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Visita a Capela da Medalha Milagrosa, localizada na Rue du Bac, 140 - Paris

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segunda-feira, 25 de março de 2013

Mensagem para Páscoa

Franciscanos:

Mensagem do Ministro Geral para Páscoa

CREIO, SENHOR, MAS AUMENTA MINHA POBRE FÉ (cf. Mc 9,24)

“Ressuscitou!” (Lc 24,6).
Esta é, meus queridos irmãos e irmãs, a experiência dos que comeram e beberam com Ele depois da sua ressurreição (cf. Atos 10,41), e de todos os que se sentem renascidos “para a esperança viva, para a herança incorruptível” (1Pe1,3-4). “Ressuscitou!” Este é o fundamento da nossa fé, a razão da nossa esperança e o motivo da nossa caridade: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé” (1Cor 15,14). Sem esta experiência, a cruz de Jesus e as nossas seriam uma tragédia e a vida cristã um absurdo. A partir dela, ao contrário, podemos cantar com a liturgia: “O Crux, ave, spes unica”, “Salve, ó cruz, nossa única esperança!”. O Crucificado “ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Cor 15,4). Eis aqui o núcleo central da nossa fé e do kerigma primitivo: “Tanto eu como eles, eis o que proclamamos” (1Cor 15,11). A ressurreição é o grande “sim” de Deus Pai a seu Filho e, nele, a nós, por isso é também o tema do anúncio e o fundamento da nossa fé.
Sim, verdadeiramente ressuscitou!
Sempre me impressionou o fato que os cristãos orientais neste período se saúdam com as seguintes palavras: “Cristo ressuscitou”, ao que se responde “Sim, verdadeiramente ressuscitou!”. Sim, ressuscitou. Esta confissão de fé a fazemos no contexto do Ano da fé, querido por Bento XVI “para que a Igreja renove o entusiasmo de crer em Jesus Cristo, único Salvador do mundo, reavive a alegria de caminhar pela via que nos tem indicado; e testemunhe de modo concreto a força transformadora da fé” (Bento XVI, Audiência 17/10/2012).
Crer, um caminho que dura tanto quanto a vida.
Talvez possa parecer estranho que dedique esta carta de Páscoa ao tema da fé. Alguns poderiam pensar que a fé é um pressuposto óbvio na vida de um religioso e franciscano. Eu não creio que seja assim. Realmente a fé nunca pode ser dada por descontada, particularmente em nosso tempo em que “uma profunda crise de fé atingiu muitas pessoas” (PF 2). E dado que atravessar a Porta da fé (cf. Atos 14,27) “implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira”, que “tem início no batismo (cf. Rom 6,4) […] e está concluída com a passagem através da morte para a vida eterna”(PF 1), é necessário que em todo tempo e em toda circunstância da vida se faça verdade sobre nossa fé, a fim de que esta cresça dia a dia e possa “fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo” (PF 2). Precisamos ter a coragem de perguntar-nos: sou pessoa de fé ou um simples ateu praticante? Qual é o estado real de “saúde” da minha fé? Temos de ter também a lucidez necessária para dar uma resposta sincera e profunda a perguntas tão vitais como estas.
Penso de dizer a verdade ao afirmar que a crise de fé vivida dentro da Igreja, como muitas vezes denunciou o Papa, também é palpável entre nós. Ao afirmar isso não penso tanto numa fé teórica e conceitual, mas numa fé celebrada, vivida e confessada na vida quotidiana. Sem negar que a maior parte dos irmãos dão cotidianamente, sem holofotes, sem aplausos e sem grandes discursos, testemunho humilde de uma fé confessada, vivida e celebrada, permanecendo fiéis contra toda a esperança e fazendo de sua vida experiência do mistério pascal, também é verdade que o secularismo, entendido como um conjunto de atitudes hostis à fé e que afeta vastos setores da sociedade, pode ter entrado em nossas fraternidades e em nossas vidas; e que a queda do horizonte da eternidade e a redução do real à única dimensão terrena tem sobre a fé o efeito que tem a areia jogada sobre a chama: a sufoca e acaba por apagá-la. Creio que seja necessário, especialmente durante este Ano da fé, fazer uma parada, moratorium, para avaliar a nossa fé. Quanto são atuais as palavras do então Cardeal Ratzinger quando, em 1989, afirmava: “a apostasia da idade moderna se funda sobre a queda de uma verificação da fé na vida dos cristãos.”
Fé é vida.
O Papa na sua catequese sobre a fé, no dia 17 de outubro de 2012, afirma: “Ter fé no Senhor não é um fato que interessa só à nossa inteligência, a área do saber intelectual, mas é uma mudança que envolve a vida, a totalidade de nós mesmos: sentimento, coração, inteligência,
vontade, corporeidade, emoções, relações humanas.” E nesta mesma ocasião o Papa Bento se pergunta: “A fé é verdadeiramente a força transformadora em nossa vida, em minha vida? Ou é só um dos elementos que fazem parte da existência, sem ser o determinante que a envolve totalmente?” É isto, meus queridos irmãos e irmãs, o que temos de perguntar-nos, porque a fé, longe de ser algo separado da vida, é a sua alma: “A fé cristã, operosa na caridade e forte na esperança, não limita, mas humaniza a vida; mais ainda, a torna plenamente humana” (Bento XVI, Audiência …). Não podemos falar de fé sem fazer referência à vida, porque é esta que a torna compreensível e atraente (cf. Sant 2, 1ss). Fé e vida se exigem reciprocamente, e uma sustenta a outra.
Por outro lado, sustentados pela fé, olhamos com confiança o nosso compromisso pela transformação das estruturas de pecado, esperando “novos céus e nova terra, onde habitará a justiça” (2P 3,13). Só unindo fé e vida, fé e compromisso em favor de uma sociedade mais em sintonia com os valores do Evangelho, seremos “sinais vivos da presença do Ressuscitado no mundo” (PF 15).
Com razão o Capítulo de 2006 nos dizia no documento final: “A fé implica tudo o que somos, […] A vida na fé é a verdadeira fonte da nossa alegria e da nossa esperança, do nosso seguimento a Jesus Cristo e do nosso testemunho para o mundo” (Sfc, 18). Fé e vida são inseparáveis.
São Boaventura, no Prólogo do Breviloquium, define a fé com três imagens que considero muito esclarecedoras em relação ao que estamos dizendo: “fundamentum stabiliens”, fundamento que dá estabilidade; “lucerna dirigens”, lâmpada que dirige; “ianua introducens”, porta que introduz. Enquanto fundamento, a fé é o que dá estabilidade à nossa vida; enquanto lâmpada, a fé é a luz que consente ver e indica a direção justa; enquanto porta, a fé é a que permite ir mais além e que introduz na comunhão com o Santo dos santos. A fé é a luz que nos permite alcançar e poder abrir a porta que nos introduz sem obstáculos no mundo de Deus, permitindo-nos caminhar segundo a Sua vontade.
A fé: graça e responsabilidade.
Crer supõe, acima de tudo, acolher um dom com o qual somos agraciados imerecidamente: o dom da fé.
“O Senhor lhe abrira o coração para que atendesse ao que Paulo dizia”, afirmam os Atos ao referir-se à Lídia (cf. Atos 16,14). Francisco assim o reconhece também em seu Testamento: “O Senhor me deu uma tão grande fé […] O Senhor me deu e me dá tanta fé…” (cf. Test 4.6). Para Francisco, e também para nós, tudo é graça (cf. Test 1.2.4.6.14.25), também a fé. Por isso a fé visa sempre atuar e transformar a pessoa a partir de dentro, visa a conversão da mente e do coração.
