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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Francisco em Ecatepec: Quaresma, tempo de desmascarar tentações


Francisco durante a homilia: orgulho é a pior tentação - AFP

14/02/2016 19:15  

Ecatepec (RV)

- Na segunda missa da Viagem Apostólica ao México, em Ecatepec, Francisco afirmou que a Quaresma é tempo de desmascarar três tentações: a riqueza, a vaidade e a pior delas - advertiu o Papa - orgulho. Recorrendo ao Evangelho, Francisco pediu que todos prestem atenção a não "tentar dialogar com o demônio", porque este vence sempre.


 
"Até que ponto nos acostumamos a um estilo de vida que considera a riqueza, a vaidade e o orgulho como a fonte e a força de vida?"
Na quarta-feira passada, começamos o tempo litúrgico da Quaresma; nele, a Igreja convida-nos a preparar-nos para a celebração da grande festa da Páscoa. É um tempo especial para lembrar o dom do nosso Batismo, quando fomos feitos filhos de Deus.
A Igreja convida-nos a reavivar o dom recebido para não o deixar cair no esquecimento como algo passado ou guardado em uma “caixa de recordações”.




Filhos do Pai

Este tempo de Quaresma é uma boa ocasião para recuperar a alegria e a esperança de nos sentirmos filhos amados do Pai. Este Pai que nos espera para nos livrar do cansaço, da apatia, da desconfiança e revestir-nos com a dignidade que só um verdadeiro pai e uma verdadeira mãe sabem dar aos seus filhos, as vestes que nascem da ternura e do amor.
O nosso Pai é pai de uma grande família: é Pai nosso. Sabe ter um amor, mas não gerar e criar “filhos únicos”. É um Deus que Se entende de família, de fraternidade, de pão partido e partilhado. É o Deus do “Pai Nosso”, não do “meu pai e padrinho de vocês».
Em cada um de nós, está inscrito, vive aquele sonho de Deus que voltamos a celebrar em cada Páscoa, em cada Eucaristia: somos filhos de Deus. Um sonho vivido por muitos irmãos nossos ao longo da história. Um sonho testemunhado pelo sangue de tantos mártires de ontem e de hoje.

Conversão

Quaresma: tempo de conversão, porque experimentamos na vida de todos os dias como tal sonho se encontra continuamente ameaçado pelo pai da mentira, por aquele que quer nos separar, gerando uma sociedade dividida e conflituosa, uma sociedade de poucos e para poucos.
Quantas vezes experimentamos na nossa própria carne ou na carne da nossa família, na dos nossos amigos ou vizinhos a amargura que nasce de não sentir reconhecida esta dignidade que todos trazemos dentro.
Quantas vezes tivemos de chorar e arrepender-nos, porque nos demos conta de não ter reconhecido tal dignidade nos outros. Quantas vezes – digo-o com tristeza – permanecemos cegos e insensíveis perante a falta de reconhecimento da dignidade própria e alheia.

Harmonização

Quaresma: tempo para regular os sentidos, abrir os olhos para tantas injustiças que atentam diretamente contra o sonho e o projeto de Deus. Tempo para desmascarar aquelas três grandes formas de tentação que rompem, fazem em pedaços a imagem que Deus quis plasmar.
Três tentações de Cristo... Três tentações do cristão que procuram arruinar a verdade a que fomos chamados. Três tentações que visam degradar e nos degradar.
1. A riqueza, apropriando-nos de bens que foram dados para todos, usando-os só para mim ou para “os meus”. É conseguir o pão com o suor alheio ou até com a vida alheia. Tal riqueza é pão que tem gosto de tristeza, de amargura e de sofrimento. Em uma família ou em uma sociedade corrupta, é o pão que se dá aos próprios filhos.
2. A vaidade: a busca de prestígio baseada na desqualificação contínua e constante daqueles que “não são ninguém”. A busca exacerbada daqueles cinco minutos de fama que não perdoa a “fama” dos outros. E, “alegrando-se com a desgraça alheia”, abre-se caminho à terceira tentação – a pior: o orgulho.
3. O orgulho, ou seja, colocar-se em um plano de superioridade de qualquer tipo, sentindo que não se partilha “a vida comum dos mortais” e rezando todos os dias: “Obrigado, Senhor, porque não me fizestes como eles”.

Três tentações de Cristo... Três tentações que o cristão enfrenta diariamente. Três tentações que procuram degradar, destruir e tirar a alegria e o frescor do Evangelho; que nos fecham em um círculo de destruição e pecado.

Por isso vale a pena perguntarmo-nos: Até que ponto estamos conscientes destas tentações na nossa vida, em nós mesmos?
Até que ponto nos acostumamos a um estilo de vida que considera a riqueza, a vaidade e o orgulho como a fonte e a força de vida?
Até que ponto estamos convencidos de que cuidar do outro, preocupar-nos e ocupar-nos com o pão, o bom nome e a dignidade dos outros seja fonte de alegria e de esperança?

Escolhemos Cristo

Escolhemos, não o diabo, mas Jesus;

Se recordarmos do que escutamos no Evangelho, veremos que Jesus não contesta o demônio com nenhuma palavra própria e sim com as palavras de Deus, com as palavras da Escritura porque, irmãos e irmãs, tenhamos em nossas mentes, com o demônio não se dialoga, não se pode dialogar porque ele vai vencer sempre. Somente a força da Palavra de Deus pode derrotá-lo. Escolhemos Cristo, não o demônio.

Queremos seguir os Seus passos, mas sabemos que não é fácil. Sabemos o que significa ser seduzidos pelo dinheiro, a fama e o poder.
Por isso, a Igreja oferece-nos este tempo da Quaresma, convida-nos à conversão com uma única certeza: Ele está à nossa espera e quer curar o nosso coração de tudo aquilo que o degrada, degradando-se ou degradando.

Misericórdia

É o Deus que tem um nome: misericórdia. O seu nome é a nossa riqueza, o seu nome é a nossa fama, o seu nome é o nosso poder. E é no seu nome que repomos a nossa confiança, como diz o Salmo: “Vós sois o meu Deus, em Vós confio”. Podemos repetir isto juntos: “Vós sois o meu Deus, em Vós confio”.
Que, nesta Eucaristia, o Espírito Santo renove em nós a certeza de que o seu nome é misericórdia e nos faça experimentar, em cada dia, que “o Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”, sabendo que com Ele e n’Ele “renasce sem cessar a alegria” (Exort. ap. Evangelii gaudium, 1).



Fonte RV
 

domingo, 27 de abril de 2014

S. João XXIII, "Papa da docilidade ao Espírito" e S. João Paulo II, "Papa da família"

S. João XXIII, "Papa da docilidade ao Espírito" e S. João Paulo II, "Papa da família" - Papa Francisco, na homilia das canonizações




 Uma incontável multidão participa, na Praça de São Pedro e imediações, assim como nos variados locais de Roma através de ecrans gigante, na Missa de canonização de João XXIII e de João Paulo II. Sobressaem os polacos e, entre os italianos, especialmente os fiéis da diocese de Bérgamo, terra natal do Papa Roncalli. Presente, concelebrando a Missa, o papa emérito, Bento

Como prevê o ritual, a celebração começou com o pedido, apresentado pelo cardeal Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. No momento da proclamação solene, intensos os aplausos da imensa assembleia.

Na homilia, Papa Francisco começou por comentar o Evangelho do dia, em que – observou – “encontramos as chagas gloriosas de Jesus ressuscitado”. Tomé, que não se encontrava presente na primeira manifestação do Senhor, disse que “se não visse e tocasse aquelas feridas, não acreditaria”. Oito dias depois, Jesus apareceu de novo no Cenáculo e, dirigindo-Se a ele, convidou-o a tocar as suas chagas. E então aquele homem sincero, habituado a verificar tudo pessoalmente, ajoelhou-se diante de Jesus e disse: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20, 28).

Se as chagas de Jesus podem ser de escândalo para a fé (fez notar o Papa Francisco), são também a verificação da fé.

“É por isso que no corpo de Cristo ressuscitado as chagas não desaparecem, continuam, porque aquelas chagas são o sinal permanente do amor de Deus por nós, sendo indispensáveis para crer em Deus: não para crer que Deus existe, mas sim que Deus é amor, misericórdia, fidelidade.”

Citando Isaías, São Pedro escreve aos cristãos: «pelas suas chagas, fostes curados».

“S. João XXIII e S. João Paulo II tiveram a coragem de contemplar as feridas de Jesus, tocar as suas mãos chagadas e o seu lado trespassado. Não tiveram vergonha da carne de Cristo, não se escandalizaram d’Ele, da sua cruz; não tiveram vergonha da carne do irmão (cf. Is 58, 7), porque em cada pessoa atribulada viam Jesus.
Foram dois homens corajosos, cheios da parresia do Espírito Santo, e deram testemunho da bondade de Deus, da sua misericórdia, à Igreja e ao mundo.”

