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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

TEXTO INTEGRAL DA MENSAGEM PARA A QUARESMA 2009

TEXTO INTEGRAL DA MENSAGEM PARA A QUARESMA 2009
Cidade do Vaticano,
- Foi divulgada esta manhã a Mensagem do papa para a Quaresma 2009. Participaram da apresentação, na Sala de Imprensa da Santa Sé, o Card. Paul Josef Cordes, Presidente do Pontifício Conselho “Cor Unum”, Mons. Karel Kasteel, Secretário, e Mons. Giampietro Dal Toso, Vice-Secretário; e a Sra. Josette Sheeran, Diretora Executiva do Programa Mundial de Alimentos da ONU. Publicamos a seguir o texto integral da Mensagem, na versão oficial traduzida pela Secretaria de Estado do Vaticano. O tema da Mensagem deste ano é "Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome". "Queridos irmãos e irmãs!No início da Quaresma, que constitui um caminho de treino espiritual mais intenso, a Liturgia propõe-nos três práticas penitenciais muito queridas à tradição bíblica e cristã – a oração, a esmola, o jejum – a fim de nos predispormos para celebrar melhor a Páscoa e deste modo fazer experiência do poder de Deus que, como ouviremos na Vigília pascal, «derrota o mal, lava as culpas, restitui a inocência aos pecadores, a alegria aos aflitos. Dissipa o ódio, domina a insensibilidade dos poderosos, promove a concórdia e a paz» (Hino pascal). Na habitual Mensagem quaresmal, gostaria de reflectir este ano em particular sobre o valor e o sentido do jejum. De facto a Quaresma traz à mente os quarenta dias de jejum vividos pelo Senhor no deserto antes de empreender a sua missão pública. Lemos no Evangelho: «O Espírito conduziu Jesus ao deserto a fim de ser tentado pelo demónio. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome» (Mt 4, 1-2). Como Moisés antes de receber as Tábuas da Lei (cf. Êx 34, 28), como Elias antes de encontrar o Senhor no monte Horeb (cf. 1 Rs 19, 8), assim Jesus rezando e jejuando se preparou para a sua missão, cujo início foi um duro confronto com o tentador.Podemos perguntar que valor e que sentido tem para nós, cristãos, privar-nos de algo que seria em si bom e útil para o nosso sustento. As Sagradas Escrituras e toda a tradição cristã ensinam que o jejum é de grande ajuda para evitar o pecado e tudo o que a ele induz. Por isto, na história da salvação é frequente o convite a jejuar. Já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura o Senhor comanda que o homem se abstenha de comer o fruto proibido: «Podes comer o fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás» (Gn 2, 16-17). Comentando a ordem divina, São Basílio observa que «o jejum foi ordenado no Paraíso», e «o primeiro mandamento neste sentido foi dado a Adão». Portanto, ele conclui: «O “não comas” e, portanto, a lei do jejum e da abstinência» (cf. Sermo de jejunio: PG 31, 163, 98). Dado que todos estamos entorpecidos pelo pecado e pelas suas consequências, o jejum é-nos oferecido como um meio para restabelecer a amizade com o Senhor. Assim fez Esdras antes da viagem de regresso do exílio à Terra Prometida, convidando o povo reunido a jejuar «para nos humilhar – diz – diante do nosso Deus» (8, 21). O Onipotente ouviu a sua prece e garantiu os seus favores e a sua protecção. O mesmo fizeram os habitantes de Ninive que, sensíveis ao apelo de Jonas ao arrependimento, proclamaram, como testemunho da sua sinceridade, um jejum dizendo: «Quem sabe se Deus não Se arrependerá, e acalmará o ardor da Sua ira, de modo que não pereçamos?» (3, 9). Também então Deus viu as suas obras e os poupou.No Novo Testamento, Jesus ressalta a razão profunda do jejum, condenando a atitude dos fariseus, os quais observaram escrupulosamente as prescrições impostas pela lei, mas o seu coração estava distante de Deus. O verdadeiro jejum, repete também noutras partes o Mestre divino, é antes cumprir a vontade do Pai celeste, o qual «vê no oculto, recompensar-te-á» (Mt 6, 18). Ele próprio dá o exemplo respondendo a satanás, no final dos 40 dias transcorridos no deserto, que «nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4). O verdadeiro jejum finaliza-se portanto a comer o «verdadeiro alimento», que é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34). Portanto, se Adão desobedeceu ao mandamento do Senhor «de não comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal», com o jejum o crente deseja submeter-se humildemente a Deus, confiando na sua bondade e misericórdia.Encontramos a prática do jejum muito presente na primeira comunidade cristã (cf. Act 13, 3; 14, 22; 27, 21; 2 Cor 6, 5). Também os Padres da Igreja falam da força do jejum, capaz de impedir o pecado, de reprimir os desejos do «velho Adão», e de abrir no coração do crente o caminho para Deus. O jejum é também uma prática frequente e recomendada pelos santos de todas as épocas. Escreve São Pedro Crisólogo: «O jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum, portanto quem reza