A fé, no entanto, é também compromisso pessoal para conservá-la e fazê-la crescer. Por isso Bento XVI nos propõe que durante este Ano da fé façamos “memória do dom precioso da fé” (PF 8). Já o santo Bispo de Hipona numa de suas homilias sobre a Redditio Symboli, a entrega do Credo, diz: “Vós o tendes recebido [o Credo], porém deveis tê-lo sempre presente na mente e no coração, deveis repeti-lo nos vossos leitos, pensar nele nas praças e não o esquecer durante as refeições; e, mesmo quando o corpo dorme, o vosso coração continue de vigília por ele” (S. Agostinho, Sermo 215, 1). A Igreja primitiva pedia que se aprendesse de memória o Credo (cf. PF 9), para conservar a fé e para recordar a própria condição de pessoas de fé. Este re-cordar, passar de novo pelo coração, não se limita ao passado, mas faz com que a fé entre no presente, qualificando a própria vida, e se abra ao futuro desenvolvendo-se, como cresce o grão de mostarda ( Mt 13,31). Assim o conteúdo do Credo, síntese de nossa fé, se faz história, se faz vida e se abre às mirabilia Dei, “obras admiráveis de Deus”, que o Senhor continua a operar em nós.
A fé é, pois, uma graça que devemos acolher com verdadeira e profunda gratidão, e uma responsabilidade que nos leva a tomar consciência dela, “para reavivá-la, para purificá-la, para confirmá-la e para confessá-la” (Paulo VI, Exortação Apostólica. Petrum et Paulum
Apostolos, 1967). A fé, se queremos que não se apague, perdendo assim a possibilidade de ser sal e luz em nosso mundo (cf. Mt 5,13-16), deve ser redescoberta constantemente (cf. PF 4), e vivida com alegria, de tal modo que possamos confessá-la, individual e comunitariamente, interior e exteriormente (cf. Petrum...) e celebrá-la na liturgia e em nossa vida cotidiana (cf. PF 8.9). A fé que me foi dada, me foi também confiada para que a conserve e a faça crescer. Com o coração se crê, e com a boca se faz a profissão de fé (cf. Rom 10,10). Acolhida e responsabilidade são inseparáveis.
A fé: adesão a Cristo e à Igreja.
Tentando sintetizar ao máximo, penso que a resposta à pergunta, o que é a fé?, seja adesão. Adesão cordial a uma pessoa, à pessoa de Cristo, e adesão gozosa aos conteúdos, os que a Igreja nos propõe no Credo e através do Magistério. A adesão à pessoa de Jesus Cristo, essencial na vida da pessoa crente, comporta um encontro pessoal com Jesus através de uma vida intensa de oração, de uma rica vida sacramental e da Leitura orante da Palavra.
Temos de ser muito conscientes de que no campo da fé jogamos tudo no encontro com a pessoa de Jesus. Sem este encontro nossa adesão será a uma idéia ou ideologia, nunca a uma pessoa ou a uma forma de vida. Por outro lado, a adesão aos conteúdos da fé que nos apresenta a Igreja comporta o conhecimento de tais conteúdos e uma reflexão profunda sobre eles, assim como uma visão de fé sobre a própria Igreja. Não se trata de professar “a minha fé”, mas de fazer minha a fé da Igreja, o que se traduz em obediência caritativa (cf. Adm 3,6) e em consentimento “com a inteligência e a vontade ao que propõe a Igreja” (PF 10; Dei Verbum 5; Dei Filius III). Faço meu o convite do último Sínodo para reanimar o nosso entusiasmo de pertencer à Igreja (cf. Instrumentum Laboris 87). Somente com este entusiasmo poderemos “restaurá-la”, como fez Francisco.
A fé conforme Francisco.
Enquanto Irmãos Menores ou seguidores de Francisco, é importante deter-nos, ainda que brevemente, sobre o caminho da fé de Francisco e as suas expressões. Tendo presente os seus Escritos, é fácil descobrir que a fé do Assisense é, acima de tudo, uma fé teologal, com
clara estrutura trinitária e cristocêntrica (cf. Ad 1; RnB 22,41-55; 23,11; LM 9,7). A sua experiência espiritual se caracteriza por uma relação de familiaridade com a Trindade. Além disso, algo que salta imediatamente à vista é que sua fé tem uma dimensão eclesial, superando assim a visão meramente individualista. Francisco, como a própria Igreja, nos ensina a dizer “creio”, “cremos” (cf. PF 9). No Testamento faz confissão da sua “fé nas igrejas e nos sacerdotes” (cf. Test 4-7). Esta “fé nas igrejas e nos sacerdotes” nos leva a compreender também outro aspecto digno de nota: a importância existencial da Igreja na vida da fé de Francisco; importância que não se deve à perfeição de seus membros, particularmente da hierarquia ou dos sacerdotes, mas ao fato que nela se pode encontrar a Cristo. Deus fala a Francisco na Igreja e através dela, também quando esta “é ameaçada de ruína” (cf. 2Cel 10-11; LTC 13), porque nela, também naquele tempo, está Cristo. Francisco nunca verá a Igreja, a Igreja Romana da qual fala, como uma ameaça para viver o Evangelho, nem sequer quando esta poderia ser uma igreja “ferida” e “pecadora”. “E não quero considerar neles o pecado – dirá falando dos sacerdotes-, porque vejo neles o Filho de Deus, e eles são meus senhores” (Test 9). Desde sua fé em Cristo, que se encontra na Igreja e que passa através da fé “nas igrejas e nos sacerdotes”, se compreende porque o Poverello tenha entregado a sua Forma de vida, revelada-lhe pelo Altíssimo (cf. Test 14), à aprovação da Igreja, e que na
Regra prometa “obediência e reverência ao senhor papa Honório e a seus sucessores canonicamente eleitos e à Igreja Romana” (RB 1,2). Nessa mesma ótica, se entende muito bem que peça a seus Irmãos que vivam segundo “a fé e a vida católica” e que isto seja uma condição para permanecer na Fraternidade (cf. RnB 19,1-2). Também é facilmente compreensível que a “fé católica” seja para São Francisco um dos critérios fundamentais do discernimento de um candidato (cf. RB 2,3), e a Igreja critério para a verdadeira fé (cf. T. Matura, Francesco parla di Dio, Milano 1992).
Uma penúltima anotação.
Em seu itinerário, “o mistério eucarístico constitui para Francisco o coração da vida de fé” (P. Martinelli, Dammi fede diritta, Porziuncula 2012), como aparece, entre outros muitos textos, na primeira Admoestação.
Diante deste mistério é necessário ativar os olhos do espírito ou os olhos da fé, uma expressão que já encontramos em Santo Agostinho, para evitar o ver segundo a carne e, como consequência, “não ver nem crer” (cf. Adm 1,8; C. Vaiani, Vedere e credere. L’esperienza cristiana di Francesco, Milano 2000). Finalmente, temos de recordar que para Francisco o mistério eucarístico está intimamente unido à Palavra, ao ponto de considerar esta segundo a mesma lógica da Eucaristia, e para a Palavra pede “veneração” (cf. Ord 34-37), porque nela se deve honrar “o Senhor” (cf. Ord 36). Atrás das palavras, Francisco “vê” a Palavra; nas palavras escuta a Palavra salvífica do Pai no momento presente (cf. 2Fi 34).
Como se pode ver, a fé de Francisco não é, em absoluto, una fé abstrata. Hoje se nos apresenta como uma testemunha de fé: a confessou, a professou, a celebrou e a testemunhou com a sua vida, em um ambiente nada fácil. O que nos está dizendo Francisco como confessor da fé? Que mudanças nos pede no que se refere à fé?
Conclusão
Queridos irmãos e queridas irmãs: muitas vezes se diz que o problema da Igreja são os “afastados”. Pessoalmente penso que não só eles são o problema, mas também os “de perto” podem ser um problema quando permanecem na soleira da “Porta da fé” sem nunca atravessá-la.
O Ano que estamos vivendo é um convite urgente para atravessar a Porta da fé, para considerar-nos peregrinos na noite, para colocar-nos em caminho para encontrar Aquele a quem nunca buscaríamos se não tivesse vindo antes a buscar-nos (cf. Santo Agostinho,
Confissões, 13,1). Como afirmou o Cardeal Martini, a fé é sempre “uma fé mendicante”, como aquela dos Magos, nunca uma fé “pré-fabricada”, como a dos escribas (cf. Mt 2,1ss). Paulo pede a seu discípulo Timóteo de “buscar a fé” (cf. 2Tm 2,22), com a mesma constância como quando era jovem (cf. 2Tm 3,15). Acolhamos este convite como dirigido a cada um de nós e aproveitemos este Ano de graça para “fazer memória do dom da fé” (PF 8).
Cristo ressuscitou! Sim, verdadeiramente ressuscitou!
Meus queridos irmãos e minhas queridas irmãs: Feliz Páscoa de Ressurreição! Feliz caminhada neste Ano da Fé!
Roma,
Vosso irmão, Ministro e servo
Fr. José Rodríguez Carballo, ofm
Ministro Geral, OFM