Por outro lado - prosseguiu Papa Francisco – ambos eles foram sacerdotes, bispos e papas do século XX.

“Conheceram as suas tragédias, mas não foram vencidos por elas. Mais forte, neles, era Deus; mais forte era a fé em Jesus Cristo, Redentor do homem e Senhor da história; mais forte, neles, era a misericórdia de Deus que se manifesta nestas cinco chagas; mais forte era a proximidade materna de Maria.”

Nestes dois homens contemplativos das chagas de Cristo e testemunhas da sua misericórdia, habitava «uma esperança viva», juntamente com «uma alegria indescritível e irradiante» (1 Ped 1, 3.8).

“A esperança e a alegria que Cristo ressuscitado dá aos seus discípulos, e de que nada e ninguém os pode privar. A esperança e a alegria pascais, passadas pelo crisol do despojamento, do aniquilamento, da proximidade aos pecadores levada até ao extremo, até à náusea pela amargura daquele cálice. Estas são a esperança e a alegria que os dois santos Papas receberam como dom do Senhor ressuscitado, tendo-as, por sua vez, doado em abundância ao Povo de Deus, recebendo sua eterna gratidão.”

“Esta esperança e esta alegria respiravam-se na primeira comunidade dos crentes, em Jerusalém, de que nos falam os Actos dos Apóstolos na primeira leitura. É uma comunidade onde se vive o essencial do Evangelho, isto é, o amor, a misericórdia, com simplicidade e fraternidade.
E esta é a imagem de Igreja que o Concílio Vaticano II teve diante de si.”

“João XXIII e João Paulo II colaboraram com o Espírito Santo para restabelecer e actualizar a Igreja segundo a sua fisionomia originária, a fisionomia que lhe deram os santos ao longo dos séculos” – prosseguiu Papa Francisco, sublinhando que “são precisamente os santos que levam avante e fazem crescer a Igreja.” A docilidade ao Espírito foi “o grande serviço” do Papa João XXIII à Igreja

“Na convocação do Concílio, João XXIII demonstrou uma delicada docilidade ao Espírito Santo, deixou-se conduzir e foi para a Igreja um pastor, um guia-guiado, guiado pelo Espírito.
Este foi o seu grande serviço à Igreja; foi o Papa da docilidade ao Espírito Santo.”

Por sua vez, neste serviço ao Povo de Deus, João Paulo II foi o Papa da família.

“João Paulo II foi o Papa da família. Ele mesmo disse uma vez que assim gostaria de ser lembrado: como o Papa da família. Apraz-me sublinhá-lo no momento em que estamos a viver um caminho sinodal sobre a família e com as famílias, um caminho que ele seguramente acompanha e sustenta do Céu”

E o Papa Francisco concluiu a homilia fazendo votos de “que estes dois novos santos Pastores do Povo de Deus intercedam pela Igreja para que, durante estes dois anos de caminho sinodal, seja dócil ao Espírito Santo no serviço pastoral à família. Que ambos nos ensinem a não nos escandalizarmos das chagas de Cristo, a penetrarmos no mistério da misericórdia divina que sempre espera, sempre perdoa, porque sempre ama.”

A concluir a celebração, “esta festa da fé” (disse), antes da recitação da antífona mariana do Tempo Pascal, o Papa Francisco saudou e agradeceu todos os “irmãos Cardeais e os numerosíssimos Bispos e padres de todas as partes do mundo”. Um reconhecimento especial dedicou-o às Delegações oficiais de tantos países, vindas a Roma “para prestar homenagem (afirmou o Papa) a dois Pontífices que contribuíram de maneira indelével para a causa do desenvolvimento dos povos e da paz”.
Saudados também expressamente os peregrinos das dioceses de Bérgamo e de Cracóvia, terras de origem dos dois novos santos.
Agradecimentos foram expressos às autoridades italianas e da cidade de Roma, pela “preciosa colaboração” prestada à organização deste evento que terá trazido à Cidade Eterna umas 800 mil pessoas, assim como a tantas organizações e associações que deram o próprio contributo e os tantos voluntários.





domingo, 16 de setembro de 2012

HOMILIA DO PAPA NA MISSA EM BEIRUTE



Homilia do Santo Padre na missa celebrada em Beirute



Beirute



- Segue, na íntegra, a homilia proferida por Bento XVI, neste domingo, na missa celebrada no City Center Waterfront de Beirute, no Líbano.



Amados irmãos e irmãs!«Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo» (Ef 1, 3). Bendito seja Ele neste dia em que tenho a alegria de me encontrar convosco aqui, no Líbano, para entregar aos Bispos da região a Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Medio Oriente. Agradeço cordialmente a Sua Beatitude Béchara Boutros Raï as amáveis palavras de boas-vindas. Saúdo os outros Patriarcas e os Bispos das Igrejas orientais, os Bispos latinos das regiões vizinhas bem como os Cardeais e os Bispos vindos doutros países. Com grande afecto, saúdo a todos vós, queridos irmãos e irmãs do Líbano e também dos países de toda esta amada região do Médio Oriente, que viestes celebrar, com o sucessor de Pedro, Jesus Cristo crucificado, morto e ressuscitado. Dirijo também a minha deferente saudação ao Presidente da República e às Autoridades libanesas, aos Responsáveis e aos membros das outras tradições religiosas que quiseram estar aqui nesta manhã.Neste domingo em que o Evangelho nos interpela sobre a verdadeira identidade de Jesus, sentimo-nos a caminhar com os discípulos na estrada que leva às aldeias da região de Cesareia de Filipe. «E quem dizeis vós que Eu sou?» (Mc 8, 29): pergunta-lhes Jesus. O momento escolhido para lhes colocar esta questão não é sem significado. Jesus encontra-se num ponto de viragem decisiva da sua vida. Sobe para Jerusalém, para o lugar onde será realizado, através da cruz e ressurreição, o acontecimento central da nossa salvação. É também em Jerusalém que, depois de todos estes acontecimentos, vai nascer a Igreja. E, neste momento decisivo, Jesus começa por perguntar aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que Eu sou?» (Mc 8, 27), recebendo deles respostas muito variadas: João Batista, Elias, um profeta… Ainda hoje, como ao longo dos séculos, aqueles que, de diversas maneiras, se cruzaram com Jesus no seu caminho têm a sua resposta a dar. São abordagens que podem ajudar a encontrar o caminho da verdade. Mas as mesmas, embora não sejam necessariamente falsas, são insuficientes, porque não atingem o cerne da identidade de Jesus. Só alguém que aceite seguir pelo seu caminho, viver em comunhão com Ele na comunidade dos discípulos, é que pode ter um verdadeiro conhecimento. Tal é o caso de Pedro, que, desde há algum tempo, vive com Jesus e que agora responde: «Tu és o Messias» (Mc 8, 29). Resposta certa, sem dúvida alguma; mas ainda insuficiente, dado que Jesus sente a necessidade de a especificar. Ele entrevê que as pessoas poderiam servir-se desta resposta para desígnios que não são os seus, para suscitar falsas esperanças temporais sobre Ele. Não se deixa bloquear nos simples atributos do libertador humano que muitos esperam.Anunciando aos seus discípulos que terá de sofrer, ser condenado à morte e depois ressuscitar, Jesus quer fazer-lhes compreender quem Ele é verdadeiramente. Um Messias sofredor, um Messias servo, e não um libertador político omnipotente. Ele é o Servo obediente à vontade de seu Pai até ao ponto de perder a sua vida. É o que anunciava já o profeta Isaías na primeira leitura. Assim Jesus vai contra o que muitos esperavam d’Ele. A sua afirmação choca e desconcerta. E ouve-se o protesto de Pedro, que O censura, recusando para o seu Mestre o sofrimento e a morte. Jesus mostra-se severo com ele, e faz-lhe compreender que aquele que quiser ser seu discípulo deve aceitar ser servo, como Ele Se fez Servo.Seguir Jesus significa tomar a própria cruz para O acompanhar pelo seu caminho, um caminho incómodo que não é o do poder nem da glória terrena, mas o que leva necessariamente a renunciar a si mesmo, a perder a sua vida por Cristo e pelo Evangelho, a fim de a salvar. É que nos foi dada a certeza de que este caminho leva à ressurreição, à vida verdadeira e definitiva com Deus. Decidir acompanhar Jesus Cristo que Se fez o Servo de todos exige uma intimidade cada vez maior com Ele, colocando-se atentamente à escuta da sua Palavra, a fim de tirar dela a inspiração para o nosso agir. Ao promulgar o Ano da Fé, que começará em 11 de Outubro próximo, quis que cada fiel pudesse comprometer-se de maneira renovada neste caminho da conversão do coração. Por isso, ao longo deste ano, encorajo-vos vivamente a aprofundar a vossa reflexão sobre a fé para a tornar mais consciente e fortalecer a vossa adesão a Jesus Cristo e ao seu Evangelho.Irmãos e irmãs, o caminho por onde Jesus nos quer conduzir é um caminho de esperança para todos. A glória de Jesus revela-se no momento em que, na sua humanidade, Ele Se mostra mais frágil, especialmente na encarnação e na cruz. É assim que Deus manifesta o seu amor, fazendo-Se servo, dando-Se a nós. Porventura não é este um mistério extraordinário, por vezes difícil de admitir? O próprio apóstolo Pedro só o compreenderá mais tarde.Na segunda leitura, São Tiago lembrou-nos como este seguimento de Jesus, para ser autêntico, exija actos concretos: «Pelas obras, te mostrarei a minha fé» (Tg 2, 18). Servir é uma exigência imperativa para a Igreja, de modo que os cristãos são verdadeiros servos à imagem de Jesus. O serviço é um elemento constitutivo da identidade dos discípulos de Cristo (cf. Jo 13, 15-17). A vocação da Igreja e do cristão é servir; e fazê-lo, como o próprio Senhor, gratuitamente e a todos sem distinção. Assim, servir a justiça e a paz, num mundo onde a violência não cessa de alongar o seu rasto de morte e destruição, é uma urgência de modo a comprometer-se em prol duma sociedade fraterna, para edificar a comunhão. Amados irmãos e irmãs, peço ao Senhor de modo particular que conceda a esta região do Médio Oriente servidores da paz e da reconciliação, para que todos possam viver pacífica e dignamente. É um testemunho essencial que os cristãos devem prestar aqui, em colaboração com todas as pessoas de boa vontade. Eu vos convido a todos a trabalhar pela paz; cada qual ao seu nível e no lugar onde se encontra.Além disso o serviço deve estar no centro da vida da própria comunidade cristã. Todo o ministério, toda a função na Igreja é primariamente um serviço a Deus e aos irmãos. É este espírito que deve animar todos os baptizados, uns em relação aos outros, especialmente através dum compromisso efectivo a favor dos mais pobres, dos marginalizados, daqueles que sofrem, para que seja preservada a dignidade inalienável de toda a pessoa. Queridos irmãos e irmãs que sofreis no corpo ou no coração, o vosso sofrimento não é inútil. Cristo Servo está perto de todos aqueles que sofrem. Está presente junto de vós. Oxalá encontreis no vosso caminho irmãos e irmãs que manifestem concretamente a presença amorosa de Cristo, que não vos pode abandonar. Permanecei cheios de esperança por causa de Cristo!E vós todos, irmãos e irmãs, que viestes participar nesta celebração, procurai tornar-vos cada vez mais conformes ao Senhor Jesus, Ele que Se fez Servo de todos pela vida do mundo. Deus abençoe o Líbano, abençoe todos os povos desta amada região do Médio Oriente e lhes conceda o dom da sua paz. Amen.



