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domingo, 4 de outubro de 2009

A PAZ NA MÍSTICA FRANCISCANA

Evangelização e Paz
Frei Celso Márcio Teixeira, OFM

Introdução

Um dos mais profundos anseios do coração humano é o anseio pela paz. Fundamentalmente, todas as utopias da humanidade - elaboradas ou não - se resumem no desejo de paz.

A utopia que se chama cristianismo também é fundamentalmente um desejo de paz. E quanto mais distantes estivermos dela, mais sonharemos com ela; quanto mais violento for o mundo que nos rodeia, mais a desejaremos.

Este desejo é como uma minúscula brasa que fica escondida sob um montão de cinzas, esperando que alguém venha soprá-la para que ela se manifeste em todo o seu brilho e calor. Perder a esperança e não crer nesta utopia significa apagar em si o sonho que dá sentido à vida; e apagar o sonho da vida é extinguir-se a si mesmo. Por isso, aqui vale o conselho do profeta Isaías: Não apagar o pavio que ainda fumega (cf. Is 42,3).
Ao longo da história, vários foram os profetas da paz que tentaram manter acesa, ainda que sob uma montanha de cinzas, a brasa da paz.

Somente para lembrar os nomes de alguns: Isaías, o profeta da paz, elaborou a sua utopia, na qual ele via o lobo comer com o cordeiro (cf. Is 11,6-9); Jesus Cristo anunciou um reino que resumia todas as utopias do ser humano, "reino da verdade e da vida, reino da justiça, do amor e da paz"; Francisco de Assis, trovador e profeta, símbolo de homem reconciliado com todos os seres, desde a mais brilhante estrela do firmamento ao minúsculo verme que se arrasta pela terra; Mahatma Ghandi, o homem que pregou a revolução pela via da não violência.

O mundo atual, marcado pela cultura da morte, ainda sonha com a paz. Isto significa que o pavio ainda fumega (cf. Is 42,3).

A sociedade movimenta-se de maneira pluriforme em busca da realização dessa utopia. Este contexto nos parece campo fértil para que franciscanos e franciscanas desenvolvam toda uma evangelização voltada para a paz. A inserção nos movimentos de paz será um dos lugares preferenciais de presença franciscana. Aí temos a tarefa de dar uma contribuição tipicamente franciscana.

Esta contribuição, a nosso ver, não pode limitar-se ao nível panfletário. Temos uma contribuição mais substancial a oferecer.

Ela abrange dois pólos: Um em nível de reflexão, outro em nível de ação. Em nível de reflexão, temos toda uma espiritualidade que serve de fundamentação para nossa presença nos movimentos de paz; temos toda uma teologia a oferecer aos nossos interlocutores e aliados.

Em nível de ação, devemos ter a coragem de abandonar nossas "pastorais" rotineiras e partir para uma presença mais ágil e significativa no meio dos pobres, dos excluídos, primeiras vítimas silenciosas de sistemas causadores de violência, de exclusão e de morte.
Portanto, é importante que tenhamos consciência de que nossa contribuição franciscana deve ser qualificada. Distribuir panfletos? Todo mundo pode fazer isto. Uma reflexão franciscana e uma presença franciscana de qualidade, ao contrário, é tarefa que cabe unicamente a nós.

1. Uma reflexão preliminar: A evangelização como quadro de referência do anúncio franciscano da paz

Normalmente, quando se escreve ou se fala sobre o tema da paz em Francisco de Assis, vai-se entrando imediatamente no tema, praticamente sem fazer alusão a um quadro mais amplo de referência.

Começa-se a tratar da paz que Francisco pregava, como que desvinculando-a do conjunto ou amputando-a do corpo todo da atividade e da proposta de vida de Francisco. Por isso, o anúncio da paz corre o risco de ser compreendido como um apêndice, como algo que Francisco fazia ao lado de sua atividade evangelizadora, ou apenas de vez em quando, ou como um tema ao lado de outros.

Está aí, a nosso ver, uma compreensão parcial (portanto, distorcida) do que Francisco entendia pelo anúncio da paz. Realmente, o fato de desvincular a proclamação da paz de toda a atividade (e espiritualidade) de Francisco não deixa de empobrecer o próprio conteúdo de sua concepção sobre a paz.