Fonte: franciscanos

terça-feira, 14 de abril de 2009

FRANCISCANOS: CARISMA ONTEM E HOJE


Carisma ontem e hoje
Frei Almir Ribeiro Guimarães,OFM (*)


Nossa reflexão de hoje se apoiará fortemente sobre o vigoroso texto da FFB sobre os 800 anos do carisma franciscano "Reviver o sonho de Francisco e Clara no chão da América Latina e do Caribe", publicado em 2008.
1. O carisma é graça, dom, manifestação do Espírito Santo em pessoas escolhidas, habilitando-as a iniciativas novas e especiais (vocação) em favor da comunidade eclesial, seja na linha do serviço, do testemunho, da misericórdia e da evangelização. Visa mais o bem dos outros que o próprio.2. O Espírito Santo provê a Igreja de pessoas carismáticas que possam responder criativa e evangelicamente às urgências dos tempos e lugares (sinais dos tempos). Não obstante sua gratuidade, o carisma conta sempre com a colaboração humana: sensibilidade, acolhida, docilidade, compromisso das pessoas aos quais é concedido.3. Todo carisma se situa na confluência de pelos menos três elementos: Deus e sua gratuidade, o ser humano e sua sensibilidade, o tempo e suas vicissitudes. "Tudo o que há de belo na história do mundo foi feito sem que soubéssemos, por um misterioso acordo entre a humilde e ardente paciência do homem e a doce piedade de Deus" (Tirado da dedicatória do livro Desterro e Ternura, de Eloi Leclerc). Deus é fonte dos carismas e os distribui a quem quer e com eles suscita, na Igreja e no mundo, inesperadas primaveras.4."O Carisma fundacional de uma família religiosa como a Família Franciscana, resulta de uma experiência do Espírito, que se torna experiência fundante e que, em seguida, passa aos discípulos e discípulas para ser vivida, custodiada e desenvolvida em proveito do Povo de Deus e do Reino". Existe o carisma do fundador que tem sua especificidade. Existe o carisma dos discípulos.5. O carisma transmitido não é nenhuma camisa de força, inflexível, a ser repetido repetitivamente, na marra, mas um dom benfazejo, aberto à dinâmica permanente do Espírito, que impele as pessoas a recriarem, no tempo presente, uma história parecida com a das origens, sob o influxo do mesmo Espírito.6. O projeto franciscano nos convida a viver a fundo a experiência da fé em Deus e em Jesus Cristo. Sedento e faminto, o mundo busca pessoas que sejam referenciais desse absoluto, que desvelem o sentido da própria vida, que lhe indiquem a fonte e lhe apontem o onde ver a face e encontrar a proximidade de Deus. Retomando uma palavra de Paulo VI, o mundo busca pessoas que falem de um Deus que elas conhecem e que lhes seja familiar. Sem esta mística, sem esta contínua referência à profundidade da vida, sem esse mergulhar no Deus de Jesus Cristo, os irmãos e as irmãs de Francisco e de Clara podem até falar de Deus e anunciar o Evangelho, mas não serão mais do que nuvem sem água e árvore sem frutos. Só aquele que vive de Deus pode ser seu sacramento no mundo.7. Uma das marcas do carisma é o fato de nos termos como irmãos e irmãs, entre nós e comtodos. O fraternismo é a conseqüência mais imediata da experiência de Deus como único Pai e Mãe de todas as criaturas. São claras a nós, talvez mais do que poderiam ter sido a Francisco, as graves conseqüências para nossa própria Casa comum e para o próprio ser humano, do que poderia ser chamado de antropolatria, o culto e a celebração do homem por si mesmo. Dotado das poderosas armas de seu espírito, o ser humano, há séculos, comporta-se no mundo como se fora seu próprio e único senhor, à serventia do qual, tudo, literalmente tudo, deve estar disponível. Os desastres deste modelo já não são, hoje, apenas pressentimentos e prognósticos. Eles vitimam não apenas outros seres criados, mas voltam-se sobre o próprio ser humano. Francisco aparece como aquele que compreendeu que a única forma possível de vivermos humanamente é vivermos fraternalmente.8. Esta proximidade junto aos seres humanos, tão própria de nossa família franciscana, se traduz nessa sintonia com o coração do mundo e dos homens, pela qual nos colocaríamos em condições de captar afetiva, analítica e praticamente os reais apelos das verdadeiras necessidades de um mundo e de pessoas reais.9. Os franciscanos sabem improvisar. Não desconhecemos a necessidade de analisar, de prever, de programar. Sempre foi próprio dos irmãos e das irmãs de Francisco e Clara a flexibilidade, a imediatez e a improvisação criativa no socorro à vida. Quaisquer que sejam nossos empreendimentos, jamais podem abafar ou substituir nossa proximidade com as pessoas, com o povo, e absorver os irmãos e irmãs na sua operacionalidade. Empreendimentos não substituem o ser fraterno e a fraternidade, antes existe para viabilizá-lo.10. Os franciscanos se aproximam de vidas mais fragilizadas. O encontro de Francisco com os leprosos divide a vida em um antes e um depois. Francisco cuida desses seres como se fossem o corpo de Cristo. Volta-se com reverência e cortesia para as criaturas mais insignificantes. Alegra-se por tê-las tão perto e poder protegê-las. Experimenta a alegria e a dor dos seres todos. "Cuidando dos rejeitados do mundo, Francisco começava a ascender à genuína nobreza que buscava, que seria descoberta não nas armas, ou em títulos e batalhas, glórias ou desafios. A honra não estaria na companhia dos mais fortes, dos mais atraentes, dos mais bem vestidos ou mais seguros na sociedade, mas entre os mais fracos, os mais desfigurados, os que estavam marginalizados, dependentes e desprezados " (Donald Spoto, Francisco de Assis. O Santo relutante, p. 104).11. Francisco abdica a todo poder, prestígio, ambições para escolher o caminho que desce socialmente. Sai de Assis e vai para a periferia, em sinal de seu desacordo com o sistema e em resposta ao amor do Filho de Deus que se esvazia de sua divindade para tornar-se pobre, servidor dos humildes e morrendo na cruz, fora da cidade.Os franciscanos se sentem bem entre os humildes. Alegram-se ao encontrarem pessoas insignificantes e desprezadas, entre pobres, fracos, enfermos, leprosos e os que mendigam pela rua. Aproximam-se das criaturas com um olhar não possessivo, por isso elas se lhes revelam como irmãs e aliadas. Os franciscanos criam laços afetivos e não meramente ideológicos.
12. "Francisco desempenha hoje um papel invejável nos encontros ecumênicos e inter-religiosos, pois recebe comum aceitação e respeito não só de católicos mas de quantos acreditam nos valores humanos e na vida. É que ele não traz a marca da polêmica, mas da simpatia; não combate heresias, a não ser com o exemplo; valoriza mais a escuta do que a fala; e, no dizer de N. Kazantzakis, escuta a música dos pássaros, mas também lhe interpreta a letra. Em sua vida, busca o diálogo até com o sultão em tempo de plena cruzada; intervém para mediar a reconciliação entre o prefeito e o bispo de Assis e para restabelecer a paz em situações em que está rompida".13. Assim o carisma franciscano mostra sua atualidade. Subsiste uma misteriosa afinidade ou cumplicidade entre o carisma franciscano e as melhores bandeiras que mobilizam a consciência atual, quais sejam: a bandeira da solidariedade para com os pequenos e a da justiça social, expressão prática da minoridade; a bandeira da paz, constitutiva do anúncio franciscano e tão cara a São Francisco; a bandeira da ecologia, que tem em Francisco seu patrono e inspirador; a bandeira da sobriedade e frugalidade, face ao consumismo, e a da fraternidade, face à tentação de medir as pessoas pelo poder ou riqueza que possuem; a bandeira do diálogo e do ecumenismo, em todos os níveis, como condição de sobrevivência de nossa espécie, e a bandeira das relações de gênero, chance histórica única confiada às atuais gerações.
Concluindo
Hoje e aqui, sob o império da mais-valia, do desejo de lucro, do consumismo, quando de forma avassaladora a antropolatria, na sua face mais cínica a indiferença para com as criaturas, a exclusão dos pequenos, o aburguesamento -, a voracidade insaciável do sempre mais ter, parece não reter seus passos nem mesmo no espaço religioso e eclesial, exatamente aqui, interpelam-nos Francisco e Clara a andarmos em outras trilhas. Interpelam-nos a não esquecermos a partilha do pouco que somos e temos, a solidariedade dos pequenos gestos, que se não são suficientes para afrontar a frieza do mundo e os abusos contra as criaturas, nem para debelar a complexidade das dissimetrias sociais e econômicas, a miséria das maiorias e a violência das guerras, declaradas ou não pelo menos poderão levar o conforto de uma presença e um raio de esperança aos humildes: a esperança de que, no chão da América Latina e do Caribe, as trevas não haverão de ser isentas de luz na noite de seus sofrimentos.Proposta para estudo em grupo
1. Retomar o texto desta reflexão e discuti-lo.2. Ler e comentar em grupo o texto: O Encontro do Evangelho com a história (Eloi Leclerc, Francisco de Assis, Retorno ao Evangelho, Cefepal, Vozes, 1983)