Fonte: RV

sábado, 20 de novembro de 2010

HOMILIA DA CELEBRAÇÃO DO CONSISTÓRIO

PAPA: HOMILIA DA CELEBRAÇÃO DO CONSISTÓRIO
Cidade do Vaticano, 20 nov (RV)

- Segue na íntegra, a homilia do Papa, no Consistório, para a criação e proclamação dos novos cardeais. Senhores Cardeais,Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,queridos irmãs e irmãos!O Senhor me dá a alegria de realizar, mais uma vez, este ato solene, mediante o qual o Colégio Ccardinalício se enriquece com novos membros, escolhidos das diversas partes do mundo: trata-se de Pastores que governam com zelo importantes Comunidades diocesanas, de Prelados colocados à frente de Dicastérios da Cúria Romana, ou que serviram com fidelidade exemplar a Igreja e a Santa Sé. A partir de hoje, eles começam a fazer parte daquele “coetus peculiares”, que presta ao Sucessor de Pedro uma colaboração mais imediata e assídua, sustentando-o no exercício de seu ministério universal. A eles, em primeiro lugar, dirijo minha saudação afetuosa, renovando a expressão de minha estima e de minha apreciação pelo testemunho que dão à Igreja e ao mundo. Em particular, saúdo o Arcebispo Angelo Amato e lhe agradeço pelas palavras gentís que me dirigiu. Em seguida minhas cordiais boas-vindas às Delegações oficiais de vários países, aos representantes de numerosas dioceses, e a todos que vieram participar deste evento, durante o qual estes veneráveis e queridos Irmãos receberão o sinal da dignidade cardinalícia com a imposição do barrete e a atribuição do Título de uma Igreja de Roma.O vínculo de especial comunhão e afeto, que une estes novos Cardeais ao Papa, os torna singulares e preciosos cooperadores do supremo mandato confiado por Cristo a Pedro, de apascentar suas ovelhas (cfr Jo 21, 15-17), para reunir os povos com a solicitude da caridade de Cristo. É exatamente deste amor que nasce a Igreja, chamada a viver e a caminhar segundo o mandamento do Senhor, no qual se resumem toda a Lei e os Profetas. Estar unidos a Cristo na fé e na comunhão com Ele significa estar “radicados e fundados na caridade” (Ef 3, 17), o tecido que une todos os membros do Corpo de Cristo.A Palavra de Deus agora proclamada nos ajuda a meditar este aspecto tão fundamental. No trecho do Evangelho (Mc 10, 32 – 45) nos é colocada diante de nossos olhos a imagem de Jesus como o Messias – preanunciado por Isaías (cfr Is 53) – que não veio para ser servido, mas para servir: o seu estilo de vida se tornou a base das novas relações no interior da comunidade cristã e de um modo novo de exercer a autoridade. Jesus caminha para Jerusalém e preanuncia pela terceira vez, indicando-o aos discípulos, o caminho através do qual pretende levar até o fim a obra confiada a ele pelo Pai: é o caminho da humilde entrega de si mesmo até o sacrifício da vida, o caminho da Paixão, o caminho da Cruz. Mesmo assim, logo após este anúncio, como aconteceu com aqueles que nos precederam, os discípulos manifestam toda a sua dificuldade em compreender, a realizar o necessário “êxodo” de uma mentalidade mundana para a mentalidade de Deus. Neste caso são os dois filhos de Zebedeu, Tiago e João, que pedem a Jesus sentarem nos primeiros lugares ao lado dele na “glória”, manifestando expectativas e projetos de grandeza, de autoridade, de honra segundo o mundo. Jesus, que conhece o coração do homem, não permanece perturbado com esste pedido, mas imediatemente mostra o seu significado profundo: “vós não sabeis o que pedis”; em seguida leva os dois irmãos a entenderem o que significa colocar-se no seu seguimento.Qual é então o caminho que deve percorrer aquele que quer ser discípulo? É o caminho do Mestre, é o caminho de total obediência a Deus. Por isso Jesus pergunta a Tiago e a João: estais dispostos a partilhar minha escolha de realizar plenamente a vontade do Pai? Estais dispostos a percorrer esta estrada que passa pela humilhação, pelo sofrimento e pela morte por amor? Os dois discípulos, com a resposta segura, “podemos”, mostram, ainda uma vez, não terem entendido o sentido real do que o Mestre tem em mente. E de novo Jesus, com paciência, faz com que eles deem um passo avante: nem mesmo expperimentar o cálice do sofrimento e o batismo da morte dá direito aos primeiros lugares, porque isso é “para aqueles a quem está preparado”, está nas mãos do Pai Celeste: o homem não deve calcular, deve simplesmente abandonar-se em Deus, sem pretenção, conformando-se à sua vontade.A indignação dos outros discípulos se torna ocasião para estender o ensinamento a toda comunidade. Em primeiro lugar Jesus “ os chamou a si”: é o gesto da vocação primeira, à qual os convida a se voltarem para ele.É muito significativo este referir-se ao momento constitutivo da vocação dos Doze, ao “estar com Jesus” para serem enviados, porque recorda com clareza que cada ministério eclesial é sempre resposta a uma chamada de Deus, não é nunca fruto de um projeto pessoal ou de uma ambição pessoal, mas é conformar a própria vontade à do Pai que está nos Céus, como Cristo no Getsêmani (cfr Lc 22,42). Na Igreja ninguém é patrão, mas todos são chamados, todos são enviados, todos são reunidos e guiados pela graça divina. E nisto está também nossa segurança! Só ouvindo novamente a palavra de Jesus, que pede “ vem e segue-me”, só voltando à vocação original é possivel entender a própria presença e a própria missão da Igreja como autênticos discípulos.O pedido de Tiago e João e a indignação dos "outros dez" Apóstolos levantam uma questão central à qual Jesus responde: quem é grande, quem é o "primeiro" para Deus? O olhar se dirige ao comportamento que correm o risco de assumir "aqueles que são considerados os governantes das nações": "dominar e oprimir". Jesus indica aos discípulos um modo completamente diferente: "Entre vós, porém, não é assim". A sua comunidade segue outra regra, outra lógica, outro modelo: "Quem quiser se tornar grande entre vós será seu servidor, e quem quiser ser o primeiro entre vós será escravo de todos". O critério da grandeza e da primazia de Deus não é o domínio, mas o serviço; a diaconia é a lei fundamental do discípulo e da comunidade cristã, e nos deixa entrever alguma coisa do "Senhorio de Deus". E Jesus indica também o ponto de referência: o Filho do Homem, que veio para servir; sintetiza a sua missão na categoria de serviço, entendida não no sentido genérico, mas no concreto da Cruz, do dom total da vida como "resgate", como redenção para muitos, e o indica como condição para o seguimento. É uma mensagem que vale para os apóstolos, vale para toda a Igreja, vale, sobretudo, para aqueles que possuem a tarefa de guiar o Povo de Deus. Não é a lógica do domínio, do poder segundo os critérios humanos, mas a lógica do inclinar-se para lavar os pés, a lógica do serviço, a lógica da Cruz que está na base de todo exercício da autoridade. Em cada época, a Igreja está engajada a conformar-se a esta lógica e a testemunhá-la a fim de fazer transparecer o verdadeiro "Senhorio de Deus", que é o do amor. Venerados Irmãos eleitos à dignidade cardinalícia, a missão, à qual Deus vos chama hoje e que vos habilita a um serviço eclesial cheio de responsabilidade, requer uma vontade sempre maior de assumir o estilo do Filho de Deus, que veio a nós como aquele que serve (cf. 22, 25-27). Trata-se de segui-lo em sua doação de amor humilde e total à Igreja sua esposa, sobre a Cruz: é sobre aquele lenho que o grão de trigo, deixado cair pelo Pai no campo do mundo, morre para se tornar fruto maduro. Por isto, ocorre um fortalecimento ainda mais profundo e firme em Cristo. A relação íntima com Ele, que transforma sempre mais a vida a fim de que possamos dizer como São Paulo, "não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20), constitui a exigência primária para que o nosso serviço seja sereno e alegre e possa dar o fruto que o Senhor espera de nós.Queridos irmãos e irmãs aqui presentes, rezem pelos novos Cardeais! Amanhã, nesta Basílica, durante a celebração da Solenidade de Cristo Rei do Universo, entregarei a eles o anel. Será mais uma ocasião para "louvar o Senhor, que permanece sempre fiel" (Sl 145), conforme repetimos no Salmo Responsorial. O seu Espírito ajude os novos Purpurados no compromisso de serviço à Igreja, seguindo o Cristo na Cruz também, se necessário, usque ad effusionem sanguinis, sempre prontos – como dizia São Pedro na leitura proclamada – a responder a quem nos pede razão da esperança que está em nós (cf. 1 Pt 3, 15). A Maria, Mãe da Igreja, confio os novos Cardeais e seu serviço eclesial, a fim de que, com ardor apostólico, possam proclamar a todos os povos o amor misericordioso de Deus. Amém.


