partir daí, as nossas origens foram como que apagadas, e foi-nos transmitido como original um franciscanismo ideologizado. Diríamos que fomos formados não somente por um franciscanismo caricatural, mas híbrido, em que se misturam algumas inspirações de Francisco lidas e interpretadas não a partir do confronto com o Evangelho, mas com os óculos e a partir das teorias imaginosas de Joaquim de Fiore (recorde-se que Joaquim de Fiore teve enorme influência nos meios religiosos da época, influência comparável, a nosso ver, à de Aristóteles nas universidades). Desta maneira, nossa vida franciscana tem como imagem ou espelho não propriamente Francisco de Assis, mas os fraticelli, como eram conhecidos os idealizadores ou ideologizadores deste franciscanismo híbrido.

A proposta de um retorno crítico às origens requer, num primeiro momento, que se identifiquem esses grupos, que se questione a concepção que eles têm das origens. Torna-se imperativo para isto um embrenhar-se nos meandros da história em busca das idéias-força que configuraram a vida franciscana da época em que surgiram esses grupos. Num segundo momento, a busca propriamente dita das verdadeiras origens deve ter como alvo as opções fundamentais e inalienáveis de Francisco, as opções-eixos que imprimiam identidade à vida do frade menor, as práticas que concretizavam estas opções.

Esta busca, porém, não significa estacionar nas origens no sentido de querer copiar a vida tal qual acontecia naquela época. As origens não eram estáticas, mas dinâmicas, passavam por processos de evolução; a vida ia se concretizando diferentemente nas diversas circunstâncias de lugar, de tempo, de cultura, mantendo-se, porém, fiel às opções fundamentais. Pois evolução não significa renúncia às opções fundamentais e inalienáveis que constituem a identidade de um grupo. Onde há renúncia às opções fundamentais, não há evolução, mas desvio. As opções fundamentais do carisma são, portanto, irrenunciáveis. Uma verdadeira evolução mantém sempre a fidelidade às opções que constituem a identidade do grupo. E Francisco, em várias ocasiões de sua breve existência, sempre se mostrou consciente do que constituía o inalienável ou o inegociável de seu carisma.

b) Em nível prático. Também aqui, o que nos foi transmitido a partir da metade do século XIII foi decisivo para a nossa compreensão do franciscanismo. Até este período, estamos diante de uma Ordem marcada pela mobilidade (exatamente o contrário da stabilitas loci dos monges). A partir deste momento, a Ordem começa a passar por um processo de estabilização ou de fixação. A pregação itinerante, que marcava o estilo de vida do frade menor, acabou cedendo lugar a uma fixação cada vez mais acentuada, distanciando-se da proposta evangelizadora das origens. A nosso ver, não tanto o crescente número de frades e a necessidade de construir casas maiores (conventos) era a causa precípua da fixação, mas o fato de os frades assumirem cada vez mais as tarefas que competiam ao clero.

De um lado, esse processo é plenamente compreensível. Tratava-se de encontrar um espaço dentro dos quadros da Igreja. O que, no fundo, constituía uma busca de sua identidade no âmbito eclesial, visto que comumente os grupos se definem ou se identificam a partir do que fazem. E recorde-se que a pregação itinerante sempre fora mal vista por setores importantes da hierarquia eclesiástica. Nesta busca de espaço-identidade, pouco a pouco, a Ordem foi assumindo as tarefas que não lhe competiam, até para justificar sua presença e atuação na Igreja.

As igrejas dos frades passaram a atender os fiéis a exemplo das paróquias, o que causou no início brigas com o clero, pois este sentia que seu espaço estava sendo ocupado por intrusos. Tanto assim que o papa Inocêncio IV, atendendo às queixas dos seculares, chegou a proibir que os frades, nos dias solenes, abrissem as portas das suas igrejas antes da terça (por volta das 10 horas), para não afastarem os fiéis de suas paróquias (lembre-se que toda esta problemática incluía a questão muito concreta dos benefícios) (cf. Salimbene de Parma, Crônica, n. 38, em FFC, p. 1395). Neste processo de adequação à atividade do clero, o passo para que os frades se ocupassem de paróquias foi muito curto. Deste modo, a mobilidade inicial acabou ficando estática, constituindo um verdadeiro desvio daquilo que era a proposta clara das origens: os frades não seriam pastores (clero), mas auxiliares do clero na sua tarefa de “salvar as almas”; sua tarefa seria a de suprir o que porventura faltasse, portanto, a da complementaridade (cf. 2Cel 146,2).Pode-se argumentar que a Igreja hierárquica pressionava a Ordem a assumir as tarefas próprias do clero. Com ou sem pressão, porém, a Ordem não pode eximir-se da culpa e atribuir à Igreja a responsabilidade de seus desvios. Segundo nosso modo de ler a história, faltou à Ordem uma liderança lúcida que, como Francisco, fosse capaz de fazer valer suas opções fundamentais mesmo diante do papa. Apenas um exemplo: quando Francisco pediu a aprovação da Regra, o cardeal João de São Paulo lhe propôs uma das regras existentes, e o próprio papa achava muito difícil viver o que nela se propunha, mas Francisco recusou cortês e corajosamente qualquer outro caminho que não fosse o de sua opção.

Tanto quanto a clericalização jurídica da Ordem, esta clericalização prática, que açambarcava a tarefa do clero e a reivindicava como seu modo de dar fruto na Igreja (cf. 2Cel 148,10), não deixava de ser uma grande traição às origens. Com a fixação, perdeu-se a “novitas” ou o próprio que exatamente identificava a Ordem. Se nas origens muitos membros do clero acorriam à Ordem, deixando as tarefas próprias do clero para se tornarem pregadores itinerantes (em outras palavras, deixando de ser “clero” para tornarem-se frades menores), a partir deste período, o movimento torna-se precisamente o contrário: os frades, pouco a pouco, vão deixando a itinerância para se fixarem nas paróquias (vão deixando sua identidade de frades menores para assumirem inconscientemente a identidade de “clero”).Se de um lado, este processo é compreensível, de outro não se justifica, pois o processo preteria uma das opções irrenunciáveis que fazia parte da identidade dos frades menores e que constituía a sua “novitas” dentro da Igreja.

2. Ler o presente à luz das origens

O retorno às origens não significa um estacionar no passado com saudosismo. Deve provocar-nos a atitudes criativas para o nosso presente. Caso contrário, estaremos deslocados da nossa realidade. Uma vez verificadas as opções fundamentais das origens, trata-se de ver como elas estão concretizadas na nossa vida. Faz-se necessária uma leitura do presente à luz das opções das origens. Daí o questionamento: Elas continuam sendo as nossas opções fundamentais e inalienáveis?A leitura do presente à luz das origens (ou no confronto com as opções das origens) exige três atitudes complementares:

a) Humildade. Esta atitude nos levará a constatar que estamos mais distantes do que próximos das opções das origens. Permitir-nos-á identificar os desvios da Ordem ao longo desses 800 anos e que teimamos em manter com as mais belas justificativas. Se no início ela se caracterizava por uma “novitas”, por sua pujança progressista, por sua coragem de ser “de fronteira”, hoje ela é uma Ordem eminentemente conservadora, especialmente no que diz respeito à sua tarefa dentro da Igreja. Com uma Igreja burocraticamente imóvel, ela se fez igualmente imóvel e não tem a coragem de propor a mobilidade que a caracterizava nas origens. A uma Igreja que insiste em uma organização paroquial antiquada e anacrônica, baseada na centralidade do pároco, uma evangelização itinerante, como a das nossas origens, poderia ser uma proposta alternativa de evangelização. Mas a Ordem prefere conservar a mesma imobilidade.

A perda da mobilidade traz inevitavelmente como consequência a criação de estruturas pesadas: propriedades, casas grandes, equipamentos “indispensáveis” de evangelização, empresas, tudo de acordo com as exigências do mundo moderno, tudo em nome da evangelização. O que nos distancia sempre mais dos pobres. E embora a Ordem faça belos discursos sobre a opção pelos pobres, ela não tem coragem de partilhar a sorte, a vida, a mobilidade e a insegurança dos pobres. E é conveniente que nos lembremos de que quanto mais nos afastamos dos pobres, mais nos afastamos de nossas origens, visto que Francisco queria a presença dos frades preferentemente no meio dos pobres. Sem dúvida que muitos frades pessoalmente estão buscando recuperar os valores das origens, mas institucionalmente, como Ordem, estamos num conservadorismo que não tem outra consequência que a de asfixiar a vida franciscana.