(*) Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM é Assistente Nacional para a OFS e Assistente Regional da OFS do Sudeste II


Fonte: Franciscanos

sábado, 29 de novembro de 2008

SOLARIEDADE FRANCISCANA À SANTA CATARINA


Nota de solidariedade da Província aos catarinenses, a Frei Pedro e seus familiares



Santa Catarina faz parte natural do coração, da vida, da história de nossos Frades e da Província. Terra de Missão e Vocação.
Terra de presença, de tradição, de identificação com as raízes brasileiras e da diversidade étnica. A Bela e Santa Catarina faz parte do nosso afeto, do nosso modo de Evangelizar e do nosso modo de aprender com o seu povo.
Santa Catarina dos Colonos, dos Verdes Vales, das Malhas e do Turismo, do persistente trabalho que faz deste estado um modelo. Santa Catarina das praias e das paróquias.
Santa Catarina limita ao Sul da Imaculada. Santa Catarina sofrida pelos flagelos das chuvas, inundações, deslizamentos... tenha a nossa Solidariedade!
Como Província nos unimos à dor e às necessidades de tantas famílias desabrigadas!
Nós estamos unidos nas preces e no que for preciso acionar os frades mais próximos das localidades atingidas para socorrerem este povo.
Queremos unir nossas forças para dar força ao nosso confrade Frei Pedro da Silva, guardião e pároco de Santo Amaro da Imperatriz.
Queremos manifestar nossos sentimentos, rezar por ele, enviar nossas mensagens de apoio. Ele, mais do que todos nós sentiu na pele e no mais íntimo de si o que é perder um irmão e quatro sobrinhos mortos na catástrofe que atingiu o estado.
A sua dor é a nossa dor.
O seu espanto diante da situação é o nosso espanto.
A nossa fé é única e queremos pedir a Deus que dê a ele consolação e que seja o ponto de equilíbrio em sua família marcada pela tragédia.
Que ele não desabe este seu jeito simples, bom, calmo e decidido; que ajude a Reconstruir a Casa! Frei Pedro, nós estamos juntos!
O nosso abraço!
A nossa sintonia!