Fonte: RV

domingo, 4 de julho de 2010

DOMINGO - HOMILIA DO PAPA

HOMILIA DO PAPA
Cidade do Vaticano, 04 jul (RV)

- Bento XVI presidiu neste domingo a celebração eucarística na Praça Garibaldi, em Sulmona, na Itália, por ocasião dos oitocentos do nascimento do Papa Celestino V. Segue na íntegra a homilia do Santo Padre com a tradução livre de Mariangela Jaguraba.

Queridos irmãos e irmãs!
Estou muito feliz de estar aqui hoje e celebrar com e para vocês esta solene Eucaristia.
Saúdo o Pastor, Dom Ângelo Spina: obrigado pelas calorosas boas-vindas a mim dirigidas em nome de todos vocês, e pelos presentes que me foram oferecidos e que aprecio muito na qualidade de "sinais" – como são definidos – da comunhão afetiva e efetiva que une o povo desta querida Terra de Abruzzo ao Sucessor de Pedro.

Saúdo os arcebispos e os bispos aqui presentes, os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, os representantes de associações e movimentos eclesiais. Uma saudação especial ao prefeito, Dr. Fabio Federico, ao qual agradeço pela saudação de boas-vindas, ao representante do Governo e às autoridades civis e militares. Um agradecimento especial às pessoas que generosamente ofereceram a sua colaboração para realizar esta minha visita pastoral.


Queridos irmãos e irmãs! Vim para partilhar com vocês as alegrias e esperanças, fadigas e compromissos, ideais e aspirações desta comunidade diocesana.
Sei muito bem que em Sulmona não faltam dificuldades, problemas e preocupações: penso, sobretudo, nas pessoas que vivem concretamente a sua existência em condições precárias, por causa da falta de trabalho, da incerteza pelo futuro, do sofrimento físico e moral e como recordou o Bispo – do desânimo por causa do terremoto de 6 de abril de 2009.
A todos quero garantir a minha proximidade e a minha recordação na oração, e encorajo a cada um de vocês a perseverar no testemunho dos valores humanos e cristãos tão profundamente arraigados na fé e na história deste território e de sua população.
Queridos amigos! A minha visita se realiza por ocasião do Ano Jubilar proclamado pelos bispos de Abruzzo e Molise para celebrar os oitocentos anos do nascimento de São Pedro Celestino. Sobrevoando o território, pude contemplar a beleza das paisagens, e sobretudo, admirar algumas localidades extremamente ligadas à vida desta insigne pessoa: o Monte Morrone, onde Pedro conduziu durante muito tempo uma vida eremita; o mosteiro de Santo Onofre, onde em 1294, chegou a ele a notícia de sua eleição a Sumo Pontífice, durante o Conclave de Perugia; a Abadia do Santo Espírito, onde o altar maior foi por ele consagrado depois de sua coroação, ocorrida na Basílica de Collegamaggio em L'Aquila.
Nesta Basílica eu mesmo, em abril do ano passado, depois do terremoto que devastou a região, fui venerar a urna com seus restos mortais e deixar o pálio recebido no dia do início de meu pontificado. Passaram-se oitocentos anos do nascimento de São Pedro Celestino V, mas ele permanece na história pelos conhecidos acontecimentos de seu tempo e de seu pontificado e, sobretudo pela sua santidade.
A santidade, de fato, não perde nunca a sua força atrativa, não cai no esquecimento, não sai da moda, aliás, com o passar do tempo, resplandece sempre com mais luminosidade, expressando a perene busca do homem a Deus.
Da vida de São Pedro Celestino gostaria de citar alguns ensinamentos válidos também para os nossos dias.Pedro Angelerio desde a sua juventude "buscava Deus", um homem que tinha o desejo de encontrar respostas às perguntas de sentido da existência: quem sou, de onde vim, para onde vou, porque vivo?
Ele se coloca a caminho à procura da verdade e da felicidade, começa a procurar Deus e para ouvir a sua voz, decide se separar do mundo e viver como eremita.
O silêncio se torna assim o elemento que caracteriza a sua vida cotidiana. É no silêncio exterior, mas sobretudo, no interior, que ele consegue ouvir a voz de Deus, capaz de orientar a sua vida.
Tem aqui um primeiro aspecto importante para vocês: vivemos numa sociedade em que todo espaço, todo momento parece ser "enchido" por iniciativas, atividades, sons; muitas vezes não existe tempo nem mesmo para ouvir e para dialogar.
Queridos irmãos e irmãs!
Não tenhamos medo de fazer silêncio fora e dentro de nós mesmo, se quisermos ser capazes não somente de ouvir a voz de Deus, mas também daquelas pessoas que estão ao nosso redor, os outros.
É importante sublinhar também um segundo elemento: a descoberta do Senhor feita por Pedro Angelerio não é o resultado de um seu esforço, mas se torna possível com a Graça de Deus que o acolhe.
O que ele tinha, o que ele era, não vinha de si mesmo: lhe foi doado, era graça, e era por isso também responsabilidade diante de Deus e diante dos outros.
Mesmo se a nossa vida seja muito diferente, também para nós vale a mesma coisa: todo o essencial de nossa existência nos foi dado sem a gente pedir.
O fato de eu viver não depende de mim; o fato de existir pessoas que me tenham introduzido na vida, que tenham me ensinado o que seja amar e ser amado, que me transmitiram a fé e me abriram os olhos para Deus; tudo isso é graça.
De nossa iniciativa não poderíamos ter feito nada se não nos tivesse sido dado: Deus nos antecipa sempre e em cada vida existe o belo e o bom que nós podemos reconhecer facilmente como sua graça, como raio de luz de sua bondade.
Por isso, devemos ficar atentos, manter sempre abertos os "olhos interiores", e de nosso coração. E se nós aprendemos a conhecer Deus em sua bondade infinita, então seremos capazes também de ver, com alegria, em nossa vida os Santos – os sinais daquele Deus, que está sempre próximo de nós, que é sempre bom conosco, que nos diz "Tenham fé em mim!"
No silêncio interior, na percepção da presença do Senhor, Pedro del Morrone amadureceu uma experiência viva da beleza da criação, obra das mãos de Deus: sabia acolher o sentido profundo, respeitava os sinais e ritmos, usava aquilo que era essencial para a vida.
Sei que esta Igreja local, como também as outras de Abruzzo e de Molise, estão ativamente engajadas numa campanha de sensibilização para a promoção do bem comum e da salvaguarda da criação: encorajo vocês a este esforço, exortando-os a se sentirem responsáveis de seu próprio futuro, como também do futuro dos outros, respeitando e protegendo a criação, fruto e sinal do Amor de Deus.
Na segunda leitura, extraída da Carta aos Gálatas, ouvimos uma belíssima expressão de São Paulo, que é também um perfeito retrato espiritual de São Pedro Celestino: "Quanto a mim, que eu não me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio do qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo" (Gl 6, 14). A Cruz é o centro de sua vida, lhe deu força para enfrentar as amargas penitências e os momentos mais difíceis, desde a juventude até a última hora: ele sempre foi consciente de que dela vem a salvação.
A cruz deu também a São Pedro Celestino uma clara consciência do pecado, sempre a acompanhada de uma clara consciência da infinita misericórdia de Deus para com a sua criatura. Vendo os braços abertos de seu Deus crucificado, ele se deixou levar pelo mar infinito do amor de Deus. Como sacerdote, experimentou a beleza de ser administrador desta misericórdia absolvendo os penitentes de seus pecados, e quando foi eleito à Sé do Apóstolo Pedro, quis conceder uma particular indulgência, denominada "O Perdão Celestiniano".
Desejo exortar os sacerdotes a serem testemunhas claras e críveis da boa nova da reconciliação com Deus, ajudando o homem de hoje a recuperar o sentido do pecado e do perdão de Deus, para experimentar a alegria superabundante da qual nos falou o profeta Isaías na primeira leitura (cfr. Is 66, 10-14).
Enfim, um último elemento: São Pedro Celestino, mesmo tendo uma vida eremita, não "se fechou em si mesmo", mas foi tomado pela paixão de levar a boa nova do Evangelho aos irmãos. E o segredo de sua fecundidade pastoral estava no "permanecer" com o Senhor, na oração, como nos recordou o Evangelho de hoje: o primeiro imperativo é sempre o de pedir ao Senhor da messe (cfr. Lc 10, 2).
Somente depois deste convite que Jesus define alguns compromissos essenciais do discípulo: o anúncio sereno, claro e corajoso da mensagem do Evangelho – até nos momentos de perseguição – sem ceder ao fascínio da moda, da violência ou da imposição; a distância das preocupações pelas coisas – o dinheiro e o que vestir – confiando na Providência do Pai; a atenção e o cuidado particular pelos doentes no corpo e no espírito (cfr. Lc 10, 5-9). Estas foram também as características do breve e sofrido pontificado de Celestino V e estas são as características da atividade missionária da igreja naquela época.Queridos Irmãos e Irmãs!
Estou aqui entre vocês para confirmá-los na fé. Exorto a todos, com força e afeto, a permanecerem firmes fé que receberam, fé que dá sentido à vida e que doa a força de amar.
Que nos acompanhe neste caminho o exemplo e a intercessão da Mãe de Deus e de São Pedro Celestino.