O confronto com as origens permitir-nos-á verificar também o grau da nossa fidelidade a elas. Nem tudo é desvio. Certamente existe algo da nossa identidade das origens que ainda nos torna frades menores e nos faz ser conhecidos como tais. E da mesma maneira que somos convidados humildemente a retificar os desvios, semelhantemente somos convidados a intensificar criticamente (com discernimento) as nossas fidelidades.

b) Criatividade. A humildade em reconhecer nossos desvios históricos não deveria apenas levar-nos a bater no peito por nossas faltas, numa lamentação inócua, mas principalmente dispor-nos a tomadas de atitudes positivas. Trata-se de perguntar-nos: como concretizar hoje e daqui para frente as opções de origem? Como reencarnar na diversidade da vida de hoje as nossas opções fundamentais que nos caracterizam como frades menores?

Longe de nós a tentação de copiar anacronicamente as práticas do século XIII! Atitude essencial seria a de repropor-nos o carisma com criatividade. Isto implicaria na busca de novas formas de presença e de atuação na Igreja e no mundo (novas práticas); implicaria em termos coragem de abandonar inúmeras estruturas que nos amarram e encontrar novas formas de mobilidade que deveria ser, como nas origens, uma marca própria do frade menor; implicaria igualmente em propormos alternativas não somente para a Ordem, mas para a Igreja, em sua tarefa evangelizadora; implicaria em retomarmos “as fronteiras” da evangelização, isto é, os lugares de perigo e de risco, bem como os lugares de ponta nas grandes questões e debates da humanidade. Pois o conservadorismo não faz parte do estilo de Francisco de Assis; por conseguinte, não deveria fazer parte do estilo dos frades menores. Devemos recriar (ou encarnar) o carisma em novas práxis, sempre, como foi dito acima, na fidelidade às opções irrenunciáveis das nossas origens, pelo que agradecemos a Deus. Somente assim seremos capazes de manter acesa a “novitas” do carisma franciscano. Caso contrário, seremos uma Ordem velha, não pela idade de seus membros, mas pela falta da novidade evangélica.

Uma coisa deve ficar muito clara: Não está em questão a bondade ou a validade do que fazemos. Tudo o que fazemos em nível de trabalhos paroquiais, em nível de promoção humana e em inúmeros níveis é e poderá ser muito bom e válido. A questão pode ser impostada nestes termos: É necessário ser frade menor para fazer o que fazemos? A nossa vida e a nossa atividade evangelizadora estão na linha da fidelidade às nossas opções de origem?

c) Re-opção. Para que a criatividade não se disperse numa busca aleatória, é necessário que ela esteja fundada, movida e orientada por uma re-opção. Isto equivale a dizer que no fundo da busca de novas formas de encarnar hoje o carisma é imperativa a retomada das opções de origem. Caso contrário, haveria uma alienação da proposta original, e a criatividade seria confundida com busca de singularidades.

A proposta de uma re-opção não é uma proposta de reforma em seu sentido histórico. A Ordem teve inúmeras reformas ao longo de sua história. Todas elas pecaram por certo observantismo reducionista, isto é, se propuseram observar a proposta original, só que em um ou dois aspectos, deixando fora do seu projeto reformista elementos essenciais das opções da origem; um observantismo que beirava ao fundamentalismo, no qual primava a observância literal da Regra; um observantismo que privilegiava o rigorismo ascético sobre qualquer outra dimensão do carisma; um observantismo que acabou se tornando chave de interpretação não só da regra, mas também da própria existência humana.Re-opção significa assumir as opções fundamentais das origens em sua globalidade, sem reducionismos e sem os outros “ismos” interpretativos que as desvirtuam, as desfiguram, as mutilam.Evitamos propositalmente o termo “refundação”, amplamente utilizado nas reflexões da vida consagrada há uma década aproximadamente. De fato, não refundamos nada, pois a Ordem que temos já foi fundada, e ninguém funda a mesma coisa de novo. A preferência pelo termo “re-opção” deve-se ao fato de este engajar a nossa vontade num processo de retomada do caminho, de conversão. Sem a vontade não se dá um passo sequer neste processo. E é a vontade que precisa ser ativada para que a Ordem retome seu caminho.

3. Inaugurar o futuro já

O futuro não existe como realidade, mas apenas como possibilidade. Só podemos falar de esperança ou de confiança em um futuro a partir do que concretizamos no presente. É a nossa atitude no presente que vai fornecer as bases do futuro. Portanto, o futuro se começa a construir hoje.

Muitas vezes, a reflexão sobre a virtude teologal da esperança a coloca relacionada ao “depois”, ao “além”, ao “ainda não”, desvinculando-a de nossa existência concreta. Mas ela deve estar presente no “agora”, no “aqui”, no “já”. Esperança não é esperar acontecer, mas fazer acontecer. Por exemplo, só podemos ter esperança de que uma semente dê fruto, se a plantarmos. Plantando-a, criamos condições de existência do fruto. Caso contrário, não há sequer como falar de esperança. É a esperança do fruto que nos move a plantar a semente. A esperança é, então, o dinamismo que move a ação presente que, por sua vez, possibilita o desabrochar do futuro. Portanto, a esperança é força propulsora da própria ação do presente.Deste modo, só podemos falar de esperança e de confiança no futuro da Ordem, se fizermos a nossa re-opção no presente, se retomarmos agora as opções que constituem a nossa identidade como frades menores. À medida que concretizarmos no presente as opções de origem, criaremos as condições para uma vida franciscana mais autêntica tanto agora como para o futuro.

Evidentemente não se constrói uma casa com um estalar de dedos. Requerem-se paciência e perseverança. Mas é no pouco que construímos a cada dia com esperança que podemos falar e desejar um futuro melhor. Importante é dar os primeiros passos, mesmo que pequenos. Urge começar, como dizia Francisco: “Comecemos, irmãos, porque até agora apenas pouco ou em nada progredimos”.Não há outro caminho: ou plantamos agora ou não podemos sequer ter esperança de colher no futuro.

Conclusão

Esta reflexão pode ter causado certo mal-estar, pois, ao mostrar que a Ordem passou por sérios desvios de suas opções fundamentais e tem longo e árduo caminho a percorrer na busca de suas origens, nos incomoda, nos provoca a sair da nossa acomodação, nos sacode do nosso auto-contentamento, nos põe em movimento de conversão. Mal-estar é sinal de que percebemos a necessidade de conversão. Lamentável seria se achássemos que não precisamos de conversão. Por isso, o mal-estar é extremamente benéfico.

Semelhantemente, uma celebração, que não reconhecesse os erros cometidos e o caminho a percorrer, cairia inevitavelmente no triunfalismo e na auto-incensação. E nada pior do que o contentamento consigo mesmo para impedir qualquer progresso.

A graça que Deus concedeu a Francisco e aos companheiros nas origens não nos será negada hoje. Importante, porém, é fazer com que essa graça não seja vã e que produza seus frutos. E para produzir frutos, é necessário que retomemos com paixão as nossas origens, na esperança de que do que plantarmos agora colheremos melhores frutos no futuro.


Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 13ª PARTE


Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
13ª Parte





Oração para a terceira etapa(2008/09) do 8º Centenário da Ordem

Senhor Jesus, o único Santo,abra nosso coração à plenitude de teu amor,coloca-nos no caminho das bem-aventuranças,dá-nos a graça de ser santos.Senhor Jesus, bom Mestre,ensina-nos o caminho a seguir neste novo tempo;encha nosso coração de agradecimentopor todo o bem que tem feito em nossa Fraternidade e em nós mesmos,ensina-nos a fazer festa, encantandos por teu amor e tuas maravilhas.


Senhor Jesus, verdadeiro Amigo, dá-nos olhos penetrantes, para esquadrinhar a noite,dá-nos a sabedoria que nasce de tua amizade, para saber discernir o que vem de ti,dá-nos valentia para testemunhar diante dos homens, nossos irmãos, a beleza de te seguir.


Senhor Jesus, único Salvador,Vem em socorro de nossa fragilidade, para que não nos desanimemos nos momentos difíceis,dá-nos a simplicidade da pomba, para ir entre os povos, E a astúcia da serpente para não ser do mundo, Olha-nos com amor, também quando Te negamos.


Altíssimo, onipotente e bom Senhor, Te damos graças porque nos pensou, criou e chamou à vida franciscana,te bendizemos porque mantém vivo em nós o propósito de te seguir mais perto, Te louvamos porque, como Francisco,nos tem dado a graça de te descobrir como verdadeiro tesouro de nossa vida.A Ti o louvor, a bênção e toda a honra. Amém.