São Paulo, 27 de novembro de 2008
Frei Augusto Koenig,
OFM Ministro Provincial


Frei Vitório Mazzuco Filho,
OFMVigário Provincial



Fonte: Franciscano

domingo, 5 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 2ª PARTE

Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
2ª Parte




8º Centenário do Carisma Francisclariano - 2008/2009

Há 800 anos, o Espírito Santo agraciou Francisco e Clara com a vocação de levar uma vida de Irmãos e Irmãs Menores. A Igreja reconheceu e confirmou este carisma que deu início a um grande movimento, um modo especial de ser Igreja e sociedade civil.No decurso dos séculos houve inúmeras pessoas que se sentiram atraídas por esta “forma de vida”. Uma delas é Isabel da Turíngia, filha do Rei André II da Hungria, nascida em 1207, padroeira da Terceira Ordem Franciscana. Em 24 de fevereiro de 1208, na festa do apóstolo Matias, Francisco ouve na Capela de Porciúncula aquela passagem do Evangelho “Ide e anunciai: “O Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios! Recebestes de graça, dai também de graça. Não leveis nos cintos moedas de ouro, de prata ou de cobre.” Mt 10, 7-9. Profundamente emocionado com aquilo que ouve, exclama: Isto é o que desejo; é o que procuro; é o que busco de todo o coração! No dia 15 de abril do mesmo ano, os primeiros irmãos juntaram-se a ele. Juntos, abrem três vezes a Sagrada Escritura e recebem os seguintes versos orientadores: vai, vende tudo.....! Marcos 10,21 – Não leveis nada para o caminho..., Lucas 9,3 – Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo...! Mateus 16,24 Este é o início do movimento franciscano e, para nós, é a razão de considerarmos o ano de 1208 como o ano do nascimento do nosso carisma. 1209 é o ano em que o Papa Inocêncio III deu a autorização verbal a Francisco de fundar uma ordem. É o início da dimensão institucional do movimento franciscano. Uma forma alternativa de viver o EvangelhoA forma de vida evangélica escolhida por Francisco e Clara foi uma verdadeira alternativa para as outras formas de vida então existentes. Clara e Francisco moldam, durante toda a vida, esta nova identidade da sua comunidade. “Se alguém lhe disser outra coisa ou sugerir algo diferente que impeça a sua perfeição,ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Antes de mais nada, abraça o Cristo pobre, como uma virgem pobre!” (2In17-18) Por ocasião dum Capítulo de Esteiras em Porciúncula, Francisco disse na presença do Cardeal de Óstia, aos irmãos: “Deus chamou-me para o caminho da simplicidade e da humildade e, na verdade, indicou-me este caminho, para mim e para aqueles que confiam em mim e que querem seguir-me neste caminho. Portanto, não quero que me citeis outra Regra, nem de São Bento, nem de Santo Agostinho nem de São Bernardo nem outro caminho e forma de vida além daquele que, misericordiosamente o Senhor me revelou e concedeu. E o Senhor disse-me, que devia ser como um novo louco neste mundo e não quis conduzir-nos por outro caminho, que não o desta ciência.” (EP 68,6-7). Elói Leclerc OFM afirma magistralmente: “Quando Francisco pediu à Igreja o reconhecimento da sua forma de vida e a dos seus irmãos, com certeza não pediu que a mesma se renovasse conforme a visão dele. Só pediu a autorização de poder viver segundo o Evangelho. Pediu o direito de poder viver numa comunidade reconhecida, pura, simples e evangélica. Pediu um espaço de liberdade e de simplicidade dentro da instituição eclesiástica feudal, uma zona franca fora das estruturas sedutoras de poder. A liberdade de viver segundo o Santo Evangelho pressupõe uma luta corajosa”.(Francisco de Assis, o retorno ao Evangelho). A celebração dos 800 anos deste carisma para a Igreja e o mundo nos desafia a investigar se nós realmente somos ainda uma alternativa evangélica no nosso mundo de hoje, um “zona franca” dentro da Igreja e da sociedade. Comprometemo-nos, sendo franciscanos/as, a defender os direitos humanos, a viver a opção preferencial pelos pobres, lutar pela preservação da criação e pela paz entre os povos para, assim, cooperar na construção duma sociedade mais justa. O nosso mundo precisa do “espírito de Assis”, disse o Papa João Paulo II numa das suas últimas homilias! É neste espírito que se deve consolidar a paz e promover a reconciliação. O espírito de Assis que o nosso mundo de hoje necessita tão urgentemente.
Fonte: Adaptação do texto publicado por Frei Antônio Rotzetter, no Boletim do CCFMC/julho de 2005.
Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

sábado, 4 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 1ª PARTE

Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
1ª Parte
Apresentação

Neste 4 de outubro, Solenidade de Nosso Seráfico Pai São Francisco, terão início as comemorações em todo o mundo pelo Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana. Ou seja, há oito séculos um grupo de doze homens se apresentou ao Papa Inocêncio III para pedir-lhe que reconhecesse e aprovasse seu projeto de vida evangélica, a "Proto-regra". "E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do santo Evangelho. E eu o fiz escrever com poucas palavras e de modo simples, e o senhor Papa mo confirmou" (Test 14-15).
Este Especial quer indicar alguns textos que podem servir de subsídios para entender este tempo da graça das origens e também para celebrar o Santo que exerce um fascínio tão grande sobre os homens, de tal modo que, São Francisco não é um patrimônio religioso exclusivo da Ordem Franciscana ou da Igreja Católica, mas está além das fronteiras do Cristianismo. Grande parte são textos oficiais ou documentos da Ordem e, para completar, um pouco mais do que se escreve sobre o Poverello de Assis.
O documento da FFB, "Reviver o Sonho de Francisco e Clara de Assis no chão da América Latina e Caribe", conclui magistralmente ao falar deste Jubileu. "Ao celebrarmos 800 anos do Carisma Franciscano temos a ocasião de reacender em nós a chama do carisma, sopro do Espírito, que um dia irrompeu em Francisco e Clara, suscitando em torno deles a numerosa família de irmãos e irmãs, à qual temos a graça de pertencer. Que Francisco e Clara, paradigmas luminosos do peregrinar evangélico, invoquem sobre nós o Espírito que os conduziu, como Elias o invocou sobre Eliseu. E que assim possamos reviver o sonho de Francisco e Clara no chão da América Latina e Caribe: sermos presenças evangélicas, fraternas, densamente humanas, que procuram recriar, neste Continente, uma história parecida com a que eles viveram nos distantes primórdios. E isto, por estarmos, eles e nós, animados do mesmo Espírito e seguindo os passos do mesmo Jesus Cristo, humilde e servidor".
A Carta da Conferência da Família Franciscana (CFF), assinada pelos Ministros Gerais (superiores maiores) de todas as ordens franciscanas, com data de 29.11.2006, lembrou que este duplo movimento – ações de graças pelo chamar novamente a viver o Evangelho e a purificação da memória como reconhecimento das sombras da nossa família – deve nos levar a afrontar o desafio da refundação. “A experiência de oito séculos nos ensina que, como Francisco, temos sempre que retomar de novo o nosso itinerário de penitência evangélica que é a conversão, pôr em prática com gestos concretos para encarnar com a vida, pessoal e comunitária de cada dia, qualquer coisa da novidade e da juventude do Evangelho. Desde o primeiro século da nossa história, não temos cessado de “renascer”. (cf. Jo 3,3), como é testemunhado ainda hoje pelos nossos diferentes ramos e pelas centenas dos nossos Institutos. E é por isto que devemos alcançar as raízes, os “fundamentos”, ou seja, descobrir a maravilha da “força de Deus”, o Evangelho (Rm 1,16), a boa nova do Amor de Deus por nós e da comunhão com Ele, que a nós se oferece. Só sobre tal fundamento se pode construir um edifício sólido, uma verdadeira comunidade em missão na Igreja e no mundo. Este momento de graça - kairós - que vivemos no presente, nos coloca à prova, nos revelando a nossa fraqueza, mas nos convidando sobretudo a contar com o poder de Deus”, conclui.
Por último, Frei Regis Daher, assinala: “O projeto celebrativo da Ordem “A Graça das origens”, propõe para os anos 2008-2009 a meta: “Com espanto e gratidão, celebrar o grande dom de nossa vocação, para que o restituamos através de palavras e da vida” (p.20-21). Talvez este restituir, mais do que uma forma de anunciar (através de palavras) e de cultivar (através da vida) o dom da própria vocação, seja o reconhecimento de que esse dom não nos é dado numa única vez e de forma definitiva, mas que “ainda o recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia [...] e quanto maior e mais perfeita, mais ao Pai é devida” (TestC 1-4)”.
Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

AS CHAGAS DE SÃO FRANCISCO - ÚLTIMA PARTE


ORAÇÕES

Oração a São Francisco

Papa João Paulo II Ó São Francisco, estigmatizado do Monte Alverne,o mundo tem saudades de ti como imagem de Jesus Crucificado.Tem necessidade do teu coração aberto para Deus e para o homem,dos teus pés descalços e feridos, das tuas mãos trespassadas e implorantes.Tem saudades da tua voz fraca, mas forte pelo Evangelho.
Ajuda, Francisco, os homens de hoje a reconhecerem o mal do pecado e a procurarem a purificação da penitência. Ajuda-os a libertarem-se das próprias estruturas de pecado,que oprimem a sociedade hodierna.
Reaviva na consciência dos governantes a urgência da paznas Nações e entre os povos.Infunde nos jovens o teu vigor de vida, capaz de fazer frenteàs insídias das múltiplas culturas da morte.
Aos ofendidos por toda espécie de maldade,comunica, Francisco, a tua alegria de saber perdoar.A todos os crucificados pelo sofrimento, pela fome e pela guerra, reabre as portas da esperança. Amém.
(Em 17.09.1983, na Capela dos Estigmas - Alverne)

Do Prefácio - Missa das Chagas
Vós exaltastes a mais sublime perfeição do Evangelhoo vosso servo Francisco,pelos caminhos da altíssima pobreza e humildade.Inflamado de amor seráfico, vós os fizestes exultar de inefável alegriacom todas as obras de vossas mãos,e adornado dos sagrados estigmas,nos apresentastes a imagem do Crucificado,Jesus Cristo, Senhor Nosso.