Amém
Fonte: RV

domingo, 2 de maio de 2010

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI, NA MISSA CELEBRADA HOJE EM TURIM

HOMILIA DO PAPA NA MISSA CELEBRADA EM TURIM

"Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros"

Turim, 02 mai (RV)

– Bento XVI presidiu, esta manhã, a celebração eucarística na Praça São Carlos, em Turim, norte da Itália, por ocasião de sua visita ao Santo Sudário.Segue a homilia do Santo Padre com a tradução livre de Raimundo Lima.Caros irmãos e irmãs!Tenho a alegria de encontrar-me com vocês neste dia de festa e de celebrar para vocês esta solene Eucaristia. Saúdo cada um dos presentes, em particular, o Pastor da Arquidiocese de vocês, o Cardeal Severino Poletto, a quem agradeço pelas calorosas expressões a mim dirigidas em nome de todos. Saúdo também os Arcebispos e os Bispos presentes, os Sacerdotes, os Religiosos e as Religiosas, os representantes das Associações e dos Movimentos eclesiais. Dirijo um deferente pensamento ao Prefeito, Dr. Sergio Chiamparino, grato pela cortês saudação que me fez, ao representante do Governo e às Autoridades civis e militares, com um particular agradecimento àqueles que generosamente ofereceram a sua colaboração para a realização desta minha Visita pastoral. Estendo o meu pensamento àqueles que não puderam estar presentes, de modo especial aos doentes, às pessoas sozinhas e àqueles que se encontram em dificuldade. Confio ao Senhor a cidade de Turim e todos os seus habitantes nesta celebração eucarística, que, como todos os domingos, nos convidam a participarmos de modo comunitário da dúplice refeição da Palavra de verdade e do Pão de vida eterna.Encontramo-nos no tempo pascal, que é o tempo da glorificação de Jesus. O Evangelho que ouvimos há pouco nos recorda que essa glorificação se realizou mediante a paixão. No mistério pascal paixão e glorificação estão estreitamente ligadas entre si, formam uma unidade indivisível. Jesus afirma: <> (Jo 13, 31) e o faz quando Judas sai do Cenáculo para colocar em prática o plano de sua traição, que levará à morte do Mestre: justamente naquele momento tem início a glorificação de Jesus. O evangelista João o faz compreender claramente: de fato, não diz que Jesus foi glorificado somente após a sua paixão, por meio da ressurreição, mas mostra que a sua glorificação teve início justamente com a paixão. Nela Jesus manifesta a sua glória, que é a glória do amor, que se doa totalmente. Ele amou o Pai, fazendo a sua vontade até o fim, com uma doação perfeita; amou a humanidade dando a sua vida por nós. Desse modo já em sua paixão é glorificado, e Deus é glorificado nela. Mas a paixão é somente um início. Por isso Jesus afirma que a sua glorificação será também futura (cfr v. 32). Depois, o Senhor, no momento em que anuncia a sua partida deste mundo (cfr v. 33), quase como testamento a seus discípulos para continuar de modo novo a sua presença em nosso meio, dá-lhes um mandamento: <> (v. 34). Se nos amamos uns aos outros, Jesus continua presente em nosso meio.Jesus fala de um "mandamento novo". Mas qual é a sua novidade? Já no Antigo Testamento Deus havia dado o mandamento do amor; agora, porém, este mandamento tornou-se novo, enquanto Jesus lhe traz um acréscimo muito importante: <>. O que é novo é justamente este "amar como Jesus amou". O Antigo Testamento não apresentava nenhum modelo de amor, mas formulava somente o preceito de amar. Jesus, ao invés, deu-nos a si mesmo como modelo e fonte de amor. Trata-se de um amor sem limites, universal, capaz de transformar também todas as circunstâncias negativas e todos os obstáculos em ocasiões para progredir no amor.Nos séculos passados a Igreja que está em Turim conheceu uma rica tradição de santidade e de generoso serviço aos irmãos – como recordou o Cardeal Arcebispo e o Senhor Prefeito – graças à obra de zelosos sacerdotes, religiosos e religiosas de vida ativa e contemplativa e de fiéis leigos. As palavras de Jesus adquirem, então, uma ressonância particular para esta Igreja, uma Igreja generosa e ativa, a começar por seus padres. Dando-nos o mandamento novo, Jesus nos pede que vivamos o seu amor, que é o sinal verdadeiro crível, eloquente e eficaz para anunciar ao mundo a vinda do Reino de Deus. Obviamente somente com as nossas forças somos fracos e limitados. Há sempre em nós uma resistência ao amor e em nossa existência há tantas dificuldades que provocam divisões, ressentimentos e rancores. Mas o Senhor prometeu-nos estar presente em nossa vida, tornando-nos capazes deste amor generoso e total, que sabe vencer todos os obstáculos. Se estivermos unidos a Cristo, poderemos amar verdadeiramente deste modo. Amar os outros como Jesus nos amou é possível somente com aquela força que nos é comunicada na relação com Ele, especialmente na Eucaristia, em que o seu Sacrifício de amor que gera amor se torna presente de modo real.Gostaria de dizer, então, uma palavra de encorajamento em particular aos Sacerdotes e aos Diáconos desta Igreja, bem como aos Religiosos e às religiosas, que se dedicam com generosidade ao trabalho pastoral. Por vezes, ser operário na vinha do Senhor pode ser cansativo, os compromissos se multiplicam, as exigências são muitas, os problemas não faltam: saibam obter diariamente da relação de amor com Deus na oração, a força para portar o anúncio profético de salvação; centralizem a existência de vocês no essencial do Evangelho; cultivem uma real dimensão de comunhão e de fraternidade dentro do presbitério, de suas comunidades, nas relações com o Povo de Deus; testemunhem no ministério o poder do amor que vem do Alto.A primeira leitura que escutamos apresenta-nos, justamente, um modo particular de glorificação de Jesus: o apóstolo e os seus frutos. Paulo e Barnabé, ao término de sua primeira viagem apostólica, retornam às cidades já visitadas e reanimam os discípulos, exortando-os a permanecerem firmes na fé, porque, como dizem eles, <> (At 14, 22). A vida cristã, caros irmãos e irmãs, não é fácil; sei que também em Turim não faltam dificuldades, problemas, preocupações: penso, em particular, naqueles que vivem concretamente a sua existência em condições de precariedade, por causa da falta de trabalho, da incerteza pelo futuro, pelo sofrimento físico e moral; penso nas famílias, nos jovens, nas pessoas anciãs que muitas vezes vivem a solidão, nos marginalizados, nos imigrantes. Sim, a vida leva a enfrentar muitas dificuldades, muitos problemas, mas é justamente a certeza que nos vem da fé, a certeza de que não estamos sozinhos, de que Deus ama cada um sem distinção e se faz próximo a cada um com o seu amor, que torna possível enfrentar, viver e superar a fadiga dos problemas cotidianos. Foi o amor universal de Cristo ressuscitado a impelir os apóstolos a saírem de si mesmos, a difundirem a palavra de Deus, a se dedicarem sem reservas aos outros, com coragem, alegria e serenidade. O Ressuscitado tem uma força de amor que supera todo limite, não se detém diante de nenhum obstáculo. E a comunidade cristã, especialmente nas realidades pastorais mais exigentes, deve ser instrumento concreto deste amor de Deus.Exorto as famílias a viverem a dimensão cristã do amor nas simples ações cotidianas, nas relações familiares superando divisões e incompreensões, ao cultivar a fé que torna a comunhão ainda mais sólida. Também no rico e variado mundo da Universidade e da cultura não falte o testemunho do amor de que fala o Evangelho de hoje, na capacidade da escuta atenta e do diálogo humilde na busca da Verdade, certos de que a própria Verdade vem ao nosso encontro e nos alcança. Desejo também encorajar o esforço, muitas vezes difícil, de quem é chamado a administrar a coisa pública: a colaboração para buscar o bem comum e tornar a Cidade sempre mais humana e vivível é um sinal que o pensamento cristão sobre o homem jamais é contra a sua liberdade, mas a favor de uma maior plenitude que somente numa "civilização do amor" encontra a sua realização. A todos, particularmente aos jovens, quero dizer que jamais percam a esperança, aquela esperança que vem do Cristo Ressuscitado, da vitória de Deus sobre o pecado e sobre a morte.A segunda leitura nos mostra justamente o êxito final da Ressurreição de Jesus: é a nova Jerusalém, a cidade santa, que desce do céu, de Deus, pronta como uma esposa se adorna para o seu esposo (cfr Ap 21, 2). Aquele que foi crucificado, que partilhou o nosso sofrimento, como nos recorda também, de modo eloqüente, o Santo Sudário, é aquele que ressuscitou e nos quer reunir todos em seu amor. Trata-se de uma esperança estupenda, "forte", sólida, porque, como diz o Apocalipse: <<(Deus) enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram>> (21, 4). O Santo Sudário não comunica, por acaso, a mesma mensagem? Nele vemos, como refletidos, os nossos sofrimentos nos sofrimentos de Cristo: "Passio Christi. Passio hominis". Justamente por isso é um sinal de esperança: Cristo enfrentou a cruz para colocar um limite ao mal; para fazer-nos entrever, na sua Páscoa, a antecipação daquele momento em que também para nós, toda lágrima será enxugada e não haverá mais morte, nem luto, nem lamento, nem fadiga.O trecho do Apocalipse conclui-se com a afirmação: <> (21, 5). A primeira coisa absolutamente nova realizada por Deus foi a ressurreição de Jesus, a sua glorificação celeste. Ela é início de toda uma série de "coisas novas", às quais participamos também nós. "Coisas novas" são um modo repleto de alegria, em que não há mais sofrimentos e opressões, não há mais rancor e ódio, mas somente o amor que vem de Deus e que transforma tudo.Cara Igreja que está em Turim, vim até vocês para confirmá-los na fé. Desejo exortá-los, com veemência e com afeto, a permanecerem firmes naquela fé que vocês receberam e que dá sentido à vida; a jamais perderem a luz da esperança no Cristo Ressuscitado, que é capaz de transformar a realidade e tornar novas todas as coisas; a viverem na cidade, nos bairros, nas comunidades, nas famílias, de modo simples e concreto o amor de Deus: "Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros". Amém.
Fonte: RV

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

NA INTEGRA A HOMILIA DE BENTO XVI NA MISSA DOS ENFERMOS EM LOURDES

HOMILIA DO PAPA NA MISSA COM OS ENFERMOS.