Fr. José Rodríguez Carballo, OFM, Ministro Geral, Assis, 27/10/07


Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 12ª PARTE


Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
12ª Parte





São Francisco de Assis, uma alternativa humanística e cristã

O contato com Francisco produz uma crise muito profunda e salutar. Sua figura envolve os leitores dentro de um círculo luminoso no qual descobrimos nossa mediocridade e lentidão face aos apelos que vêm da verdade mais profunda do coração e do evangelho. Ele conduziu sua vida sempre a partir da utopia e a manteve viva como uma brasa contra todas as cinzas do dia-a-dia e a razoabilidade da história. Incorporou o arquétipo da integração dos elos mais distantes, historizou o mito da reconciliação do céu e da terra, dos abismos e das montanhas. Daí o fascínio que se irradia dele e a catársis humana e religiosa que ele opera.Diante de Francisco descobrimo-nos imperfeitos e velhos. Ele aparece como o novo e o futuro por todos buscado, embora tenha vivido há 800 anos. Mas este sentimento é sem amargura, pois sua mensagem encerra tanta doçura que o medíocre se sente convidado a ser bom, o bom a ser perfeito e o perfeito a ser santo. Ninguém fica imune à sua convocação vigorosa e ao mesmo tempo terna.Francisco em sua gesta nos coloca imediatamente diante do evangelho e do sermão da montanha. Tomou absolutamente a sério a mensagem de Jesus como se lhe fora dirigida pessoalmente a ele. Assumiu tudo ad litteram et sine glosa e procurou viver com coração generoso e alegre. Não queria saber de interpretações. Bem sabia que quase sempre as interpretações emasculam a força do evangelho. E o evangelho lhe era simplesmente a formula vitae.Se procurou orientar-se sempre a partir do evangelho e não da sensatez da razoabilidade, não era, entretanto, um fanático. Por isso se abraça a vida evangélica mostra também o sentido de uma regra; se vive do carisma compreende igualmente a instituição; se se entrega às duras penitências, sabe também alegrar-se e ser com todos cortês; se assume uma pobreza radical, postula outrossim uma fraternidade extremamente sensível à satisfação das necessidades uns dos outros; se é rigoroso para consigo mesmo, mostra-se ao mesmo tempo compassivo para com o confrade que grita na noite: morior fame!
Sempre segurou firme os dois pólos, mas começando todas as vezes pelo pólo do evangelho. Quebrou sem receios as barreiras instituídas para assegurar a vida livre do evangelho. Por isso é que nele coexistem admiravelmente ternura e vigor, que resultam da tensão sustentada permanentemente entre o evangelho e a regra, entre o sermão da montanha e a ordem. Se houvesse apenas vigor, emergiria então a figura de um santoduro, inflexível e sem coração. Se houvesse somente ternura, projetaria a imagem de um santo sentimental, adulçorado e sem perfil. Ternura e vigor compaginando-se na mesma pessoa criam o sol de Assis, como diria Dante, sol que gera ao mesmo tempoluz e calor, sol cantado pelo Poverello como “belo e radiante e com grande esplendor”, mas também criam a lua com sua luminosidade amena e amaciadora de todas as pontas que ferem e fazem sangrar. Francisco aflora assim como um homem solare lunar, integração feliz dos opostos.
Francisco faz ainda um apelo de inaudita importância para a nossa situação atual. Vivemos num mundo de objetos; tudo é feito objeto de troca, de interesse, de negociação, de falsificação, de mascaramento e de fetichização. As coisas mais e mais perderam seu uso humano direto e simples como satisfação de necessidades objetivas que devem ser atendidas coletivamente. Com sua pobreza radical Francisco postula uma radical expropriação, especialmente do dinheiro cuja natureza se resume em ser puro objeto de troca sem nenhum uso a não ser a troca. Inaugura, no exato momento de formação do espírito capitalista, assentado na troca, uma existência humana que se baseia unicamente no valor do uso: duas túnicas, um capuz, calçados para os que precisam, os instrumentos de oração e de trabalho. A ausência de qualquer excedente visa, limpar o caminho de todos os obstáculos para o encontro dos homens entre si em sua transparência de irmãos, servindo-se mutuamente como convém entre membros de uma mesma família. Este projeto pode parecer utópico e, de fato, o é. Mas a utopia pertence à realidade porque esta não se resume naquilo que é e pode ser medido, mas muito mais naquilo que nela é possível e pode ser no futuro. A utopia expressa as possibilidades todas da realidade concretizadas. Porque ainda não foram concretizadas, ela convoca para novas realizações, a superar o já feito e ensaiado na direção de formas mais plenas e humanizadoras.
A utopia de Francisco de uma fraternidade sem plus-valia e, por isso, não exploradora, anima as buscas modernas por caminhos de satisfação das necessidades coletivas com o menor custo social e pessoal possível.
A seriedade evangélica de Francisco vem cercada de leveza e de encanto porque é imbuída profundamente de alegria, finura, cortesia e humor. Há nele uma inarredável confiança no homem e na bondade misericordiosa do Pai. Em conseqüência exorcizou todos os medos e ameaças. Sua fé não o alienou do mundo nem fez dele um mero vale de lágrimas. Pelo contrário, transformou-o pela ternura e pelo cuidado em pátria e lar do encontro fraterno, onde os homens não aparecem “como filhos da necessidade, mas como filhos da alegria” (G. Bachelard). Podemos dançar no mundo porque ele constitui o teatro da glória de Deus e de seus filhos.
Francisco de Assis mais que um ideal é um espírito e um modo de ser. E o espírito e o modo de ser só se mostram numa prática, não numa fórmula, idéia ou ideal. Tudo em Francisco convida para a prática: exire de saeculo, sair do sistema imperante, numa ação alternativa que concretize mais devoção para com os outros, mais ternura para com os pobres e mais respeito para com a natureza.

Texto do livro de Leonardo Boff, “São Francisco de Assis, Ternura e Vigor”, Editora Vozes, 1981.


Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 11ª PARTE


Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
11ª Parte





O mundo hoje - da imagem para o símbolo

Sem dúvida, nossa geração está mais ligada à imagem do que à palavra. Imagens em rápida sucessão passam constantemente diante de nossos olhos com a intenção de prender nossa atenção e induzir-nos a decidir sem refletir. A cultura da imagem reforça o fenômeno do imediato. Separados do passado, vivemos submissos às exigências do presente numa subjetiva relativização dos valores.
Nossa vida não é só permanentemente marcada por aquilo que dizem e promovem os meiosde comunicação social, mas até as dimensões mais íntimas de nossa existência tornam-se material de exposição e de consumo público. Os meios de comunicação estão intimamente ligados às forças do mercado; entre outras coisas, vivem para mostrar ininterruptamente os conflitos geradospela violência; comunicam a imagem de uma humanidade presa de um permanente ciclo de frustração.
Por outro lado, cresce a consciência de que a cultura da imagem conduz à esterilização da imaginação, à redução do indivíduo a consumidor de imagens. Assim, vemos que se multiplicam as propostas alternativas de espaços educativos que incentivam a capacidade imaginativa e criativa do ser humano, salvaguardando nossa condição de criadores de símbolos.Em nossa sociedade, cresce a alternativa de uma virada simbólica (poesia, rito, pintura, dança, música, gestos), que ajude a unir-se profundamente à verdade pessoal e à transcendência.
Na sociedade civil, aumenta a exigência de uma ética dos meios de comunicação, para que eles não sejam somente receptáculos de misérias humanas, mas instrumentos capazes de oferecer imagens reais de justiça, de paz e de integridade da criação e de contribuir para criar uma esperança da importância e do significado globais.
A realidade nos confirma que o trigo e a cizânia crescem juntos (cf. Mt 13,24-30); isso constitui um convite urgente ao discernimento evangélico para decidir que direção deve tomar nossa caminhada de transformação pessoal e institucional. Percebemos a crise de fé provocada por estas realidades como um momento de graça, um kairós, que nos desafia a recriar nossa experiência de crentes em sintonia com os desafios de uma época em crise. É uma ocasião de experimentar um credo que faça emergir a totalidade da pessoa e a comprometa com a paz e com o bem. Também a crise da ética é vista como um momento de graça para desenvolver uma nova ética da vida, uma ética da coerência que supere a fragmentação mediante uma caminhada de harmonização e de integração: pensamentos e obras, oração e ação, palavra e trabalho, fé e vida, aspirações do coração para a fé e para a esperança e sua encarnação em formas visíveis (ações, ritos, estruturas).