Segundo nosso modo de ver, o quadro de referência para o anúncio (e compreensão) da paz está na evangelização. Evidentemente, o termo "evangelização" é recente na teologia. Praticamente, só ganhou impulso e divulgação e relevância a partir da encíclica Evangelii Nuntiandi, do Papa Paulo VI. Mas a prática da evangelização é tão antiga como o próprio evangelho.

Por isso, podemos atribuir uma terminologia nova a uma prática antiga (no caso, da Idade Média), conscientes de não estarmos traindo a verdade dos fatos.

A evangelização é o ponto chave para compreendermos a vocação de Francisco e de seus companheiros (por conseguinte, a vocação legada como herança a toda Ordem). Uma leitura mais comum, inclusive dos biógrafos da primeira hora, tem centralizado a vocação de Francisco na escolha da pobreza. Esta seria para muitos a ótica sob a qual deve ser contemplado todo o desenvolver da vocação franciscana.

Nosso modo de considerar prefere ver na evangelização o pólo catalisador de todo o movimento franciscano desde as origens. De fato, após alguns anos de busca de uma resposta, vivendo primeiramente como eremita e depois como reconstrutor de capelas, Francisco sente-se tocado pelas palavras do Evangelho (1) que teria ouvido durante uma missa na Porciúncula.

Tratava-se do texto do envio dos discipulos (Lc 10,1-11 ou Mt 10,1.5-15; em Mt trata-se do envio dos doze) para anunciar o Reino.

Ora, este texto do Evangelho, depois de descrever o envio dos discípulos na condição de pessoas despojadas (nada leveis pelo caminho), contém três elementos nucleares:

a) a saudação da paz;

b) a cura dos doentes;

c) o anúncio do reino (esta ordem em Mt 10 está exatamente ao inverso).

Uma interpretação dicotômica poderia ver nestes elementos três fases da tarefa de evangelizar, a saber, a saudação da paz, como sendo uma introdução, a cura dos doentes, como uma preparação para a evangelização, e o anúncio do Reino, que seria a tarefa evangelizadora propriamente dita. A nosso ver, porém, estes três elementos constituem a própria evangelização. O conjunto todo é anúncio do reino.

O reino de Deus só pode ser reino de paz, caso contrário não será reino de Deus. Por isso, a própria saudação de paz já é anúncio do reino, como também a cura dos doentes é anúncio de um reino sem males (cf Lc 7,18-23).

O primeiro biógrafo, mesmo com a tentação de interpretar a vocação de Francisco na ótica da pobreza (de fato, descreve primeiramente o despojamento de Francisco que troca o hábito de eremita por outro muito pobre e desprezível), passa em seguida a descrever a tarefa evangelizadora de Francisco: "A partir de então, com grande fervor de espírito e alegria da alma, começou a pregar a todos a penitência, edificando os ouvintes com palavras simples, mas com o coração nobre ... Em toda pregação sua, antes de propor a palavra de Deus aos que estavam reunidos, invocava a paz, dizendo: 'O Senhor vos dê a paz' (cf 2Ts 3,16; Lc 10, 4b). Anunciava-a sempre mui devotamente a homens e mulheres, aos que ele encontrava e aos que lhe vinham ao encontro.

Por esta razão, muitos que odiavam a paz, com a cooperação do Senhor, abraçaram de todo coração a salvação juntamente com a paz, tornando-se também eles filhos da paz e desejosos da salvação eterna”(2).

A saudação da paz e a proposição da palavra de Deus, descritas por Tomás de Celano, remetem-nos imediatamente ao texto de Lc 10. Só falta o elemento da cura dos doentes. Esta constatação nos permite concluir que para Francisco a saudação e o anúncio da paz constituíam a própria evangelização, exatamente como ouvira do Evangelho.

Na prática de Francisco, a evangelização inclui necessariamente o anúncio da paz. Em outras palavras: não se evangeliza, se não se anuncia a paz.

O Anônimo Perusino não narra o episódio da escuta do texto de Lc 10 na Porciúncula. Mas não desconhece que este texto fazia parte da origem da vocação de Francisco, pois ele coloca, logo após o despojamento de Francisco diante de Pedro Bernardone, a ressonância do texto do envio: "O Senhor conduziu-o pelo caminho reto e estreito, porque ele não quis possuir nem ouro nem prata, nem dinheiro, nem qualquer outra coisa (cf. Mt 10,9), mas seguiu o seu Senhor na humildade, na pobreza e na simplicidade de seu coração. Andando de pés descalços, vestia-se com um hábito desprezível, cingia-se com um cinto também muito barato" (3).