jejue. Quem jejua tenha misericórdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a ele se dirige. Quem quer encontrar aberto em seu benefício o coração de Deus não feche o seu a quem o suplica» (Sermo 43; PL 52, 320.332).Nos nossos dias, a prática do jejum parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura do próprio corpo. Jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os crentes é em primeiro lugar uma «terapia» para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus. Na Constituição apostólica Paenitemini de 1966, o servo de Deus Paulo VI reconhecia a necessidade de colocar o jejum no contexto da chamada de cada cristão a «não viver mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou a si por ele, e... também a viver pelos irmãos» (Cf. Cap. I). A Quaresma poderia ser uma ocasião oportuna para retomar as normas contidas na citada Constituição apostólica, valorizando o significado autêntico e perene desta antiga prática penitencial, que pode ajudar-nos a mortificar o nosso egoísmo e a abrir o coração ao amor de Deus e do próximo, primeiro e máximo mandamento da nova Lei e compêndio de todo o Evangelho (cf. Mt 22, 34-40).A prática fiel do jejum contribui ainda para conferir unidade à pessoa, corpo e alma, ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor. Santo Agostinho, que conhecia bem as próprias inclinações negativas e as definia «nó complicado e emaranhado» (Confissões, II, 10.18), no seu tratado A utilidade do jejum, escrevia: «Certamente é um suplício que me inflijo, mas para que Ele me perdoe; castigo-me por mim mesmo para que Ele me ajude, para aprazer aos seus olhos, para alcançar o agrado da sua doçura» (Sermo 400, 3, 3: PL 40, 708). Privar-se do sustento material que alimenta o corpo facilita uma ulterior disposição para ouvir Cristo e para se alimentar da sua palavra de salvação. Com o jejum e com a oração permitimos que Ele venha saciar a fome mais profunda que vivemos no nosso íntimo: a fome e a sede de Deus.Ao mesmo tempo, o jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação na qual vivem tantos irmãos nossos. Na sua Primeira Carta São João admoesta: «Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como estará nele o amor de Deus?» (3, 17). Jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irmão que sofre (cf. Enc. Deus caritas est, 15). Escolhendo livremente privar-nos de algo para ajudar os outros, mostramos concretamente que o próximo em dificuldade não nos é indiferente. Precisamente para manter viva esta atitude de acolhimento e de atenção para com os irmãos, encorajo as paróquias e todas as outras comunidades a intensificar na Quaresma a prática do jejum pessoal e comunitário, cultivando de igual modo a escuta da Palavra de Deus, a oração e a esmola. Foi este, desde o início o estilo da comunidade cristã, na qual eram feitas colectas especiais (cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27), e os irmãos eram convidados a dar aos pobres quanto, graças ao jejum, tinham poupado (cf. Didascalia Ap., V, 20, 18). Também hoje esta prática deve ser redescoberta e encorajada, sobretudo durante o tempo litúrgico quaresmal.De quanto disse sobressai com grande clareza que o jejum representa uma prática ascética importante, uma arma espiritual para lutar contra qualquer eventual apego desordenado a nós mesmos. Privar-se voluntariamente do prazer dos alimentos e de outros bens materiais, ajuda o discípulo de Cristo a controlar os apetites da natureza fragilizada pela culpa da origem, cujos efeitos negativos atingem toda a personalidade humana. Exorta oportunamente um antigo hino litúrgico quaresmal: «Utamur ergo parcius, / verbis, cibis et potibus, / somno, iocis et arcitius / perstemus in custodia – Usemos de modo mais sóbrio palavras, alimentos, bebidas, sono e jogos, e permaneçamos mais atentamente vigilantes».Queridos irmãos e irmãos, considerando bem, o jejum tem como sua finalidade última ajudar cada um de nós, como escrevia o Servo de Deus Papa João Paulo II, a fazer dom total de si a Deus (cf. Enc. Veritatis splendor, 21). A Quaresma seja portanto valorizada em cada família e em cada comunidade cristã para afastar tudo o que distrai o espírito e para intensificar o que alimenta a alma abrindo-a ao amor de Deus e do próximo. Penso em particular num maior compromisso na oração, na lectio divina, no recurso ao Sacramento da Reconciliação e na participação activa na Eucaristia, sobretudo na Santa Missa dominical. Com esta disposição interior entremos no clima penitencial da Quaresma. Acompanhe-nos a Bem-Aventurada Virgem Maria, Causa nostrae laetitiae, e ampare-nos no sforço de libertar o nosso coração da escravidão do pecado para o tornar cada vez mais «tabernáculo vivo de Deus». Com estes votos, ao garantir a minha oração para que cada crente e comunidade eclesial percorra um proveitoso itinerário quaresmal, concedo de coração a todos a Bênção Apostólica".