Documento do Capítulo geral da Ordem dos Frades Menores - Assis, Pentecostes de 2003


Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

domingo, 12 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 10ª PARTE

Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
10ª Parte


São Francisco, como o vejoDom Aloísio Lorscheider, OFM

À medida que passam os anos, São Francisco merece maior atenção. Em nossos dias, sobretudo, com a redescoberta do lugar social do pobre na Igreja e no mundo, o interesse pelos ideais de São Francisco faz-se mais vivo.
O meu contato com São FranciscoMuito deve a Igreja no Rio Grande do Sul aos filhos de Santo Inácio. Comecei a conhecer São Francisco, quando, em 1934, entrei no Colégio Seráfico de São Francisco, em Taquari (RS). Passei no Seminário Menor oito anos. Foi neste período que foi aumentando em mim o conhecimento, a admiração e o amor pelo Poverello. Tínhamos no Seminário a Ordem Terceira Franciscana, hoje denominada Ordem Franciscana Secular. As reuniões mensais e o espírito que os nossos formadores, por seu exemplo e palavra, imprimiam à nossa orientação, ajudou muito. O exemplo e o ideal vividos com muito entusiasmo pelos meus formadores, padres e irmãos franciscanos holandeses, foram benéficos. Eles concretizaram para nós o Serafim de Assis. Mais tarde, o noviciado, os anos de preparação para a profissão solene, a graça de, na Itália, visitar os lugares mais queridos ao coração de São Francisco, concorreram para formar em mim uma imagem do Santo da Dama Pobreza e da Perfeita Alegria.
Características de São Francisco1. A imagem de DeusSempre fiquei muito impressionado e atraído pelo amor quente e apaixonado que São Francisco dedica a Deus. Parece que no beijo do leproso ele entendeu, como Saulo no caminho de Damasco, a doação total de Deus a nós em seu Filho Jesus Cristo. Custou a Francisco não só descer do cavalo fogoso que no momento montava, mas muito mais do cavalo do orgulho e da vaidade com que ele queria conquistar o título de grande e nobre. Foi no caminho que a luz de Deus entrou mais forte em seu íntimo. Foi o beijo ao doente rejeitado, nada grande e nada nobre aos olhos dos homens, que fez a Francisco descobrir o enorme amor de Deus que nos dá todo o seu Filho: “Tanto Deus amou o mundo que lhe deu o seu Filho único... “(Jo 3, 16). É aí que aparece o “meu Deus e meu Tudo”. “Quem sou eu, quem sois Vós? Uma noite toda foi insuficiente para saborear esta realidade tão grande. Francisco embeveceu-se no amor divino. A transcendência cantou o coração de Francisco. Mais e mais ele se extasiava diante do Bom Senhor, do Altíssimo, do Sumo Bem, do Único Bem, de todo o Bem. E o que sentia ia-se tornando oração. Convém ler e meditar as orações que brotaram, espontâneas, desta alma toda repleta da imensa misericórdia do seu Senhor.São Francisco ajuda-nos a redescobrir a verdadeira imagem de Deus e “a graça salvadora de Deus que se manifestou a todos os homens”(Tt 2,11). É nesta imagem bíblica de Deus, assimilada por São Francisco, que se deve procurar a sua devoção à Encarnação do Verbo (presépio), ao Santíssimo Sacramento, à Palavra de Deus, aos Sacerdotes e à Cruz do Senhor.2. A sua DamaFrancisco viveu numa época conturbada. Fermentos de renovação dentro da Igreja; fermentos novos no mundo dos negócios e da política, onde a riqueza estava sendo vista como o grande valor da vida humana. Na Igreja é o tempo do Papa Inocêncio III. Tempo de muito poder e de muito fausto. Faziam-se sentir diversos movimentos de renovação a partir da pobreza. Infelizmente, tais movimentos queriam conseguir o seu objetivo colocando-se à margem daquele que por Cristo fora posto como Pedra, Pastor, Garantia de Fé.No mundo dos negócios e da política, as lutas entre os grandes partidos de então, guelfos e de gibelinos, entre as comunas, desejando uma superar a outra em importância e força, entre as classes sociais, buscando os do comércio conquistar os privilégios da classe nobre. É o tempo fogoso da Cavalaria.Francisco, por influência do próprio pai, estava metido nestas lutas de promoção. O “status” o atraía. Liderança não lhe faltava. Mas, na análise de sua pessoa, percebe-se que, no íntimo, outras forças o estavam trabalhando. Além da graça divina, que tinha os seus desígnios, uma sensibilidade muito forte em relação à realidade social e eclesiástica também jogava o seu papel. E foi assim que Francisco entendeu que o verdadeiro soberano era o seu Deus, que se revelara em Jesus Cristo pobre, pequeno, humildade. O importante não era ser “maior”, como ele com tantos do seu tempo pensavam, mas sim ser “menor”. Sem dúvida alguma a passagem bíblica: “Quem entre vocês quiser ser o maior faça-se o menor”(cf. Lc 22,26), mais tarde repetida aos seus frades, deve já antes ter ressoado no coração do Santo de Assis. Seja como for, Francisco se enamora tanto por ela, porque vê o próprio Jesus Cristo nos enriquecer com sua pobreza” (2Cor 8,9). A formação paulina, num contexto de comunhão de bens (esmolas) entre as Igrejas, torna-se ela luz para uma inteligência mais profunda do mistério de Deus que se comunica ao mundo por seu Filho Jesus, o Filho do seu amor (Cl 1,13). E Francisco nele se inspira.Começa, na Igreja, uma redescoberta do pobre, precisamente num período em que a Igreja parece ter atingido a culminância do seu poder e de sua influência no mundo. Poder espiritual e poder temporal estavam firmemente enfeixados nas mãos de um Papa que se soubera impor a príncipes e reis, dando ao Sacro Império Romano esplendores nunca dantes vistos e vividos. E foi no coração deste grande monarca que Francisco coloca; o seu modo de vida evangélica. Ele nada mais quer do que observar o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, Evangelho que tem a sua conotação específica na vivência da pobreza. Pobreza não à margem da Igreja Romana, mas pobreza no coração da Igreja Romana, em obediência total ao Papa e seus sucessores. Quando Francisco prescreve isto a seus frades, já era o Papa Honório, mas quando Francisco começou era Inocêncio que dominava.Esta atitude de São Francisco foi obra do Espírito Santo. Foi autêntica intuição evangélica de alguém que era todo poesia. As almas dos poetas são as que, sensíveis, enxergam mais longe.Em nossos dias revivemos esta redescoberta evangélica do pobre. Partimos de uma realidade diferente daquela do século 12, porque, hoje, nos angustia a injustiça institucionalizada, a injustiça que na sociedade, se tornou estrutura, ao passo que então a riqueza dentro da Igreja e os anseios de grandeza temporal dominavam os homens. Então, como hoje, as resistências dentro e fora da Igreja não são poucas. Entretanto, a profética opção preferencial e solidária pelos pobres corresponde inteiramente ao ideal de São Francisco, porque responde completamente ao Evangelho. E Francisco outra coisa não queria do que o Evangelho em sua mais completa pureza, sem glosa, sem glosa, sem glosa...O estilo de vida simples, sóbrio e austero que Puebla preconiza para todos os cristãos de nossos dias em identificação sempre mais perfeita com Cristo pobre e os pobres, exprime, sem ambigüidade, o que Francisco, já no século 12, sonhava e via como verdadeira renovação evangélica. Se hoje, partimos de outra realidade para a vivência a pobreza evangélica, o fundamento continua sempre o mesmo: Cristo que, sendo rico, se fez pobre; que sabendo não ser um roubo para Ele o ser igual a Deus, esvaziou-se, fez-se servo, fez-se em tudo solidário com os homens, obediente até a morte e morte de cruz (cf Fl 2,5-9)3. A perfeita alegriaSão Francisco é conhecido como sendo o São Francisco das Chagas, além de ser o São Francisco de Assis. As chagas do Senhor Jesus mostram outra faceta da rica personalidade de Francisco: um apaixonado pela paixão de Jesus Cristo, um apaixonado pela Cruz do Senhor. Tão grande a sua paixão que mereceu experimentar ao vivo na própria carne a paixão sobre a qual tanto meditara e chorara a ponto de ter ficado quase cego. O amor de Deus na Encarnação torna-se, para nós, o mais concreto possível na doação total que a cruz simboliza: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jô 15,13).Penso que na mística franciscana da Paixão do Senhor se deva procurar o sentido mais profundo da perfeita alegria que os “Fioretti” nos retratam com forma tão viva e poética. Ser rejeitado pelos próprios irmãos, ser afastado do convívio deles como elemento perigoso, como perturbador da paz e do silêncio de nossa casa, e saber aceitá-lo sem querer mal a quem desconfia de nós, nos machuca, nos revolve na condição mais miserável, - é identificar-se com Jesus rejeitado, escarnecido, esbofeteado, carregado com a cruz, crucificado. A perfeita alegria, está, pois, na mais perfeita identificação com Cristo, o Servo Sofredor de Jahvé.Parece que o mundo de hoje nos oferece inúmeras oportunidades para vivermos este capítulo da perfeita alegria. Numa época de renovação, exige-se muito espírito de sacrifício, muita renúncia, muita assimilação com a paixão e morte de Jesus Cristo, com a oração sincera: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”(Lc 23,34)4. Homem livreEste tríplice olhar evangélico de Francisco – imagem de Deus, Dama Pobreza, perfeita Alegria – fez de Francisco um homem livre, amarrado a ninguém, levando-o a redescobrir a pureza original das criaturas. Indubitavelmente, o Cântico das Criaturas expressa esta liberdade interior e exterior conseguida pelo Santo de Assis. Só uma vida inteiramente aberta a Deus e ao Irmão é capaz de dar à criatura humana o gozo da libertação, que conduz à liberdade pura e santa com que Deus nos criou.ConclusãoO próprio São Francisco escreveu a conclusão. Dando aos seus seguidores o nome de FRADES MENORES, ele disse tudo. O ser “frade”, o ser “irmão”e o ser “menor”, o ser “pequeno”, o ser “humilde”, o ser “servo”de todos, exprime todo o ideal franciscano, com o seu fundamento em Deus, o único Absoluto, sem ídolos, em total doação. Se os filhos e filhas de São Francisco, nas várias Ordens, Congregações, Institutos, vivessem, ao máximo, este ideal, novo sopro evangélico renovador purificaria o ar da Igreja e do Mundo.