Embora o despojamento de ouro e prata, etc., fizesse parte de um texto dinâmico de envio a evangelizar, o AP prefere lê-lo na ótica da pobreza, desvinculando a pobreza do quadro da evangelização.
2. Evolução do conceito: da prática da pregação a um conceito mais amplo de evangelização

No entusiasmo de quem descobriu o sentido de sua vida, Francisco começa a pregar. Evangelizar significa inicialmente para Francisco dirigir-se ao povo, anunciar a palavra de Deus, lembrando sempre que o reino que ele quer anunciar é reino de paz. Por isso, insiste na saudação da paz. Como a saudação da paz fazia parte do envio dos discípulos, assim também ela faz parte de seu próprio envio.
Evangelização é, portanto, inicialmente compreendida como uma atividade ad extra, um dirigir-se ao povo. Dentro desta compreensão, podemos interpretar os dois ou três envios ou missões dos primeiros companheiros, antes mesmo da aprovação da regra:
a) Quando eles eram quatro: Francisco e Egídio foram à Marca de Ancona, os outros dois ficaram (4). Francisco não pregava ao povo, mas apenas exortava os homens e mulheres a fazerem penitências (5).
b) Quando eram seis: O envio é proposto como sua vocação: "Consideremos, irmãos caríssimos, a nossa vocação, porque Deus misericordiosamente nos chamou não somente para a nossa utilidade, mas também para a utilidade e salvação de muitos" (6). Eles anunciavam a paz em suas pregações(7).
c) Quando eram oito: No envio constava explicitamente o anúncio da paz: "Ide, caríssimos, dois a dois pelas diversas partes do mundo, anunciando aos homens a paz!” (8).
Um conceito de evangelização, que inicialmente se identificava com a atividade ad extra de pregar o reino, a penitência e a paz, começa muito cedo a alargar-se em compreensão. O anúncio exigia uma coerência de vida por parte dos evangelizadores. Quem prega o Evangelho é convocado à coerência, isto é, a colocar em prática, a fazer a experiência, a viver os valores que proclama com a voz.

É digno de nota que, após as primeiras missões evangelizadoras, quando se tratava de colocar por escrito numa regra essa vocação dada pelo Senhor, a vocação dos frades menores não foi expressa em termos de pregação ou de anúncio do Evangelho ou do reino, mas em termos de vida, de viver.

Deste modo, já na primitiva regra apresentada a Inocêncio III para a aprovação, a vocação dos frades menores vem assim explicitada: Esta é a vida do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo que Frei Francisco pediu ao senhor papa ... (9). Evangelizar é pregar e proclamar, mas é também fundamentalmente viver os valores evangélicos proclamados.

Assim, é dentro da compreensão da coerência entre a proclamação e a vida que se entende a exortação de Francisco, quando enviava os frades em missão evangelizadora: "Assim como proclamais a paz com a boca, assim em maior medida tenhais em vossos corações a paz, para que ninguém por meio de vós seja provocado à ira e ao escândalo; mas todos, por meio de vossa paz e mansidão, sejam novamente chamados à paz e à benignidade" (10). Detalhes preciosos da Regra mostram a compreensão ampla do conceito de evangelização.

Ao tratar do modo como devem os irmãos ir pelo mundo, Francisco não ensina o que devem pregar, mas o modo de comportar-se que convém ao evangelizador: "Aconselho, todavia, admoesto e exorto a meus irmãos no Senhor Jesus Cristo que, quando vão pelo mundo, não discutam nem alterquem com palavras (cf. Tm 2,14) nem julguem os outros; mas sejam mansos, pacíficos e modestos, brandos e humildes, falando a todos honestamente, como convém. E não devem andar a cavalo, a não ser que sejam obrigados por manifesta necessidade ou por enfermidade.

Em qualquer casa em que entrarem, digam primeiramente: Paz a esta casa (cf. Lc 10,5). E, segundo o santo Evangelho, seja-lhes permitido comer de todos os alimentos que forem colocados diante deles (cf. Lc 10,8)” (11).
Não nos passe despercebida a ressonância do texto do envio (Lc 10) que está sempre como pano de fundo da vocação dos frades menores.

Presente e indissociável sempre a proclamação da paz, porque não existe uma evangelização sem a proposta de paz.