Hino - Salve, ó São Francisco
Salve, ó São Francisco, que do pé das fragas,Vens assinalado de sagradas chagas.Cheio de amor, cheio de amor,as chagas trazes do nosso Salvador.Eis-te na presença, de Deus-Redentor,Serafim alado, de claro fulgor.Meigo, a ti olhando, Cristo, o Verbo eterno,eche tua alma de amor supremo.E então suas chagas, lúcidos sinais,em ti, Pai, formaram outras cinco iguais.De tuas grandezas, tens agora o selo,igual ao de Cristo; és nosso modelo

Oração Coleta - Missa das Chagas
Ó Deus, que para inflamar os nossos coraçõesno fogo do vosso amor, renovastes de modo admirávelos sinais da paixão do vosso Filho,na carne do bem-aventurado Pai Francisco,concedei que, por sua intercessão, configurados à morte do mesmo Filho,participemos igualmente de sua Ressurreição.


Da Sequëncia de São Francisco
Busca o ermo e, comovido, chora amargo, até o gemido,todo o tempo já perdido, quanto ao mundo consagrou.Na montanha, retirado, chora, reza, ao chão prostrado.Quando enfim, já serenado, vai a um antro repousar.Por rochedos protegido, do divino é possuído;todo mundo é preterido pelo céu que ele escolheu.Freia a carne, quando impura; penitência o desfiguraToma alento da Escritura, e do mundo se desfaz.Eis do céu, varão hierarca, surge o Divinal Monarca!Treme o Santo Patriarca, com pavor, ante a visão.Com as chagas adornado, as transfere ao Santo amado,que medita consternado o mistério da Paixão.Todo o corpo é assinalado, mãos e pés; ferido o lado;todo a Cristo conformado, chaga viva se tornou.Num colóquio misterioso, vê o futuro radioso,desfrutando divo gozo de celeste inspiração.Maravilha! Surgem cravos, fora negros, dentro flavos.Com seus membros cruciados sofre dura, ingente dor.Não foi arte da natura dos seus membros a abertura,nem de ferros a tortura que, implacável o feriu.Pelas chagas que portaste e do mundo triunfastee da carne te livraste, em vitória sem igual.São Francisco, te imploramos, nos perigos, te invocamos; Que no céu, gozar possamos a celeste glória.
Fonte: Franciscano

domingo, 21 de setembro de 2008

AS CHAGAS DE SÃO FRANCISCO - 5ª PARTE

PADRE PIO, O CASO MAIS RECENTE DE UM ESTIGMATIZADO



Francesco Forgione (1887-1968), o Padre Pio de Pietrelcina, era religioso capuchinho que, por receber os sinais da crucificação de Jesus (as feridas nas mãos, nos pés e no tórax), ficou conhecido como "O Estigmatizado de Gargano" (região onde vivia na Itália).Os estigmas de Pe. Pio começaram no dia 20 de setembro de 1918 e duraram até 23 de setembro de 1968. Segundo o novo santo da Igreja, canonizado este ano pelo Papa João Paulo II, estava no Coro da Igreja, depois de celebrar a Santa Missa, quando foi surpreendido com os estigmas Seu grito lancinante atravessou a nave da igreja, onde se encontravam alguns de seus confrades em oração. Neste período de calvário de Pe. Pio, vários laudos médicos foram feitos e todos não conseguiram classificar os estigmas dentro da clínica médica.Acompanhe este relatório do Dr. Romanelli, que o examinou por cinco vezes em quinze meses."Padre Pio tem um corte profundo, paralelo às costelas, no quinto espaço intercostal de seu lado esquerdo, medindo de 7 a 8 cm de comprimento. Na lesão das mãos, há grande abundância de sangue arterial. Contudo não se verifica inflamação alguma nas bordas da ferida, mas tornou-se uma zona de grande sensibilidade ao menor toque. A ferida das mãos apresenta-se recoberta por uma membrana de um vermelho escuro, mas também não se verifica inflamação, nem edema. Quando pressionei com meus próprios dedos a palma e o dorso das mãos, tive a impressão de haver um espaço vazio. Pressionando as feridas desta forma (na palma e no dorso da mão), não se pode saber se elas se comunicam, pois uma pressão mais forte causa uma dor lancinante. No entanto, repetindo várias vezes a experiência, pela manhã e à tarde, cheguei à mesma conclusão. A lesão dos pés tem as mesmas características da lesão das mãos, mas devido à pele dos pés ser mais espessa, fica difícil de repetir a experiência das mãos.Examinei Padre Pio cinco vezes, num período de quinze meses. Embora tenha notado certas modificações nos ferimentos, não me foi possível diagnosticar ou mesmo classificar suas lesões, segundo as cânones da clínica médica.
Fonte: Franciscanos
São Pio de Pietrelcina - chagas
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Amanhã, dia 22, publicaremos O MONTE ALVERNE
A FAMÍLIA CATÓLICA

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

AS CHAGAS DE SÂO FRANCISCO - 3ª PARTE

O SENTIDO E O SIGNIFICADO DAS CHAGAS DE SÃO FRANCISCOS
Frei Régis G. Ribeiro Daher

Mais do que desvendar o caráter histórico das Chagas de São Francisco, importa refletir sobre a experiência de vida que se esconde sobre este fato. O que significa a expressão de Celano "levava a cruz enraizada em seu coração"? O que isso significou para o próprio Francisco? Há um significado para nós hoje, naquilo que com ele ocorreu?
Um erro comum é o de ver São Francisco como uma figura acabada, pronta, sem olhar para a caminhada que ele fez até chegar à semelhança perfeita (configuração) com o Cristo. O que ocorreu no Monte Alverne é o cume de toda uma vida, de uma busca incessante de Francisco em "seguir as pegadas de Jesus Cristo". Francisco lançou-se numa aventura, sem tréguas, na qual deu tudo de si: a vontade, a inteligência e o amor. As chagas significam que Deus é Senhor de sua vida. Deus encontrou nele a plena abertura e a máxima liberdade para sua presença.
O segundo significado das chagas é o de que Deus não é alienação para o ser humano, ao contrário, é sua plena realização e salvação. Colocando-se como centro da própria vida é que o homem se aliena e se destrói; torna-se absurdo para si mesmo no fechamento do seu 'ego'. O homem só encontra sua verdadeira identidade, sua própria consistência e o sentido de sua existência em Deus. E Francisco fez esta descoberta: Jesus Cristo foi crucificado em razão de seu amor pela humanidade - "amou-os até o fim" - , e ele percorre este mesmo caminho.
O terceiro significado: as chagas expressam que a vivência concreta do amor deixa marcas. A exemplo de Cristo, Francisco quis suportar/carregar e amar os irmãos para além do bem e do mal (amor incondicional). Essa atitude o levou a respeitar e acolher o 'negativo' dos outros mantendo a fraternidade apesar das divisões. Esse acolher e integrar o negativo da vida é a única forma de vencer o 'diabólico', rompendo com o farisaísmo e a autosuficiência, aniquilando o mal na própria carne. Só assim, o homem é de fato livre, porque não apenas suporta, mas ama e abraça o negativo que está em si e nos outros.
O quarto significado: seguir o Cristo implica em morrer um pouco a cada dia: "Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz a cada dia e me siga" (Lc 9,23). Não vivemos num mundo que queremos, mas naquele que nos é imposto. Não fazemos tudo o que desejamos, mas aquilo que é possível e permitido. Somos chamados a viver alegremente mesmo com aquilo que nos incomoda, vencendo-se a si mesmo e integrando o 'negativo', de modo que ele seja superado. Nós seremos nós mesmos na mesma medida em que formos capazes de assumir nossa cruz. As chagas de São Francisco são as chagas de Cristo, e elas nos desafiam: ninguém pode conservar-se neutro, sem resposta diante da vida.
São Francisco não contentou-se em unicamente seguir o Cristo. No seu encantamento com a pessoa do Filho de Deus, assemelhou-se e configurou-se com Ele. Este seu modo de viver está expresso na "perfeita alegria", tema central da espiritualidade franciscana: "Acima de todos os dons e graças do Espírito Santo, está o de vencer-se a si mesmo, porque dos todos outros dons não podemos nos gloriar, mas na cruz da tribulação de cada sofrimento nós podemos nos gloriar porque isso é nosso".
Fonte: Franciscanos