Lourdes, 15 set (RV)
- "Celebramos ontem a Cruz de Cristo, instrumento de nossa salvação, que nos revela em plenitude a misericórdia de nosso Deus. A Cruz é, de fato, o lugar em que se manifesta de modo perfeito a compaixão de Deus por nosso mundo. Hoje, celebrando a memória da Nossa Senhora das Dores, contemplamos Maria, que divide a compaixão do Filho pelos pecadores. Como afirmava São Bernardo, a Mãe de Cristo entrou na Paixão do Filho mediante a sua compaixão. Aos pés da Cruz, se realiza a profecia de Simão: seu coração de Mãe é transpassado pelo suplício imposto ao Inocente, nascido de sua carne. Como Jesus chorou, Maria também certamente chorou diante do corpo torturado do Filho. Sua discrição, todavia, nos impede de medir a dimensão de sua dor; a profundidade desta aflição é apenas sugerida pelo símbolo tradicional das sete espadas. Como por seu Filho Jesus, é possível afirmar que este sofrimento a levou também à perfeição, de modo a torná-la capaz de acolher a nova missão espiritual que o Filho lhe confia imediatamente antes de ‘entregar o espírito’: tornar-se a Mãe do Corpo de Cristo, através de seus membros. Nesta hora, através da figura do discípulo amado, Jesus apresenta cada um de seus discípulos à Mãe, dizendo: “Eis o teu filho”.Maria está hoje na alegria e na glória da Ressurreição. As lagrimas derramadas aos pés da Cruz se transformaram em sorriso, que nada jamais apagará, mesmo permanecendo intacta a sua compaixão materna por nós. A intervenção assistencial da Virgem Maria no curso da história o comprova e não deixa de suscitar, no Povo de Deus, uma intimidade que não tem limites: a oração do ‘Lembrai-vos’, expressa muito bem este sentimento. Maria ama cada um de seus filhos, concentrando em especial sua atenção naqueles que, como seu Filho, na hora da Paixão, estão sofrendo, os ama simplesmente porque são seus filhos, segundo a vontade de Cristo na Cruz. O Salmista, entrevendo de longe esta ligação que une a Mãe de Cristo e os fiéis do povo, profetiza, a este respeito da Virgem Maria: “os mais ricos do povo buscarão o seu sorriso”. Assim, solicitados pela Palavra inspirada na Escritura, os cristãos, desde sempre, procuraram o sorriso de Nossa Senhora, aquele sorriso que os artistas, na Idade Média, souberam retratar e valorizar tão prodigiosamente. Este sorriso de Maria é para todos: todavia, ele se dirige de modo especial, àqueles que sofrem, a fim de que possam encontrar alivio e conforto. Procurar o sorriso de Maria não é questão de sentimentalismo devoto ou antiquado; é mais do que isso, a justa expressão da relação viva e profundamente humana que nos une a Àquela que Cristo nos doou como Mãe. Desejar contemplar este sorriso da Virgem não significa deixar-se dominar por uma imaginação controlada. A própria Escritura nos revela este sorriso nos lábios de Maria, quando ela canta o Magnificat: “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador”. Quando a Virgem Maria dá graças ao Senhor, faz de nós testemunhas. Maria compartilha, antecipando, com os futuros filhos, que somos nós, a alegria que habita em seu coração, para que tal alegria se torna também nossa. Toda proclamação do Magnificat faz de nós testemunhas de seu sorriso. Aqui em Lourdes, nas aparições de 3 de março de 1858, Bernadette contemplou de modo todo especial este sorriso de Maria. Foi esta a primeira resposta que a Bela Senhora deu à jovem vidente, que queria conhecer sua identidade. Antes de se apresentar a ela, alguns dias depois, como a Imaculada Conceição, Maria fez-lhe conhecer antes de tudo o seu sorriso, como se ele fosse uma porta de acesso apropriada para a revelação de seu mistério. No sorriso da mais eminente entre todas as criaturas, que se dirige a nós, reflete-se toda a nossa dignidade de filhos de Deus, uma dignidade que não abandona jamais quem está doente.
Aquele sorriso, verdadeiro reflexo da ternura de Deus, é a fonte de uma esperança invencível. Nós sabemos, infelizmente, que o sofrimento prolongado rompe os equilíbrios, mesmo muito consolidados, da vida, abala as mais firmes certezas da confiança, e chega, por vezes, a dispersar o sentido e o valor da vida. Existem batalhas que o homem não pode combater sozinho, sem a ajuda da graça divina. Quando a palavra não sabe mais encontrar expressões adequadas, afirma-se a necessidade de uma presença carinhosa: procuramos, então, a proximidade não apenas das pessoas que nos são ligadas por relações de sangue ou de amizade, mas a proximidade também daqueles que se unem a nós através da fé. Quem pode ser mais íntimo de Cristo do que sua Santa Mãe, a Imaculada? Mais do que qualquer outro, eles são capazes de nos compreender e colher a dificuldade da batalha em curso contra o mal e o sofrimento. A Carta aos Hebreus afirma, a respeito de Cristo, que ele não é incapaz de “compadecer-se das nossas fraquezas; ao contrário, passou pelas mesmas provações que nós”. Gostaria de dizer, humildemente, para aqueles que sofrem e para aqueles que lutam e que estão tentados a dar as costas à vida: voltem-se a Maria! No sorriso da Virgem, encontra-se misteriosamente escondida a força para prosseguir o combate contra a doença e em favor da vida. N’Ela, encontra-se também a graça de aceitar sem temor nem amarguras a despedida deste mundo, na hora em que Deus quiser. Como era certa aquela intuição da bela figura espiritual francesa de Dom Jean-Baptiste Chautard, aquele que na “Alma de todo Apostolado’ oferecia ao fervoroso cristão freqüentes encontros de olhar com a Virgem Maria! Sim, procurar o sorriso da Virgem Maria não é mais um piedoso infantilismo. É uma inspiração, diz o Salmo 44, daqueles que são ‘os mais ricos do povo’. Os ‘mais ricos’, entende-se, na ordem da fé, são aqueles que têm a maturidade espiritual mais elevada e sabem, por isso, reconhecer suas fragilidades e sua pobreza