Aliás, todas as atitudes que Francisco propõe são a própria proclamação da paz com o modo de viver. Em outras palavras, a vida dos irmãos devia ser o anúncio vivo do Evangelho da paz: em formulação negativa: não discutam nem alterquem nem julguem os outros; em formulação positiva: sejam mansos, pacíficos e modestos, brandos e humildes, falando a todos honestamente como convém ... e digam "paz a esta casa".
No confronto com as autoridades eclesiásticas constituídas, os novos evangelizadores (os que proclamam o Evangelho com a palavra e com a vida) só serão verdadeiros evangelizadores, se mantiverem a paz no coração: "E embora quisesse que [seus] filhos vivessem a paz com todos os homens (cf. Rm 12,18) e se apresentassem a todos como pequeninos, no entanto, ensinou-os pela palavra e mostrou pelo exemplo a serem humildes, mormente com relação aos clérigos.

Dizia, pois: 'Fomos enviados em auxílio (cf. Sl 69,2; Dn 10,13) dos clérigos para a salvação das almas (cf. 1 Pd 1,9) ... Sabei, irmãos - disse -, que a Deus é muito agradável o fruto das almas (cf. Sb 3,13) e que isto se pode conseguir melhor com a paz do que com a discórdia dos clérigos ... Se fordes filhos da paz (cf. Lc 10,6), havereis de lucrar o clero e o povo para o Senhor, o que o Senhor julga mais agradável do que lucrar só o povo, [depois de ter] escandalizado o c1ero” (12).

No fundo desta exortação está a seguinte compreensão: a evangelização (pela palavra ou pela vida) somente será eficaz, se for, ao mesmo tempo, anúncio de paz. Uma evangelização desvinculada da paz não é evangelização.

A verdadeira evangelização é necessariamente proposta de paz.

Igualmente precioso é o modo de os irmãos irem para o meio dos sarracenos e de outros que não têm a fé cristã. Francisco prescreve dois modos de evangelização: a evangelização pelo modo de vida (a própria vida é o anúncio) e a evangelização pelo anúncio explícito (pela palavra).

Novamente as exortações de Francisco para o primeiro modo de evangelização são propostas de paz (e toda proposta de paz é proposta do reino): "não litiguem nem porfiem, mas sejam submissos a toda criatura humana por causa de Deus e confessem que são cristãos” (13).

O fato de confessarem que são cristãos é, freqüentes vezes, interpretado como coragem de apresentar-se ao martírio, pois o fato de confessar-se cristão entre os sarracenos, devido à inimizade existente entre cristãos e sarracenos, era interpretado como uma oferta do pescoço à espada (14).

Não vemos, porém, esta interpretação como o sentido primeiro. O confessar-se cristão seria, segundo nossa maneira de interpretar, uma forma de dizer: "Estes valores que estamos vivendo são simplesmente o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo".

Portanto, no confessar-se cristão, está contido fundamentalmente um modo de evangelizar. Apenas secundariamente, poderia ter o sentido de disposição ao martírio.

Percebe-se, então, que o conceito de evangelização, inicialmente interpretado por pregação, evolui para uma compreensão mais abrangente que envolve não apenas o anúncio pela palavra (pregação), mas também a proclamação pelo modo evangélico de viver.

A paz, por identificar-se com a própria evangelização, também não é somente algo que pregamos ou propomos aos outros, mas antes um valor evangélico que coerentemente procuramos cultivar no coração.
3. Tratados de paz: formas concretas de evangelização (força política da evangelização)

A crônica de um frade dominicano chamado Tomás de Spalato traz, entre seus relatos, um episódio muito significativo para compreendermos a evangelização de Francisco. Corria o ano de 1222. Tomás de Spalato, estudante que morava no Studium em Bolonha, teve oportunidade de ouvir uma pregação de Francisco.

Limitemo-nos a citar apenas o que no momento nos interessa.

Assim ele escreveu:
"Na verdade, todo o tema de suas palavras visava a extinguir as inimizades e a reformar os pactos de paz. O seu hábito era sujo, a pessoa desprezível, e a face sem beleza; mas Deus conferiu tanta eficácia às suas palavras que muitas famílias dos nobres, entre as quais o furor desumano de antigas inimizades eclodira em muito derramamento de sangue, foram levadas de novo ao pacto de paz" (15).