Texto publicado na Revista “Grande Sinal”, 1982.
Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

sábado, 11 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 8ª PARTE

Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
8ª Parte

A afinidade entre o carisma franciscano e as bandeiras da consciência atual

Após oito séculos, subsiste uma misteriosa afinidade, ou cumplicidade, entre o carisma franciscano e as melhores bandeiras que mobilizam a consciência atual, quais sejam:

* - a bandeira da solidariedade com os pequenos e
* - da justiça social, expressão prática do minoridade;
* - a bandeira da paz, constitutiva do anúncio franciscano e tão cara a São Francisco;
* - a bandeira da ecologia, que tem em Francisco seu patrono e inspirador, e que interpela ao cuidado com nossa Casa comum e com as relações de convivência;
* - a bandeira da sobriedade e frugalidade, face ao consumismo;
* - a bandeira da fraternidade face à tentação de medir as pessoas pelo poder ou riqueza que possuem;
* - a bandeira do diálogo e do ecumenismo, em todos os níveis, como condição de sobrevivência de nossa espécie;
* - a bandeira das relações de gênero, chance histórica única confiada às atuais gerações e que não pode, em absoluto, ser fraudada.

Com qual dessas bandeiras o carisma franciscano não tem alguma afinidade ou alguma luz a oferecer?

Já se disse que Francisco continua jovem e atual, não obstante seus filhos e filhas parecem envelhecidos.

Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 7ª PARTE

Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
7ª Parte


O fascínio que Francisco exerce há oito séculos

Do outro lado deste encontro emerge um homem impressionante. O fascínio que ele exerce sobre os homens, séculos depois de sua morte, transpõe as fronteiras do Cristianismo. Grandes e pequenos reverenciam-no com palavras de invulgar admiração. O que o torna assim tão simpático aos olhos dos homens não é tanto o fato de ser ele um santo da cristandade católica, o inspirador de inúmeras comunidades religiosas. Destes, há vários outros exemplos, também admiráveis. Antes, a razão precípua é sua humanidade, simplesmente. Efetivamente, nele vemos o que é o ser humano, quando, historicamente, se realizam as suas mais belas possibilidades: não um conglomerado de egoísmos, rigidez, baixezas e pecados, mas uma figuração de bondade, fineza, cortesia, ternura e compaixão, sim, uma imagem e semelhança de Deus mesmo. Sua humildade desfeita de toda sofisticação, sua afabilidade sincera para com todos, sua singela inocência, sem prepotências e maldade, sua largueza de alma pela qual acolhe a todos como irmãos e irmãs, seu reverente entusiasmo para com o mundo e suas criaturas, o jeito pacífico e portador da paz que o faz próximo de todos, o respeito com que trata todos os seres, do sol magnífico à inexpressiva erva, com gestos e palavras tão poéticas, enfim, seu amor sem fronteiras, é isso, sobretudo, que faz de Francisco esse homem notável e a razão do fascínio que ele exerce sobre todos.

“Há neste homem algo de límpido e de luminoso que se impõe como uma presença... Alguns são seduzidos pela criança e pelo poeta ingênuo, simples, fraterno, entre os seres vivos. Move-se entre os homens e as coisas como homem livre, desapegado, despretensioso, com um desembaraço e uma ternura que deixa a cada um a liberdade de viver. Irmão de todos, provoca-os ao melhor de si mesmo. Sem dominação e sem pretensão alguma, ensina-lhes como tornar-se homens de reconciliação, servidores uns dos outros. Atento, por intuição e por afinidade secreta, a seu tempo e aos acontecimentos, que os atinge e lhes traz com facilidade surpreendente, uma resposta ao nível mais profundo” (T. Matura, O projeto evangélico de Francisco de Assis..., 13).

Dele diz o renomado ensaísta e literato inglês Gilberto Keith Chesterton: “Podemos descrever este divino demagogo como o único e verdadeiramente sincero e conseqüente democrata do mundo...”(Cf. G. K. Chesterton, Franziskus, der Heilige von Assis, 1923)

A seu amigo Vittorio Bodo, Wadimir I. Lênin, o grande líder da Revolução Russa, do seu leito de morte, teria confessado: “Eu me enganei. Sem dúvida era necessário libertar a massa dos oprimidos. Mas nossos métodos tiveram como conseqüência outras opressões e terríveis massacres. Tu sabes que estou mortalmente doente. Meu pesadelo é sentir-me num oceano de sangue de incontáveis vítimas. Para salvar nossa Rússia – agora é tarde demais para voltar atrás – precisaríamos de dez Francisco de Assis” (Lênin, am Ende seines Lebens – 1924).

Pannaghiotis Kanellopoulos, intelectual e político grego: “Hoje, depois de oito séculos de história... podemos afirmar que Francisco representa a mais doce figura humana que a Europa gerou. A sua vida e a sua poesia são qualquer coisa de único na história. Mas é possível distinguir a vida de Francisco de sua poesia? A sua própria vida, como a apresentam os imortais Fioretti é uma contínua poesia” (P. Kanellopoulos, La storia dello spirito europeo, vol. I Atenas 1958, 208).

Deste homem, Sigmund Freud, um dos mais argutos e contumazes críticos da Religião afirma: “Talvez São Francisco de Assis tenha sido quem mais longe foi na utilização do amor para beneficiar um sentimento interno de felicidade... o amor universal pela humanidade e pelo mundo representa o ponto mais alto que o homem pode alcançar” (S. Freud. S. O mal-estar na civilização, in Obras Completas, Vol XXI [1927-1931], Rio de Janeiro: Imago, 1974, 122).

"Tão perfeita imagem de Cristo! Quase um Cristo redivivo" - Pio XI, Papa

"O mais italiano dos santos, o mais santo dos italianos"Mussolini

Há homens que, vivendo profundamente a problemática do seu tempo e de seu povo, são tão humanos que permanecem como inspiração para todos os tempos e todos os povos. Francisco de Assis é um desses homens raros que, ao longo dos séculos, das latitudes e longitudes, interpelam, questionam, desinstalam" - Dom Hélder Câmara

"Esse, talvez, o maior segredo de São Francisco de Assis. Onde outros dariam ou deram o seu saber, a sua astúcia, a sua coragem, ele deu apenas isso: seu coração. E com isso revolucionou a história. Com a fé de uma criança, renovou a alma de um mundo". Alceu Amoroso Lima"São Francisco, pela amigável união que estabeleceu com todas as coisas, parecia ter voltado ao primitivo estado de inocência matinal" - S. Boaventura

"Homem inútil e indigna criatura de Deus, nosso Senhor" - ele mesmo, São Francisco.