diante de Deus. Naquela manifestação muito simples de ternura que é o sorriso, percebemos que a nossa única riqueza é o amor que Deus tem por nós, e que passa através do coração daquela que se tornou nossa Mãe. Procurar este sorriso significa antes de tudo colher a gratuidade do amor; significa também saber suscitar este sorriso com o nosso compromisso em viver segundo a palavra de seu Filho predileto, assim como a criança tenta suscitar o sorriso da mãe, fazendo aquilo que ela gosta. E nós sabemos aquilo de que Maria gosta, graças às palavras que ela mesma dirigiu aos servos de Caná: “Façam aquilo que Ele vos disser”. O sorriso de Maria é uma fonte de água viva. “Quem acredita em mim – disse Jesus – rios de água viva jorrarão de seu ventre”. Maria é aquela que acreditou, e, do seu ventre, jorraram rios de água viva que hoje irrigam a história dos homens. A fonte indicada por Maria a Bernadette, aqui em Lourdes, é o humilde sinal desta realidade espiritual. De seu coração de fiel e de Mãe, jorra uma água viva, que purifica e cura. Imergindo-se nas piscinas de Lourdes, quantos já descobriram e experimentaram a doce maternidade da Virgem Maria, aproximando-se dela para melhor aproximarem-se do Senhor! Na seqüência litúrgica deste dia de Nossa Senhora das Dores, Maria está sendo honrada com o título de ‘Fons amoris’, fonte de amor. Do coração de Maria, brota, com efeito, um amor gratuito que desperta uma resposta filial. Como toda mãe, e melhor do que qualquer mãe, Maria é a educadora do amor. É por isso que tantos doentes vêm aqui, a Lourdes, para beber nesta Fonte de Amor, e para deixar-se conduzir pela única fonte da salvação, Seu Filho, Jesus Salvador. Cristo dispensa a sua salvação através dos sacramentos, e de modo especial, ás pessoas que sofrem de doenças, ou portadoras de deficiências, através da graça da Unção aos enfermos. Para cada um deles, o sofrimento é sempre um ‘estrangeiro’. Sua presença nunca pode ser ‘domesticada’. Por isso, é mais difícil suportá-la, e ainda mais difícil - como fizeram certas grandes testemunhas da santidade de Cristo – acolhê-la como parte integrante da própria vocação, ou aceitar, segundo a expressão de Bernadette, de ‘tudo sofrer em silêncio, para agradar ao Senhor’. Para poder dizer isso, é necessário ter já percorrido um longo caminho de união com Jesus. Em compensação, é possível já imediatamente dispor-se à misericórdia de Deus, assim como ela se manifesta mediante a graça do Sacramento dos enfermos. A própria Bernadette, no curso de uma existência freqüentemente marcada pela doença, recebeu este Sacramento quatro vezes. A graça própria do Sacramento consiste em acolher em si Cristo médico. Cristo, todavia, não é médico como em nosso mundo. Para curar-nos, ele não fica de fora do sofrimento que sentimos; o alivia indo habitar na pessoa atingida pela doença, para suportá-la e vivê-la com ela. A presença de Cristo rompe o isolamento que a dor provoca. O homem não leva mais sozinho a sua provação, mas, como um membro de Cristo que sofre, se conforma a Ele que se oferece ao Pai, e n’Ele participa do parto da nova criação. Sem a ajuda do Senhor, a opressão da doença e do sofrimento é cruelmente dura. Ao receber o Sacramento dos enfermos, nós não desejamos levar outro jugo do que o de Cristo, pois cremos na promessa, que Ele nos fez, de que seu jugo é suave e seu peso é leve. Convido as pessoas que receberão a Unção dos enfermos durante esta Missa a ter uma esperança como esta. O Concílio Vaticano II apresentou Maria como a figura na qual está sintetizado todo o mistério da Igreja. Sua história pessoal re-propõe o perfil da Igreja, que é convidada a estar atenta como ela, às pessoas que sofrem. Dirijo uma saudação afetuosa aos componentes do Serviço sanitário e de enfermagem, assim como a todas as pessoas que, com várias funções, em hospitais e outras instituições, contribuem nos cuidados dos doentes com competência e generosidade. Da mesma forma, ao pessoal de acolhimento, aos maqueiros e acompanhantes que, provenientes de todas as dioceses da França e de países distantes, se dedicam, durante todo o ano, aos doentes que vêm peregrinos, à Lourdes. Gostaria de lhes dizer que seu serviço é precioso. Eles são os braços da Igreja, serva humilde. Enfim, desejo encorajar aqueles que, em nome de sua fé, acolhem e visitam os doentes, especialmente em capelanias de hospitais, paróquias, ou como aqui, em Santuários. Que vocês possam sentir sempre nesta importante e delicada missão o apoio eficaz e fraterno de suas comunidades!O serviço da caridade que vocês oferecem é um serviço mariano. Maria lhes confia seu sorriso, a fim que se tornem vocês mesmos, na fidelidade a seu Filho, fontes de água viva. O que vocês fazem o fazem em nome da Igreja, da qual Maria é a pura imagem. Que vocês possam levar seu sorriso a todos!Concluindo, desejo me unir à oração dos peregrinos e dos doentes e retomar, junto com vocês, um trecho da oração a Maria, para a celebração deste Jubileu:“Pois você é o sorriso de Deus; o reflexo da luz de Cristo, a moradia do Espírito Santo,Pois você escolheu Bernadete em sua miséria, você que é a estrela da manhã, a porta do céu e a primeira criatura ressuscitada,Nossa Senhora de Lourdes, com nossos irmãos e nossas irmãs, cujos corações e corpos estão adoecidos, nós lhe pedimos!”.
Fonte: RV

domingo, 20 de julho de 2008

JMJ - SANTA MISSA NA XXIII JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE

Santa Missa na XXIII Jornada Mundial da Juventude no Hipódromo de Randwick.

Homilia do Santo Padre

Queridos amigos,

«Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós» (Act 1, 8). Vimos hoje cumprida esta promessa.

No dia de Pentecostes, como ouvimos na primeira leitura, o Senhor ressuscitado, sentado à direita do Pai, enviou o Espírito sobre os discípulos reunidos no Cenáculo.