A primeira coisa que se deduz deste breve relato é que a preocupação de Francisco pela paz era uma constante em sua vida.

O anúncio da paz não era algo dos inícios de sua vocação, mas acompanhava a evangelização de Francisco ao longo de sua história. E nem podia ser diferente, pois anunciar a paz para ele era anunciar o reino e vice-versa.

De novo, convém salientar que a paz não é apenas um tema entre outros da evangelização, mas é a própria evangelização. E a evangelização só é verdadeira evangelização, se anunciar e visar à construção da paz.
Outro elemento digno de nota é que as palavras de Francisco visavam "extinguir as inimizades e reformar os pactos de paz". Tratava-se de um problema muito concreto, o das inimizades e guerras entre famílias.

Evangelizar não é abstração, mas é confrontar-se com problemas concretos, é inserir-se em contextos históricos e aí apresentar o Evangelho como opção ou alternativa para situações que parecem insolúveis.

Nesse confronto e inserção, evangelização significa deixar que o Evangelho ilumine as pessoas e coisas envolvidas.

O Evangelho é que ilumina tudo e convoca todos à conversão (e à paz).

Após a pregação de Francisco, "muitas famílias foram levadas de novo ao pacto de paz". Deu-se, portanto, uma transformação na vida da cidade. Embora a evangelização não se identifique com nenhuma política partidária, no entanto, ela é profundamente política, tem forte incidência na vida e na organização da sociedade, pois ela apresenta aos cidadãos os valores fundamentais da pessoa humana, valores que muitas vezes estão encobertos, como pequena brasa sob uma montanha de cinzas.

Evangelizar é explicitar os valores humanos escondidos no fundo dos corações, é fazer brilhar os pequenos focos do Evangelho presentes, mas não percebidos, no íntimo de cada um em forma de desejo, de anseio, de sonho, de utopia, de esperança.

As Fontes Franciscanas apresentam outros episódios em que Francisco, exercendo sua tarefa de evangelizador, provocava os habitantes das cidades ao pacto de paz. Além de Bolonha, são conhecidos os casos de Arezzo (16) e de Sena (17). Mas parece que os pactos entre famílias eram constantes.

A Legenda dos Três Companheiros apresenta-os como um fenômeno generalizado: "Portanto, o homem de Deus, Francisco, subitamente transbordante do espírito dos profetas [ ... ], segundo a palavra profética, anunciava a paz, pregava a salvação (cf. Is 52,7), e muitos, que por viverem na discórdia estavam distantes da salvação de Cristo, pelas salutares admoestações dele se coligavam [em aliança de paz]" (18).

A evangelização (o Evangelho) tem, portanto, força política para transformar a realidade, mesmo que ela não se identifique com a política partidária. Fique bem claro que, ao fazermos esta afirmação não queremos despolitizá-la; pelo contrário, queremos apontar exatamente onde reside sua força política transformadora.

4. A visita ao Sultão: em vez de proselitismo, uma proposta de paz (tolerância religiosa, tolerância com o diferente, tolerância com outras culturas)

Em vários textos, desde a Primeira Vida escrita por Tomás de Celano (1 Cel) até Fioretti, encontramos o relato da ida de Francisco ao Sultão dos sarracenos (l9).

Além desses textos, existe documentação em outros textos, que não estão incluídos nas nossas Fontes Franciscanas e Clarianas: Bernardo Tesoureiro, História de Eráclio, Crônica da Dinamarca. Portanto, parece fora de dúvida que Francisco tenha ido, de fato, fazer uma visita ao Sultão.

Além de algumas diferenças de detalhes nas diversas redações, o enfoque também varia. Por exemplo, na redação de Atos e de Fioretti, a introdução de uma mulher que tentava seduzir Francisco destaca a castidade heróica de Francisco.

A recusa de presentes é uma constante. Todos afirmam também que Francisco se dirigiu ao Sultão para convertê-lo à fé cristã. Por isso, no final das narrativas permanece um sabor amargo de fracasso, um certo desapontamento.

Alguns tentam disfarçar esse fracasso, acrescentando que o Sultão pediu que Francisco rezasse por ele para que ele abraçasse a verdadeira fé. Outros acrescentam até a conversão milagrosa do sultão por intercessão de Francisco (20).