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Amanhã, dia 20, publicaresmos, "As chagas de São Francisco - Que milagre é este?"
A FAMÍLIA CATÓLICA

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

IMPRESSÃO DAS CHAGAS DE SÃO FRANCISCO - II


UMA RELÍQUIA VIVA DESCIA DA MONTANHA
Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM



Desde a infância muitos de nós fomos aprendendo a gostar desse Francisco. Francisco das coisas pequenas, simples, irmão do sol, das estrelas, da água, do leproso e de frei Leão, Francisco, cheio de carinho para com o Menino das Palhas e o Jesus bondoso e pobre que morre na cruz, esse Jesus que é o amor que precisa ser amado.


São Boaventura escreve: “Francisco, servo verdadeiramente fiel e ministro de Cristo, dois anos antes de devolver o espírito ao céu, como tivesse começado num lugar alto, à parte que se chama Monte Alverne e, um jejum quaresmal em honra do Arcanjo São Miguel, inundado mais profusamente pela suavidade da contemplação do alto e abrasado pela chama mais ardente dos desejos celestes, começou a sentir mais copiosamente os dons da ação do alto. Então, enquanto se elevava a Deus pelos seráficos ardores e o afeto se transformava em compassiva ternura para com aquele que por caridade excessiva quis ser crucificado, numa manhã, pela festa da Exaltação da Santa Cruz, rezando na parte lateral do monte, ele viu como que a figura de um Serafim que tinha seis asas tão fúlgidas, tão inflamadas a descer da sublimidade dos céus, o qual chegando com um vôo rapidíssimo num lugar próximo ao homem de Deus, apareceu não somente alado, mas também crucificado, tendo as mãos e os pés estendidos, e pregados à cruz e as asas de modo tão maravilhoso dispostas de uma e outra parte que elevava duas sobre a cabeça, estendia duas para voar e com as outras duas velava o corpo, envolvendo-o todo (...). Depois de um certo colóquio secreto e familiar, ao desaparecer, a visão inflamou-lhe interiormente o espírito com ardor seráfico e marcou-lhe exteriormente a carne com a imagem do Crucificado, como se ao poder prévio de derreter o fogo seguisse uma impressão do selo” ( Legenda Menor – Os sagrados estigmas, n.1).

Dois anos antes de morrer, Francisco vai ao Monte Alverne. O santo vinha do Oriente, cansado, doente, vendo que, talvez seus irmãos, numerosos, estavam perdendo o ardor dos começos. Francisco, sem amargura, sente vontade de tomar certa distância dos fatos e dos acontecimentos. O Santo se dava conta que estava no final de sua caminhada. Tinha dores em todo o corpo. Estava tomado por estas febres loucas e enxergava mal. Não podia mais suportar a luminosidade do Irmão Sol. Era o tempo da festa da Exaltação da Santa Cruz. Quer fazer a quaresma de São Miguel no silêncio, na meditação, ao lado de seu Frei Leão. Quer estar mais perto de seu Senhor.


Toda sua vida fora busca de Cristo. Um dia ele teria formulado uma oração no seguinte teor: “Senhor, gostaria de ser digno de receber duas graças de vossa parte: experimentar em meu coração o amor que tiveste para com os homens e sentir a dor de tua acerbíssima paixão”. Esta súplica foi sento atendida pelo Senhor ao longo do tempo da vida de seu servo Francisco. Durante anos e anos, depois de sua conversão, ele sempre buscar entrar na intimidade do Senhor Jesus na grutas, nos caminhos, contemplando o rosto dos leprosos. Aos poucos esse Francesco foi “tendo os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. Foi se abrasando no amor de Cristo. Cristo é o Vivo que queima e arde. Estamos diante da mística. Do amado que seduz a amada. Francisco e Cristo se tornam uma unidade. Há uma identificação mística. Francisco continua Francisco e Cristo continua Cristo. Nasce no coração do assisiense o desejo de viver também as dores e os sofrimentos de Cristo.

Eloi Leclerc tenta descrever esse momento: “... a alma de Francisco se rasgava e sentimentos contraditórios se debatiam dentro dele. A inefável beleza do serafim e seu olhar benevolente e cheio de graça o fascinavam e o enchiam de alegria. Ao mesmo tempo, no entanto, o sofrimento do crucificado o aterrorizava. Perguntava-se, então: Como um espírito glorioso, imortal e tão belo podia sofrer a mais cruel agonia? Não sabia o que pensar. A agonia estava junto com o êxtase. A Paixão e a Glória, associadas de maneira estranha, pareciam cair sobre ele como um pássaro de rapina” ( in Francisco de Assis. O retorno ao Evangelho, p. 108).

Francisco não é mais dono de si. Aos poucos, ao longo dos anos da vida, ele foi se despedindo de si, se despojando, esvaziando-se de si mesmo e no espaço do vazio veio o êxtase. O amado ganha a força do amor do Amante. Quem puder compreender, que compreenda. Talvez esse Francisco pudesse dizer com Paulo: Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim!

Paul Claudel, tentando penetrar no Francisco que desce do monte, escreve: “Francisco tinha dado sua alma de tal forma que nem mesmo seu corpo conserva mais. Quando se lhe pede uma explicação, nada tem a nos dizer. Ele é propriedade de alguém que não explica, mas plenifica. É todo inteiro doação, como um esposo ou um recém-nascido. Caminha ao olhar de todos os homens como alguém que está inebriado, como um esposo que geme e que sorri, cambaleante e ferido de uma glória da qual ele é o inexplicável consorte. Quem desce trôpego do Alverne e mostra chaga e cicatriz secretamente a Clara é Jesus Cristo com Francisco, fazendo uma única realidade viva, sofredora e redentora” (cf. E.Leclerc, op. cit. p. 109).