Fonte: Franciscanos (matéria e foto)


"São realmente fascinantes a vida, a dedicação, o amor e a santidade de São Francisco de Assis. Possamos nós, inspirados em seu exemplo, despojarmo-nos do apego excessivo ás coisas materiais, buscando mais, como ele, os valores espirituais, que são os verdadeiros tesouros do céu". A FAMÍLIA CATÓLICA

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 6ª PARTE

Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
6ª Parte


Cronologia para entender o Jubileu

1181/82 - Verão ou outono (junho-dezembro): nasce em Assis. Batizado com o nome de Giovanni di Pietro (pai) di Bernardone (avô). Mudado para Francisco.
1202 - Guerra entre Perusa e Assis. Assis vencida Collestrada. Francisco, com 20 anos, passa um ano preso em Perusa. Resgatado pelo pai, devido à doença. Nesse tempo parece que a família de Clara está refugiada em Perusa: ela com 8/9 anos de idade.
1204 - Longa doença.
1204 - Fim, ou primavera de 1205 (entre março-junho): parte para a guerra na Apúlia, no Sul. Volta após visão e mensagem de Espoleto. Começo da conversão gradual. Em junho de 1205 morre o guerreiro Gautier de Brienne, chefe das expedições no Sul.1205 - Outono (setembro a dezembro): mensagem do crucifixo de São Damião. Conflito com o pai. Região da Umbria
1206 - Janeiro-fevereiro: questão perante o bispo Dom Guido II (1204 a 30 de junho de 1228). Primavera (março-junho): em Gúbio, perto de Assis, cuida dos leprosos. Verão, provavelmente em julho: volta a Assis. Veste-se de eremita e começa a reparação da capela de São Damião. Fim do processo de conversão; começo dos anos de conversão, segundo a cronologia de Tomas de Celano. (Exemplos 1C 18, 21, 55, 88, 109).
1208 - Janeiro ou fevereiro: trabalha na reparação de São Damião, San Pietro e Santa Maria Degli Angeli ou Porciúncula.
1208 - 24 de fevereiro: ouve o evangelho da missa de São Matias, na Porciúncula, sobre a missão apostólica. Muda as vestes de eremita e passa a usar as de pregador ambulante, descalço. Início da pregação apostólica. Aqui propriamente começa o estilo de vida franciscana, apostólica, de presença. 16 de abril: recebe em sua companhia os irmãos Bernardo de Quintavalle e Pedro Cattani. No dia 23, recebe o irmão Egídio na Porciúncula.
Primavera (março-junho): a primeira missão. Francisco e Egídio vão à Marca de Ancona no litoral adriático. Recebe mais três companheiros, inclusive Filipe (Longo). Outono ou inverno (entre setembro-março): segunda missão. Os sete vão a Poggiobustone no vale de Rieti. Depois de ter-se certificado do perdão dos pecados e do futuro crescimento da Ordem, Francisco envia os seis, e mais um que se lhes agregara, para a terceira missão, dois a dois. Bernardo e Egídio vão a Florença.
1209 - Começos: os oito voltam à Porciúncula. Ajuntam-se-lhes outros quatro. Primavera (março-junho): Francisco escreve breve Regra e vai a Roma com os onze. Obtém a aprovação do Papa Inocêncio III, só oralmente. Seria esta a primeira Regra, perdida. Na volta passam por Orte e se estabelecem em Rivotorto perto de Assis, num rancho abandonado.Basílica superior de São Francisco de Assis Oto (Otão) IV é coroado imperador em Roma, a 4 de outubro. Está em Assis entre dezembro de 1209 e janeiro de 1210. Passa com seu cortejo perto de Rivotorto, mas não se sabe se antes da coroação ou depois.
1209 - Ou 1210. Os frades mudam-se para a Porciúncula, depois que um camponês toma para estábulo de seu burro. Possível começo da Ordem Terceira Secular. A Porciúncula era dos beneditinos cluniacenses que a emprestaram a Francisco. Torna-se o berço da nova Ordem.
1211 - Verão (junho-setembro): Francisco vai à Dalmácia e retorna.
1212 - 18-19 de março: na noite do domingo de Ramos, a nobre jovem Clara di Favarone foge de casa e é recebida na Porciúncula. Talvez em maio fica alguns dias no mosteiro de São Paulo e algumas semanas no mosteiro beneditino de Panzo (perto de Assis) e por fim recolhe-se a S. Damião, onde fica até sua morte em 1253. Segue-a a irmã Inês, 16 dias depois.
1213 - 8 de maio: em São Leão, perto de S. Marino, conde de Chiusi, Orlando Cattani, oferece a Francisco o Monte Alverne (La Verna), perto de Arezzo, para servir de eremitério. É o monte da crucifixão de Francisco, em 1224.
1213 - ou 1214/15. Francisco pretende ir em missão a Marrocos, entre os muçulmanos, mas chega apenas à Espanha, onde adoece gravemente, retornando logo à Itália. Tomás de Celano "agradece a Deus esta doença", porque com a volta de Francisco, é recebido na Ordem (10 56).
1216 - Verão (junho-setembro): Francisco obtém do sucessor de Inocêncio III, o Papa Honório III, em Perusa, a indulgência da Porciúncula.
1217 - 5 de maio: capítulo geral de Pentecostes na Porciúncula. Primeira missão para além dos Alpes e ultramarina. Instituição de províncias. Frei Egídio vai para Túnis. Frei Elias para a Síria. Francisco pretende viajar para a França, mas o Cardeal Hugolino, legado papal na Toscana, encontra-o em Florença e o convence a permanecer na Itália.
1219 - 26 de maio: capítulo geral de Pentecostes. Grandes missões no exterior: Alemanha, Hungria, Espanha, Marrocos, França. Em junho, Francisco vai de navio de Ancona para o Oriente, a exemplo dos outros. Óleo de Manuel da Costa Ataíde, no foro da Sacristia da Capela da Ordem III de São Francisco, em Mariana/MG Os que vão à França, interrogados se são albigenses, respondem afirmativamente, não sabendo que albigenses são denominados os hereges cátaros (puros) do Sul da França. O bispo de Paris e professores da Universidade, examinando a sua Regra, constata que a mesma é católica e evangélica. Dirigem-se, porém, ao papa, pedindo informações. Este declara-os católicos e com Regra aprovada pela Santa Sé.
Para a Alemanha viajam cerca de 60. Do alemão conhecem apenas a palavra "Ya" (sim). Perguntados se querem comida ou, hospedagem, respondem: "Ya". Perguntados se são hereges lombardos (pobres da Lombardia = Valdenses) e se vêm espalhar seus erros, também respondem: "Ya".Presos, surrados, despidos, ridicularizados, sofrem como cães. Vendo que não podem produzir frutos na Alemanha, voltam para a Itália. Começam dai por diante a julgar tão cruel a Alemanha que só pelo desejo do martírio voltariam outra vez para lá.
Na Hungria também os missionários sofrem os maiores vexames. Quando vão pelos campos, os pastores atiçam os cães contra eles e dão-lhes cacetadas. Pensando que querem sua roupa, dão-lhes as túnicas exteriores. Depois as vestes... Acabam voltando para a Itália.
Os que vão para Marrocos, são martirizados e depois canonizados como os protomártires franciscanos (Beraldo, Pedro, Acúrsio, Adjuto, Otão: 1220). Movido por esse fato, Santo Antônio, então cônego regular de Coimbra com o nome de Fernando, pede ingresso na Ordem Franciscana.
1219 - Outono (setembro-dezembro): Francisco vai ao acampamento do Sultão do Egito, Melek-el-Kamel (1218-38), e tem "entrevista" com ele. A 5 de novembro, o exército dos cruzados toma Damieta, perto de Alexandria, no Egito. Francisco tem pouco resultado junto ao Sultão. Escreve o cronista que, ao chegar, é maltratado. ignorando a língua dos turcos, apenas diz: "Soldan, Soldan". Então é levado à sua presença e depois reconduzido por homens armados para junto dos exércitos que cercam Damieta.
1220 - Inícios: Francisco viaja para São João d'Acre (Accon), onde há uma fortaleza dos cruzados, e vai à Terra Santa. Na sua ausência, Francisco deixa dois "vigários", que, porém, começam a introduzir novidades na Ordem, instituindo novos dias de jejum e abstinência, além dos já marcados. Um frade, encarregado das clarissas, pede privilégios ao papa em favor delas, contra a vontade do santo, que prefere "vencer pela humildade mais que pelo poder da lei". Outro, subtraindo-se à Ordem, pretende fundar uma nova Ordem para leprosos de ambos os sexos.1220 - Primavera ou verão (março-setembro): alarmado pelas notícias que um frade leva ao Oriente, retorna à Itália, desembarcando em Veneza. Nessa ocasião, o Cardeal Hugolino é nomeado protetor da Ordem.
1220 - (ou 1217-18?): Francisco entrega o governo da Ordem a Frei Pedro Cattani, como seu vigário.
1221 - Março: morre Frei Pedro Cattani.Maio: capítulo geral de Pentecostes. Frei Elias de Cortona é eleito vigário em substituição ao falecido. Francisco apresenta a segunda Regra (Não-bulada ou não aprovada por bula papal), que Frei Cesário de Espira, versado em Sagrada Escritura, adornou com muitos textos bíblicos.
No fim do capítulo, Francisco, diz o cronista, lembra de novo a missão da Alemanha, fracassada em 1219. Pergunta se há voluntários. "Apresentam-se cerca de 90, inflamados pelo desejo do martírio (!), oferecendo-se à morte". Entre eles, o cronista que refere o fato, Frei Jordão de Jano e Frei Tomás de Celano, o biógrafo de São Francisco. Esta missão, mais bem preparada, dirigida pelo alemão Frei Cesário de Espira, tem sucesso.
1221 - Aprovada a Regra da Ordem Terceira Secular pelo Papa Honório III.
1221 - 1222 (?). Francisco faz uma viagem de pregação ao Sul da Itália.
1222 - 15 de agosto: Festa da Assunção. Francisco prega em Bolonha (sede de estudos jurídicos). Suas palavras visam mais " extinguir inimizades e reformar os pactos de paz", conforme relata um ouvinte. "Muitas facções de nobres, entre os quais existia velha inimizade, com derramamento de sangue, foram levadas à pacificação".
1223 - Inícios: em Fonte Colombo, Francisco redige a 3ª Regra, que é discutida no capítulo geral de junho. A discussão continua em Roma, e em outubro Francisco se dirige ao Papa para pedir a aprovação. 29 de novembro: Honório III aprova, com bula papal, a Regra definitiva, ainda hoje em vigor. O texto original conserva-se como relíquia no Sacro Convento de Assis. Provavelmente houve colaboração dos frades e do representante da Santa Sé.
24/25 de dezembro: na noite de Natal, Francisco celebra a festa em Greccio, junto a um presépio.
1224 - 2 de junho: segue uma missão de frades para a Inglaterra. Bem-sucedida.Em fim de julho ou início de agosto, o vigário da Ordem, Frei Elias é advertido (sonho, ou visão?), que Francisco terá ainda 2 anos de vida.15 de agosto a 29 de setembro: Francisco, com Frei Leão e Frei Rufino, passa no Alverne, preparando-se com uma quaresma de oração e jejum para a festa de São Miguel Arcanjo. Em setembro, tem a visão do Serafim alado e recebe os estigmas.Em outubro ou inícios de novembro, Francisco retorna a Porciúncula, via Borgo San Sepolcro, Monte Casale e Città di Castello.
1224 - ou 1225, dezembro-fevereiro: cavalgando um jumento, Francisco faz um giro de pregações pela Úmbria e Marcas (Ancona).
1225 - Março: visita Clara em São Damião. Suas vistas pioram muito, então. Ele pretende ficar ali numa cela, ou na casa do capelão, mas, cedendo aos pedidos do vigário da Ordem, Frei Elias, consente em receber tratamento médico: a estação é muito fria, e o tratamento é transferido.Abril ou maio: ainda em São Damião, Francisco recebe tratamento, mas não melhora. Recebe a promessa da vida eterna. Depois de uma noite dolorosa, atormentado pela dor e por ratos, compõe o Cântico do Irmão Sol. Junto a Santa Clara.Junho (?): acrescenta uma estrofe ao Cântico do Irmão Sol, comemorando a reconciliação entre o bispo e o podestá de Anis: "Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor, e suportam enfermidades e tribulações. Bem-aventurados os que sofrem na paz, pois por ti, Altíssimo, coroados serão".Aconselhado por uma carta do Cardeal Hugolino, protetor da Ordem, deixa São Damião e vai para a vale de Rieti.Inícios de julho: acolhido em Rieti pelo Cardeal Hugolino e pela corte papal (que lá está de 23/6 a 6/2), para submeter-se ao tratamento dos médicos da corte pontifícia. Vai a Fonte Colombo para tratamento, sob insistência do Cardeal Hugolino, mas o difere, devido à ausência de Frei Elias.Julho ou agosto (?): em Fonte Colombo, o médico cauteriza as têmporas de Francisco, mas com pouco resultado.Setembro: Francisco vai a S. Fabiano, perto de Rieti (Floresta), para ser tratado por outro médico, que opera sua vista. Restaura então a vinha do pobre padre, danificada por visitantes de Francisco.
1225 - De outubro deste ano a 1226, Francisco vive ora em Rieti, ora em Fonte Colombo.Abril: vai, a Sena para outro tratamento.Maio ou junho (?): volta à Porciúncula, via Cortona.Julho-agosto: no calor do verão é levado para Bagnara, nas colinas perto de Nocera.Fim de agosto ou inicio de setembro: piorando de saúde, é levado, via Nottiano, para o palácio do bispo de Assis. D. Guido acha-se ausente, em peregrinação ao Santuário de São Miguel, cuja festa se celebra no dia 29, no monte Gargano.Sentindo iminente a morte, pede para ser levado para a Porciúncula. Chegado à planície, lança sua bênção sobre Assis. Nos últimos dias de vida, dita o Testamento, autotestemunho de incalculável valor para a vida e os propósitos de homem tão singular.Com a proximidade da morte, pede que o deitem nu no chão. Depois aceita emprestado o hábito que o guardião lhe dá. Faz ler o evangelho da última Ceia e abençoa os filhos seus, presentes e futuros.
1226 - 3 de outubro, à tarde: Francisco cantando "mortem suscepit" (morreu cantando). No domingo seguinte, 4 de outubro, é sepultado na igreja de São Jorge, na cidade de Assis, mas o cortejo fúnebre passa antes pelo mosteiro de São Damião, para a despedida de Clara.
1228 - 16 de julho: Francisco é canonizado. Relíquias trasladadas para a nova basílica, em construção, em 25 de maio de 1230.
(Cronologia baseada em Saint Francis of Assisi. A Biography by Omer Englebert. Translation by Eve Marie Cooper. Second Edition. English Edition revised and argumented by Ignatius Brady, O.F.M and Raphael Brown with introduction, appendices, and comprehensive bibliography covering modem research. Chicago 1965. Completada por Fr. Ildefonso Silveira, O.F.M.).

Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 4ª PARTE

Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
4ª Parte

São Francisco e sua forma de vida continuam a ser atuais

São Francisco não é certamente o santo mais popular, mas é com certeza o santo mais universal e atual. De sua universalidade dão testemunho os milhares de seguidores espalhados por todo o mundo, não só na Igreja católica, mas também em outras Igrejas irmãs. São Francisco não é patrimônio exclusivo dos franciscanos ou dos católicos; na realidade, é um santo para todos os homens e mulheres de boa vontade. De sua atualidade falava-nos João Paulo II em sua mensagem ao Capítulo de Pentecostes de 2003: “A atração de São Francisco é muito grande”. Com razão foi eleito o homem do II milênio. Diante dessa constatação, é lógico que também nós lhe perguntemos: “Por que a ti? Por que a ti?”. Pessoalmente, fiz-me essa pergunta muitas vezes e a resposta que encontro é sempre a mesma: o segredo do fascínio que Francisco continua a despertar após 800 anos está em sua “inatualidade”. Francisco, como todo o profeta, é “inatual”, vai sempre além, antecipa o futuro, não se deixa aprisionar pelo presente. É a sorte das sentinelas (cf. Is 21,11-12) e de quem se sente realmente “peregrino e forasteiro neste mundo” (1Pd 2,11; cf. RB 6,2); é a condição do homo viator ou in statu viae, do crente em busca constante, do seguidor de Jesus e de quem, como Francisco, faz do Evangelho sua regra e vida (cf. RB 1,1); é o destino do todo o peregrino que faz sua esta lei: “hospedar-se sob teto alheio, ansiar pela pátria, andar pacificamente”. O que é presente, passa; mas o Evangelho, como forma de vida, não passa: “Jesus Cristo [evangelho do Pai à humanidade] é o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8). Como não sai de moda quem, como o Poverello, assume o Evangelho como regra e vida, como exigência de totalidade.
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1. João Paulo II, Mensagem ao Capítulo geral, n. 5.
2. LM, VII,2,5.
Trecho do Relatório do Ministro Geral Frei José Rodríguez Carballo, OFM, “Com Lucidez e Audácia, em tempos de refundação”

Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 3ª PARTE


Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
3ª Parte





O Carisma Fundacional

Todo carisma se dá na confluência de pelo menos três elementos, entre si diversos, mas, ao final, em surpreendente afinidade: Deus e sua gratuidade, o ser humano e sua sensibilidade, o tempo e suas vicissitudes. Sim, Deus é a fonte dos carismas, e os distribui a quem, quando e como lhe aprouver: não há como merecê-los nem forçá-los, são gratuitos. Ao concedê-los, Deus respeita a sensibilidade humana, que tem poder de acolhida ou recusa, de adesão ou fuga à graça. Ao longo do caminhar da Igreja, o Espírito Santo irrompe em diferentes tempos e lugares, obedecendo a desígnios que desconhecemos, surpreendendo-nos por vezes com inesperadas primaveras. Nesse caminhar afloram os carismas. Mas que são eles?
O carisma é graça (charis), dom, manifestação do Espírito em pessoas escolhidas, habilitando-as a iniciativas novas e especiais (vocação) em favor da comunidade eclesial, seja na linha do serviço, do testemunho, da profecia, da misericórdia, da evangelização... Visa mais o bem dos outros que o próprio. O Espírito Santo provê a Igreja de pessoas carismáticas que possam responder criativa e evangelicamente às urgências dos tempos e lugares (sinais dos tempos). Não obstante sua absoluta gratuidade, o carisma conta sempre com a participação humana: sensibilidade, acolhida, docilidade, compromisso das pessoas a quem é concedido...
O Carisma fundacional de uma família religiosa, como a Família Franciscana, resulta de uma experiência do Espírito, que se torna experiência fundante e que, em seguida, passa aos discípulos e discípulas para ser vivida, custodiada e desenvolvida em proveito do povo de Deus e do Reino. É claro que nos fundadores e fundadoras existe uma especificidade do carisma que lhes é própria e exclusiva. É claro também que o carisma transmitido não é nenhuma camisa de força, inflexível, a ser reproduzido repetitivamente, na marra, mas um dom benfazejo, aberto à dinâmica permanente do Espírito, que impele as pessoas a recriarem, no tempo presente, uma história parecida com a das origens, sob o influxo do mesmo espírito. O discernimento espiritual é imprescindível para a fidelidade criativa ao carisma dos fundadores.
Quando Francisco, naquele certo dia, encontrou-se com o Evangelho, este lhe soou como uma revelação e um convite: a exemplo de Jesus Cristo, tornar-se pequeno, menor, despojado de poder e riqueza, e ir, assim, pelo mundo anunciando o Reino de Deus e a conversão. Francisco e, em seguida, Clara e os respectivos grupos desencadearam, assim, um movimento evangélico-penitencial que, em boa parte, correspondia aos anseios do tempo.
Seria, seguramente, inadequado considerar a vida franciscana quase como uma verdade caída do céu, da qual Francisco ou Clara de Assis seriam apenas simplórios receptores ou meros executores de uma revelação sobrenatural. As fontes testemunham que, ao ouvir o referido texto do Evangelho, Francisco teria dito, segundo a versão de Celano: É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que eu desejo fazer do íntimo do coração. Ou, segundo a versão do Anônimo Perusino: Eis o que desejamos, eis o que procurávamos... Esta será a nossa regra. Parece uma significativa coincidência. É como se Francisco, desde sempre, procurasse aquilo que ora lhe é revelado e encontrasse, finalmente, o que, nas penumbras de suas inquietudes, há tempos, buscava. O Evangelho não lhe é estranho, antes corresponde em cheio a suas aspirações, como se fosse a clara e convincente resposta a suas próprias buscas. Desde sua experiência de prisioneiro, Francisco vivia decepcionado com o sistema de então, fundado na servidão e em relações de vassalagem, e sonhava com outras formas de convivência. Tudo isto constitui o chão de onde ele ouve a voz do Evangelho.
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1. Verdadeiramente, tudo quanto há de belo na história do mundo foi feito às nossas ocultas por um misterioso acordo entre a humilde e ardente paciência do homem e a doce piedade de Deus (E. Leclerc, Desterro e ternura. Braga: Ed. Franciscana, 7).
2.Cf. S. Congregação para os Religiosos e S. Congregação para os Bispos, Mutuae Relationes. 1978.
Trecho do Documento da FFB “Reviver o Sonho de Francisco e Clara de Assis no Chão da América Latina e do Caribe”


Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

domingo, 5 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 2ª PARTE

Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
2ª Parte




8º Centenário do Carisma Francisclariano - 2008/2009

Há 800 anos, o Espírito Santo agraciou Francisco e Clara com a vocação de levar uma vida de Irmãos e Irmãs Menores. A Igreja reconheceu e confirmou este carisma que deu início a um grande movimento, um modo especial de ser Igreja e sociedade civil.No decurso dos séculos houve inúmeras pessoas que se sentiram atraídas por esta “forma de vida”. Uma delas é Isabel da Turíngia, filha do Rei André II da Hungria, nascida em 1207, padroeira da Terceira Ordem Franciscana. Em 24 de fevereiro de 1208, na festa do apóstolo Matias, Francisco ouve na Capela de Porciúncula aquela passagem do Evangelho “Ide e anunciai: “O Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios! Recebestes de graça, dai também de graça. Não leveis nos cintos moedas de ouro, de prata ou de cobre.” Mt 10, 7-9. Profundamente emocionado com aquilo que ouve, exclama: Isto é o que desejo; é o que procuro; é o que busco de todo o coração! No dia 15 de abril do mesmo ano, os primeiros irmãos juntaram-se a ele. Juntos, abrem três vezes a Sagrada Escritura e recebem os seguintes versos orientadores: vai, vende tudo.....! Marcos 10,21 – Não leveis nada para o caminho..., Lucas 9,3 – Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo...! Mateus 16,24 Este é o início do movimento franciscano e, para nós, é a razão de considerarmos o ano de 1208 como o ano do nascimento do nosso carisma. 1209 é o ano em que o Papa Inocêncio III deu a autorização verbal a Francisco de fundar uma ordem. É o início da dimensão institucional do movimento franciscano. Uma forma alternativa de viver o EvangelhoA forma de vida evangélica escolhida por Francisco e Clara foi uma verdadeira alternativa para as outras formas de vida então existentes. Clara e Francisco moldam, durante toda a vida, esta nova identidade da sua comunidade. “Se alguém lhe disser outra coisa ou sugerir algo diferente que impeça a sua perfeição,ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Antes de mais nada, abraça o Cristo pobre, como uma virgem pobre!” (2In17-18) Por ocasião dum Capítulo de Esteiras em Porciúncula, Francisco disse na presença do Cardeal de Óstia, aos irmãos: “Deus chamou-me para o caminho da simplicidade e da humildade e, na verdade, indicou-me este caminho, para mim e para aqueles que confiam em mim e que querem seguir-me neste caminho. Portanto, não quero que me citeis outra Regra, nem de São Bento, nem de Santo Agostinho nem de São Bernardo nem outro caminho e forma de vida além daquele que, misericordiosamente o Senhor me revelou e concedeu. E o Senhor disse-me, que devia ser como um novo louco neste mundo e não quis conduzir-nos por outro caminho, que não o desta ciência.” (EP 68,6-7). Elói Leclerc OFM afirma magistralmente: “Quando Francisco pediu à Igreja o reconhecimento da sua forma de vida e a dos seus irmãos, com certeza não pediu que a mesma se renovasse conforme a visão dele. Só pediu a autorização de poder viver segundo o Evangelho. Pediu o direito de poder viver numa comunidade reconhecida, pura, simples e evangélica. Pediu um espaço de liberdade e de simplicidade dentro da instituição eclesiástica feudal, uma zona franca fora das estruturas sedutoras de poder. A liberdade de viver segundo o Santo Evangelho pressupõe uma luta corajosa”.(Francisco de Assis, o retorno ao Evangelho). A celebração dos 800 anos deste carisma para a Igreja e o mundo nos desafia a investigar se nós realmente somos ainda uma alternativa evangélica no nosso mundo de hoje, um “zona franca” dentro da Igreja e da sociedade. Comprometemo-nos, sendo franciscanos/as, a defender os direitos humanos, a viver a opção preferencial pelos pobres, lutar pela preservação da criação e pela paz entre os povos para, assim, cooperar na construção duma sociedade mais justa. O nosso mundo precisa do “espírito de Assis”, disse o Papa João Paulo II numa das suas últimas homilias! É neste espírito que se deve consolidar a paz e promover a reconciliação. O espírito de Assis que o nosso mundo de hoje necessita tão urgentemente.
Fonte: Adaptação do texto publicado por Frei Antônio Rotzetter, no Boletim do CCFMC/julho de 2005.
Fonte: Franciscanos (matéria e foto)