Preferimos uma outra leitura dos fatos. Pelo que deduzimos da evangelização desenvolvida por Francisco, que levava o povo em guerra a pactos de paz, a intenção dele ao visitar o Sultão deve ter tido essa finalidade concreta: Uma proposta de paz que ele fazia em nome não dos reis do Ocidente Cristão, nem mesmo do papa, mas em nome do Evangelho.

Evangelização, sem dúvida, mas de maneira muito concreta, na forma de uma proposta de paz. Sem intenções de proselitismo. Sem a intenção primeira do martírio, embora Francisco tivesse a coragem de enfrentar também o martírio.

De sua parte, os biógrafos contemporâneos de Francisco não podiam ter outra ótica, a não ser a do proselitismo e a do martírio. Converter o Sultão, converter os muçulmanos ao cristianismo, ou melhor, ao regime de cristandade, teria sido a grande meta de Francisco.

Quanto ao desejo do martírio, criou-se uma mentalidade entre os cristãos de que o sarraceno, além de ser o inimigo da fé, era também o ser mais cruel sobre a face da terra, pronto a degolar o cristão pelo simples fato de ser cristão.

Na mente do povo cristão criou-se uma verdadeira neurose de guerra contra os sarracenos. Matar o sarraceno era ser herói de Cristo; morrer nas mãos do sarraceno era ser martirizado por Cristo. Toda a Europa respirava este ar.

Mas as circunstâncias levam-nos a deduzir que a meta concreta que Francisco queria atingir era um tratado de paz, como já havia feito em algumas cidades e entre algumas facções por onde ele passava.

O que deve ter causado grande admiração em Francisco era o fato de toda a cristandade estar envolvida numa guerra. E ninguém, nem da Igreja nem dos governos da Europa, propunha uma alternativa.

Parafraseando o que Francisco disse a respeito da inimizade entre o bispo e o podestà de Assis, ele deve ter pensado a respeito da inimizade entre cristãos e sarracenos: "É grande vergonha para nós, servos de Deus, que ninguém se intrometa para tratar da paz e concórdia com eles" (21).

A atitude de não proselitismo comporta acima de tudo tolerância para com outras religiões. No fundo, é aceitar que o outro seja diferente, pense diferentemente e possa agir diferentemente. Ser diferente não é defeito.

O fato de ser diferente não coloca ninguém sobre ou sob os outros. Isto é a base para qualquer diálogo, ecumênico, inter-religioso, intercultural. O diálogo cria laços. Consta em todos os relatos que o Sultão e Francisco estreitaram entre si laços de estima, respeito e amizade.
5. A saudação da paz (fraternidade) - construir a paz a partir das pequenas coisas

No Testamento, Francisco faz alusão à saudação da paz como algo revelado por Deus. Note-se que a saudação da paz já consta no texto do envio.

A Compilação de Assis narra um episódio interessante: " ... nos primórdios da religião, quando o bem-aventurado Francisco andava com um irmão que foi um dos doze primeiros irmãos, esse irmão saudava os homens e as mulheres pelo caminho e aqueles que estavam nos campos, dizendo: 'O Senhor vos dê a paz' (cf. Nm 6,26; 2Ts 3,16).

E porque os homens ainda não haviam ouvido tal tipo de saudação ser dita por religioso algum, disto muito se admiravam. Mais ainda, alguns homens, quase com indignação, lhes diziam: 'o que lhe significa esta saudação (cf. Lc 1,29)?'.

De modo que aquele irmão começou a envergonhar-se muito disso. Por isso, disse ao bem-aventurado Francisco: 'Deixa-me, irmão, dizer outra saudação'. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: 'Deixa-os falarem, porque não percebem o que vem de Deus (cf. 1 Cor 2,14). Mas não te envergonhes disso, porque te digo, irmão, que os nobres e príncipes deste mundo ainda mostrarão reverência a ti e aos outros irmãos por este gênero de saudação" (22).

Francisco está convencido de que a saudação da paz ainda vai fazer com que os príncipes e nobres deste mundo fiquem admirados.

Ele crê na grandeza e eficácia desta saudação. No início, aquele irmão não entendeu bem o sentido dela, sentiu vergonha de usá-la, pediu para trocar a saudação. Francisco insistiu nela. E nós nos perguntamos: "Por que essa insistência de Francisco na pequena saudação?". Embora Francisco não tivesse tido os conhecimentos da Psicologia moderna desenvolvida a partir de Freud com a "descoberta" do inconsciente, ele mostra uma intuição psicológica muito profunda. Ele conhece o valor formativo da repetição.