A partir desse momento Francisco tem o selo do Amado gravado em seu coração e em sua carne. Agora era uma relíquia viva descendo a montanha. Nós, filhos de Francisco das chagas e das transfigurações, nos recolhemos no silêncio e tentamos pedir a Deus que pela intercessão do Francisco das Chagas nos leva ao Cristo iluminado, transfigurado e ressuscitado.
Fonte: Franciscanos

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

MÊS DA BÍBLIA - 10º CAPÍTULO - "FRANCISCO E O ESTUDO ACADEMICO"

Francisco e o estudo acadêmico

Talvez a mais clara e firme intervenção de Francisco sobre os estudos tenha acontecido por ocasião de uma assembléia de cerca de 5 mil frades em Assis (11.6.1223). Entre os frades, muitos deles notáveis por seu saber e grau de instrução, encontrava-se também o cardeal Hugolino, cardeal-referência ou protetor da Ordem e, pouco depois, Papa Gregório IX. Na ocasião, um grupo de frades, ao que tudo indica composto pelos aludidos doutos e por ministros provinciais, dirigiu-se ao cardeal Hugolino, rogando que intercedesse junto a Francisco a fim de que este concordasse em introduzir na Regra de vida elementos das normas de vida de São Bento, de Santo Agostinho, de São Bernardo.
Ouvida a peroração e tomando o cardeal pela mão, Francisco dirigiu-se à multidão de frades reafirmando-lhes redondamente que "o Senhor convidou-me a seguir a vida da humildade e mostrou-me o caminho da simplicidade"; que este mesmo Senhor o queria qual "um novo louco no mundo". É por meio desta sabedoria que Ele nos quer conduzir, afirmava. Contraponto a supraproclamada simplicidade a possíveis pretensões de doutos, arremata: "Pela vossa ciência e sabedoria, Ele vos confundirá". Não é difícil imaginar a reação dos ouvintes(..).Se, por um lado, como acima foi aludido, assinalamos a prevenção de Francisco em relação aos estudos, por outro, é evidente que esta prevenção não se refere ao estudo propriamente dito, mas sim, à postura dos frades em relação ao mesmo. Na verdade, era o modo como os frades poderiam conceber o estudo que estava diretamente ligado à limpidez, seja da escola de Francisco, ou seja, em última instância, da escola de Jesus Cristo. Por outro lado, embora Francisco "não tivesse tido nenhum estudo", tinha o bom senso do comerciante.
Foi este bom senso que o ajudou a buscar e a reter o essencial. Com efeito, iluminado pela luz eterna e através de assídua leitura, audição e memorização de textos bíblicos, "penetrava os segredos dos mistérios, e, onde ficava fora a ciência dos mestres, entrava seu afeto cheio de amor". Resumindo esta intuição do essencial, dizia Francisco, pelo final da vida, a um frade, que tinha aprendido tanta coisa na Bíblia que já lhe bastava meditar e recordar: já sei que o pobre Cristo foi crucificado. Desejava um conhecimento profundo, vale dizer, "da medula e não da casca, do conteúdo e não do invólucro, não das muitas coisas, mas daquele bem que é o grande, o maior, o estável".
Se Francisco, por um lado, exigia dos literatos, juristas, teólogos, pregadores e doutos em geral que, ao ingressar na Ordem, renunciassem à própria ciência para se apresentarem inteiramente disponíveis ao Crucificado, manifestava, por outro, o maior apreço aos mesmos doutos, bem como a outros sábios. E de se notar que em seus Escritos só apareça uma única vez o termo "teólogo". Mas aparece em sentido positivo: "a todos os teólogos e aos que nos ministram as santíssimas palavras divinas devemos honrar e venerar, como a quem nos ministra espírito e vida".
Finalmente, um texto expressivo para indicar a atitude de Francisco em relação aos estudos: a brevíssima carta, quase bilhete, dirigida a Santo Antônio: "Eu, Frei Francisco, saúdo a Frei Antônio, meu bispo. Gostaria muito que ensinasses aos irmãos a sagrada teologia, contanto que nesse estudo não extingas o espírito da santa oração e da devoção, segundo está escrito na Regra".
Aqui, Francisco manifesta sua satisfação, através da expressão: meu bispo dirigida a Santo Antônio e da outra: placet - me apraz, gosto, me alegro, aprovo. O motivo da satisfação de Francisco estaria no seguinte: em Santo Antônio, teria acontecido a admirável confluência do sábio e do teólogo, do santo e do homem de ciência, do ideal e de sua concatenação às exigências práticas da vida ao estudo, portanto. A cláusula condicionante contanto que está em perfeita sintonia com a ambigüidade ou tentação que Francisco percebia poder esconder-se no estudo ou no saber.
Portanto, do ponto de vista da sabedoria ou do "espírito do Senhor" ou da inspiração de Francisco não se trata de uma cláusula restritiva. Ela coloca, sim, o estudo que se deseja em relação à atitude do estudioso, em relação de servo da sabedoria, em outras palavras, em relação à promoção da vida. A mesma ressalva consta na Regra onde, com respeito ao trabalho (embora não especificado, se braçal ou intelectual), se estabelece a mesma ressalva.
Em suma, em relação à ciência e aos estudos, na função acima lembrada, podemos constatar o seguinte: Francisco os apoiou, seja acolhendo pessoas eruditas na fraternidade, seja acolhendo os serviços que estavam em condições de prestar (elaboração da Regra, funções administrativas da Ordem), seja reverenciando as pessoas doutas, seja alegrando-se pela teologia que Santo Antônio se dispôs ministrar em Bologna. Não se portou, porém, como um incentivador ingênuo. Expressou prevenção e cautela, compreensíveis a partir da percepção que ele tinha da ambigüidade do uso da ciência e dos estudos. Ambigüidade, não pela ciência ou pelo estudo em si mesmos, mas por aqueles que neles estariam envolvidos. Como lembramos, o próprio Francisco estudou, no sentido de se ter dedicado, de se ter consagrado durante toda vida a uma busca e a uma fruição do Amor. A própria Sagrada Escritura lhe forneceu os meios para conhecer, admirar e amar a ciência sagrada. Pressentia, porém, o risco que o estudo, que a busca do saber - também bíblico ou teológico-pastoral - poderia acobertar: ser utilizado como um umento de domínio, de orgulho, de poder, de distinção de classes, de discriminação social - poder que se torna cego em relação ao ideal de simplicidade, de pobreza, de fraternidade e que, enfim, o menospreza. Isto significa que Francisco, embora tivesse apreço pelo saber e por seus caminhos, relativizava tanto a um a outro em função da sabedoria do viver.
O fato de relativizar a importância de conhecimentos acadêmicos como instrumento essencial para a evangelização significa questionar a fundo algumas tendências eclesiais do tempo que consideravam a ciência como chave e arma para governar a Igreja, iluminar as inteligêcias e lutar contra os hereges. A postura de Francisco é questionadora e iluminadora ao mesmo tempo, tanto no âmbito secular como religioso, tanto para ontem para hoje.
Talvez hoje em dia se tenha até melhores condições para avaliar tanto os motivos de regozijo como de precaução de Francisco devido à magnitude de situações sociais e ecológicas de risco, frutos, não de um uso sábio do saber, mas do abuso do mesmo. Francisco navegava com liberdade nas águas das mediações: "ia direta, espontânea e vitalmente à realidade".Portanto, estas alusões parecem demonstrar ou sugerir que Francisco foi um criador de cultura, foi à fonte e trouxe o eternamente novo e antigo. Por isso, descortina horizontes. A Escola Franciscana nele se inspira. Pensa e traduz na cultura de cada tempo e em sistema filosófico-teológico sua inspiração. A ele deve a existência.

Texto do livro "Herança Franciscana"; capítulo "Os franciscanos e a ciência", de Frei Elói Dionísio Piva, ofm



Túmulo de São Francisco, em Assis, o altar guarda suas relíquias
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