Vaticano, 11 de Dezembro de 2008.
Benedictus PP. XVI

Fonte: RV

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

SÍNODO: APRESENTADO TEXTO COM PROPOSIÇÕES FINAIS


APRESENTADO À ASSEMBLÉIA TEXTO COM PROPOSIÇÕES FINAIS DO SÍNODO

Relator-geral, Cardeal Marc Ouellet

Cidade do Vaticano,
- Manhã de ontem com intensos trabalhos, para os padres sinodais, reunidos em torno do tema "A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja", de 5 a 26 do corrente. Durante a 20ª congregação geral, realizada na presença de Bento XVI, foi apresentado o elenco das proposições finais.
Trata-se de um documento ainda provisório, redigido em latim, que deverá receber emendas para, a seguir, ser votado pela assembléia, no próximo sábado.
O relator-geral e o secretário especial do Sínodo, respectivamente Cardeal Marc Ouellet e Dom Laurent Monsengwo Pasinya, apresentaram à assembléia sinodal, o elenco das 53 proposições.
A partir de uma premissa sobre grandes benefícios _ seja teológicos que pastorais _ trazidos pela Dei Verbum, a constituição dogmática sobre a Revelação Divina, publicada 40 anos atrás, os padres sinodais, primeiramente, manifestaram seus votos de que os fiéis cresçam na consciência da Palavra de Deus e da sua força salvífica, mas também de que a Igreja fortaleça sua vocação missionária.Como agir, então?
Em primeiro lugar, o elenco das proposições sugere considerar a reconciliação trazida pelo Verbo divino. Em situações de conflitos étnicos e de tensões inter-religiosas, portanto, os padres sinodais fazem votos de que o empenho dos católicos saiba construir pontes de diálogo, para a edificação de uma sociedade mais harmoniosa.
Nesse sentido _ afirmam os padres sinodais em suas proposições _ é importante que cada fiel tenha a própria Bíblia pessoal. A seguir, a Liturgia: os padres sinodais fazem votos de que as Sagradas Escrituras tenham um lugar visível nas igrejas, e que o papel dos leitores seja estudado e aprofundado, até mesmo considerando as novas técnicas da comunicação e o uso de instalações sonoras adequadas.
A propósito das homilias, os padres sinodais auspiciam que elas sejam um convite à missão, preparadas com a oração e nutridas com a doutrina.
Esse auspício abre estrada à criação de um diretório homilético.
As proposições acenam também à revisão do Lecionário, para torná-lo mais adequado aos tempos modernos, e acenam também à importância da mulher não apenas na família e na catequese, mas também na promoção da leitura da Bíblia.
Outro tema abordado foi o da Lectio divina, a ser promovida nas paróquias, nas famílias, nos movimentos eclesiais, na formação dos futuros sacerdotes e na catequese, para que a formação dos batizados seja contínua e não se reduza apenas à administração dos sacramentos.
A seguir, na esteira do pronunciamento feito pelo papa à assembléia sinodal, no dia 14 de outubro, as proposições falam da exegese bíblica e da necessidade de superar o dualismo entre exegese e teologia, assim como da necessidade de considerar a hermenêutica, seja a histórica que a da fé.
Últimos temas propostos _ mas não por isso, menos importantes _ foram os da missão, do diálogo com outras religiões e da ecologia.
Quanto à missão, que ela se dirija em particular aos pobres, aos marginalizados e aos deficientes, a fim de que a inculturação da Bíblia alcance todos os povos da Terra.
Nesse sentido, os padres sinodais evidenciaram sua preocupação com o fenômeno das seitas _ um fenômeno que deve ser estudado para ser afrontado de maneira mais adequada.
No que tange ao diálogo com os judeus, os padres sinodais sugeriram que ele seja feito a partir da plataforma comum do Antigo Testamento. E no que diz respeito ao diálogo com os muçulmanos, que ele se baseie no elemento comum do único Deus, não esquecendo a importância de reafirmar o valor da vida e os direitos do homem e da mulher.
Finalmente, a preocupação com a ecologia, para que seja promovida, com base na Palavra de Deus, e com o empenho de salvaguardar a Criação.
Na conclusão, dois agradecimentos: àqueles que anunciam o Verbo divino em condições difíceis, com os votos de que todos sejam chamados a se empenhar em favor da Justiça; e ao patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, cuja participação na celebração das Vésperas presididas por Bento XVI, no último sábado, é sinal de profunda comunhão, embora ainda não perfeita.
Portanto, devemos rezar ao Senhor, para que seja alcançada a verdadeira unidade.Estes foram _ em síntese _ os principais temas abordados pelos padres sinodais em suas proposições que, agora, deverão receber emendas e ser votadas. (AF)

Fonte: RV