A repetição age no inconsciente. A repetição de uma palavra ou gesto acaba criando o chamado hábito que, por sua vez, vai como que fornecendo seiva para a vida espiritual.

Isto acaba criando uma mentalidade, um modo de pensar, um modo de agir, um modo de ser. Talvez Francisco não tivesse conhecido o provérbio como nós o formulamos hoje: "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura".

Mas o dinamismo é o mesmo. É a força das coisas pequenas que acabam criando algo grandioso. Usando positivamente a comparação da gota de água, é como as gotas da chuva que nas cavernas formam o estalagmite e o estalactite, criando verdadeiras obras de arte, não de repente num piscar de olhos, mas ao longo dos dias, dos anos e dos séculos.

Desse modo, a saudação é capaz de estabelecer relações de amizade, de fraternidade. Começamos a pensar como amigos daqueles que nos desejam paz. Sentimo-nos irmãos deles. E, se nos sentimos amigos e irmãos, a paz já começa a ser construída.
Talvez um erro nosso, de homens modernos, seja o de não acreditarmos na força das coisas pequenas. Precisamos logo de coisas grandiosas, de preferência de coisas ou de eventos que resultem em sucesso internacional.

O dia-a-dia, o tijolo por tijolo (como na construção das grandes catedrais) não nos atrai. Somos mais atraídos a fazer belíssimos discursos sobre a paz em nível nacional e internacional, mas não queremos aceitar que a vivência quotidiana da fraternidade é como a areia que entra na argamassa da construção da paz.

Bastaria para nós, franciscanos e franciscanas, viver a fraternidade, para sermos construtores da paz. A fraternidade é profundamente evangelizadora. E se é evangelizadora, é proposta de paz para os outros, é convite para que todos vivam em paz, como irmãos.

Isso é o reino. Mas o homem moderno não acredita que viver em fraternidade possa ter força. O moderno precisa de atividades, preferentemente de atividades ad extra.

Ele pressupõe que, quando fala de fraternidade ou de paz, ela já as possui, por isso trata de levá-las aos outros que não as possuem. Aí entra Francisco com sua pedagogia: "Assim como proc1amais a paz com a boca, assim em maior medida a tenhais nos vossos corações".

Não é por acaso que Francisco insista e dê preferência à evangelização pelo modo de vida. E Francisco era o próprio Evangelho vivo.

6. A paz entre o bispo e o podestà (dois poderes: minoridade, respeito para com o espaço do outro)

É muito conhecida a contenda entre o bispo e o podestà de Assis. As razões desta contenda não nos são dadas pelas fontes.

Sabe-se, no entanto, que se criou uma situação de divisão na cidade: de um lado, os que apoiavam o bispo; de outro lado, os que apoiavam o podestà.

Uma miniatura da situação da Itália dividida entre guelfos (partidários do papa) e gibelinos (partidários do imperador alemão). E cada um dos oponentes usou suas próprias armas:
"... o que então era bispo de Assis excomungou o podestà de Assis; pois que, indignado contra ele, o que era podestà mandou apregoar [com voz] forte e cuidadosamente pela cidade de Assis que nenhum homem lhe vendesse ou dele comprasse ou com ele fizesse contrato; e assim, muito se odiavam um ao outro” (23).

Embora não saibamos as causas desta inimizade ou ódio, podemos deduzir que outra coisa não pode ter sido, senão o conflito ou luta entre dois poderes.

Não se trata de inimizade entre cristão e sarraceno, mas de ódio entre dois cristãos (24).

O texto do Evangelho: "Os chefes das nações as mantêm sob seu poder, e os grandes, sob seu domínio. Não deve ser assim entre vós" (Mt 20,25-26) parece não ter penetrado na alma desses dois chefes cristãos.
É difícil lidar com o poder. E a maneira que Cristo propõe, uma maneira alternativa, ainda não foi suficientemente assimilada por muitos chefes cristãos (de Estado) nem por muitos chefes religiosos cristãos. A cada dia, podemos constatar a veracidade do dito: "O poder e o dinheiro corrompem" .
Ao saber disso, Francisco toma uma atitude inusitada: compõe mais uma estrofe do Cântico do Irmão Sol sobre o perdão e envia dois companheiros para cantá-la diante do bispo e do podestà. O resultado é conhecido de todos: o perdão mútuo, a volta à antiga amizade. Francisco utiliza a música e a poesia como meios de evangelização.