Com a força deste Espírito, Pedro e os Apóstolos foram pregar o Evangelho até aos confins da terra. Em cada idade e nas mais diversas línguas, a Igreja continua a proclamar pelo mundo inteiro as maravilhas de Deus, convidando todas as nações e povos a abraçar a fé, a esperança e a nova vida em Cristo.(…)

Rezo para que esta grande assembleia, que congrega jovens «de todas as nações que há debaixo do céu» (Act 2, 5), se torne um novo Cenáculo. Que o fogo do amor de Deus desça sobre os vossos corações e os encha, a fim de vos unir cada vez mais ao Senhor e à sua Igreja e enviar-vos, como nova geração de apóstolos, para levar o mundo a Cristo.(…)

De fato, em cada Missa o Espírito Santo, invocado na oração solene da Igreja, desce novamente não só para transformar os nossos dons do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor, mas também para transformar as nossas vidas fazendo de nós, com a sua força, «um só corpo e um só espírito em Cristo».

Mas, o que é este «poder» do Espírito Santo? É o poder da vida de Deus. É o poder do mesmo Espírito que pairou sobre as águas na alvorada da criação e que, na plenitude dos tempos, levantou Jesus da morte. É o poder que nos conduz, a nós e ao nosso mundo, para a vinda do Reino de Deus.

No Evangelho de hoje, Jesus anuncia que começou uma nova era, na qual o Espírito Santo será derramado sobre a humanidade inteira (cf. Lc 4, 21). Ele próprio, concebido por obra do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, veio habitar entre nós para nos trazer este Espírito.

Como fonte da nossa vida nova em Cristo, o Espírito Santo é também, de modo profundamente verdadeiro, a alma da Igreja, o amor que nos une ao Senhor e entre nós e a luz que abre os nossos olhos para verem as maravilhas da graça de Deus ao nosso redor.

Aqui na Austrália, nesta grande «Terra Austral do Espírito Santo», tivemos todos uma inesquecível experiência da presença e da força do Espírito na beleza da natureza. (…)

Também aqui, nesta grande assembleia de jovens cristãos vindos de todo o mundo, tivemos uma experiência concreta da presença e da força do Espírito na vida da Igreja. Vimos a Igreja na profunda verdade do seu ser: Corpo de Cristo, comunidade viva de amor, que engloba pessoas de toda a raça, nação e língua, de todos os tempos e lugares, na unidade que brota da nossa fé no Senhor ressuscitado.A força do Espírito não cessa jamais de encher de vida a Igreja. (…)

No entanto esta força, a graça do Espírito, não é algo que possamos merecer ou conquistar; podemos apenas recebê-la como puro dom.

O amor de Deus pode propagar a sua força, somente quando lhe permitimos que nos mude a partir de dentro. Temos de O deixar penetrar na crosta dura da nossa indiferença, do nosso cansaço espiritual, do nosso cego conformismo com o espírito deste nosso tempo. Só então nos será possível consentir-Lhe que acenda a nossa imaginação e plasme os nossos desejos mais profundos.

Eis o motivo por que é tão importante a oração: a oração diária, a oração privada no recolhimento dos nossos corações e diante do Santíssimo Sacramento e a oração litúrgica no coração da Igreja. A oração é pura receptividade à graça de Deus, amor em acto, comunhão com o Espírito que habita em nós e nos conduz através de Jesus, na Igreja, ao nosso Pai celeste.

Na força do seu Espírito, Jesus está sempre presente nos nossos corações, esperando serenamente que nos acomodemos em silêncio junto d’Ele para ouvir a sua voz, permanecer no seu amor e receber a «força que vem do Alto», uma força que nos habilita a ser sal e luz para o nosso mundo.(…)

Amados jovens, permiti que vos ponha agora uma questão. E vós o que é que deixareis à próxima geração? Estais a construir as vossas vidas sobre alicerces firmes, estais a construir algo que há-de durar? Estais a viver a vossa existência de modo a dar espaço ao Espírito no meio dum mundo que quer esquecer Deus ou mesmo rejeitá-Lo em nome de uma falsa noção de liberdade?

Como estais a usar os dons que vos foram dados, a «força» que o Espírito Santo está pronto, mesmo agora, a derramar sobre vós? Que herança deixareis aos jovens que virão? Qual será a diferença impressa por vós?

A força do Espírito Santo não se limita a iluminar-nos e a consolar-nos; orienta-nos também para o futuro, para a vinda do Reino de Deus. Que magnífica visão duma humanidade redimida e renovada entrevemos na nova era prometida pelo Evangelho de hoje! (…)

A efusão do Espírito de Cristo sobre a humanidade é um penhor de esperança e de libertação contra tudo aquilo que nos depaupera. Tal efusão dá nova vista ao cego, manda livres os oprimidos, e cria unidade na e com a diversidade (cf. Lc 4, 18-19; Is 61, 1-2).

Esta força pode criar um mundo novo, pode «renovar a face da terra» (cf. Sal 104, 30).Uma nova geração de cristãos, revigorada pelo Espírito e inspirando-se a uma rica visão de fé, é chamada a contribuir para a edificação dum mundo onde a vida seja acolhida, respeitada e cuidada amorosamente, e não rejeitada nem temida como uma ameaça e, consequentemente, destruída. Uma nova era em que o amor não seja ambicioso nem egoísta, mas puro, fiel e sinceramente livre, aberto aos outros, respeitador da sua dignidade, um amor que promova o bem de todos e irradie alegria e beleza.

Uma nova era na qual a esperança nos liberte da superficialidade, apatia e egoísmo que mortificam as nossas almas e envenenam as relações humanas. Prezados jovens amigos, o Senhor está a pedir-vos que sejais profetas desta nova era, mensageiros do seu amor, capazes de atrair as pessoas para o Pai e construir um futuro de esperança para toda a humanidade.

O mundo tem necessidade desta renovação. Em muitas das nossas sociedades, ao lado da prosperidade material vai crescendo o deserto espiritual: um vazio interior, um medo indefinível, uma oculta sensação de desespero.

Quantos dos nossos contemporâneos escavaram para si mesmos cisternas rotas e vazias (cf. Jer 2, 13) à procura desesperada de sentido, daquele sentido último que só o amor pode dar!?

Este é o dom grande e libertador que o Evangelho traz consigo: revela a nossa dignidade de mulheres e homens criados à imagem e semelhança de Deus; revela a sublime vocação da humanidade, que é a de encontrar a própria plenitude no amor; desvenda a verdade sobre o homem, a verdade sobre a vida.

Também a Igreja tem necessidade desta renovação. Precisa da vossa fé, do vosso idealismo e da vossa generosidade, para poder ser sempre jovem no Espírito (cf. Lumen gentium, 4). (…) A Igreja tem uma especial necessidade do dom dos jovens, de todos os jovens. Ela precisa de crescer na força do Espírito, que agora mesmo vos enche de alegria a vós, jovens, e vos inspira a servir o Senhor com entusiasmo.

Abri o vosso coração a esta força. Dirijo este apelo de forma especial àqueles que o Senhor chama à vida sacerdotal e consagrada. Não tenhais medo de dizer o vosso «sim» a Jesus. (…)Que significa receber o «selo» do Espírito Santo? Significa ficar indelevelmente marcados, inalteravelmente mudados, significa ser novas criaturas.

Para aqueles que receberam este dom, nada mais pode ser como antes. Ser «baptizados» no Espírito significa ser incendiados pelo amor de Deus. «Beber» do Espírito (cf. 1 Cor 12, 13) significa ser refrescado pela beleza do plano de Deus sobre nós e o mundo, e tornar-se por sua vez uma fonte de refrigério para os outros.

Ser «selados com o Espírito» significa além disso não ter medo de defender Cristo, deixando que a verdade do Evangelho permeie a nossa maneira de ver, pensar e agir, enquanto trabalhamos para o triunfo da civilização do amor. (…)

Amados jovens de língua portuguesa, queridos amigos em Cristo! Sabeis que Jesus não vos quer sozinhos; disse Ele: «Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador para estar convosco para sempre, o Espírito da verdade (…) que vós conheceis, porque habita convosco e está em vós» (Jo 14, 16-17).

É verdade! Sobre vós desceu uma língua de fogo do Pentecostes: é a vossa marca de cristãos. Mas não foi para a guardardes só para vós, porque «a manifestação do Espírito é dada a cada um para proveito comum» (1 Cor 12, 7). Levai este Fogo santo a todos os cantos da terra. Nada e ninguém O poderá apagar, porque desceu do céu. Tal é a vossa força, caros jovens amigos! Por isso, vivei do Espírito e para o Espírito!

A versão integral dos discursos pronunciados pelo Santo Padre está disponível no site da Santa Sé www.vatican.va e nas várias edições do jornal L’Osservatore Romano.
Fonte: RV