Instrumentos tão frágeis para fazer curvar-se a rigidez de dois homens de poder. O que é frágil Deus utiliza para confundir o que é forte, diz São Paulo na Carta aos Coríntios (cf. 1Cor 1,27).

Esta é a força da minoridade. Fazer-se menor é proposta evangélica de paz. Evangelizar e construir a paz pela minoridade é caminho natural, pois os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos dos homens.

A força de Deus manifesta-se no que é pequeno, na fragilidade, no ser menor. Muitas vezes, pensamos, como o profeta Elias, que a força da evangelização está na grandiosidade dos planos e atividades. O profeta Elias não viu o Senhor no vento forte e violento que raspava as montanhas e fendia os rochedos, nem no terremoto, nem no fogo. Quando passou a brisa suave, Elias cobriu o rosto, porque Deus estava naquele sopro tênue (cf. 1 Rs 19,11-13).

Assim, quem quiser ser forte ou o maior, faça-se o mais frágil e o menor. Esta é a pedagogia de Deus: "Assim deve ser entre vós". A música e a poesia de Francisco são os exemplos desta minoridade.

Quem pensaria que uma música e uma estrofe de poesia pudessem levar os dois gigantes do poder a curvar-se um diante do outro, a chorar e a pedir perdão e a perdoar-se mutuamente, a abraçar-se como dois irmãos?

7. O lobo de Gubbio: parábola sobre a paz (o homem reconciliado, da utopia, do reino)

Uma outra historieta muito conhecida de todos é a do lobo de Gubbio (25). Embora alguns queiram dar historicidade a este episódio (em Gubbio se conta que numa escavação fora encontrada a ossada de um lobo muito grande), a nosso ver, ela deve ser compreendida sob o gênero literário que se chama parábola. Parábola significa que o que é narrado não implica necessariamente em ter acontecido historicamente, mas que contém elementos reais, contém uma verdade que se quer transmitir.

Uma leitura deste episódio exige, portanto, um processo de despojamento do texto: despir o texto daquilo que é fictício, da sua roupagem literária, para se chegar ao real, à verdade que a roupagem literária quer comunicar.

Um primeiro elemento a ser destacado é que Francisco vai ao encontro do lobo (26) sem armas.

A presença do lobo causou um estado permanente de medo e pânico entre a população, de maneira que todos andavam armados como se fossem para a guerra. Francisco despoja-se das armas, como que a dizer: "Não se promove a paz com as armas".

Se alguém deve propor a paz, deve ir desarmado ao encontro do outro, ao encontro do diferente. Esta atitude causou grande admiração ao povo.

Segundo elemento: tendo-se encontrado com o lobo, este veio a Francisco com a boca aberta em sinal de agressividade.

Francisco conversa com ele mansamente, pacificamente, sem agressão e sem violência, como menor.

Diante da minoridade de Francisco, acalma-se a ferocidade do lobo. Percebendo que Francisco não tinha armas, que era menor, o lobo não viu sentido para sua agressividade, pois, na maioria das vezes, a agressividade é apenas resposta a uma agressão gratuita anteriormente recebida.

Terceiro elemento: Francisco dialoga com o lobo. O diálogo restabelece relações rompidas. E diálogo, é bom notar, é estrada de duas mãos.

Francisco falava com o lobo, e o lobo falava com Francisco através de sinais (linguagem que lhe era própria). Diálogo inclui, portanto, esforço por compreender a linguagem do outro.

Nesse diálogo, Francisco compreendeu que a situação de fome levava o lobo a matar.

Ele leu isto na própria situação do lobo. Compreendeu que muita maldade é cometida, não porque a pessoa seja intrinsecamente má, mas por circunstâncias adversas.

Mais ainda: nesse diálogo, Francisco não deixou de recriminar os erros do lobo e de exigir dele uma mudança de atitude, como também depois ele vai exigir o mesmo do povo de Gubbio.

Quarto elemento: Tratado de paz no qual se celebra o compromisso de ambas as partes. Este elemento retrata a maneira concreta de Francisco evangelizar.

Evangelizar é encamar Evangelho em situações concretas.

Como a situação era de guerras entre cidades e conflitos entre famílias, sua evangelização tinha como finalidade palpável os pactos de paz.

Este elemento está muito bem retratado na parábola do lobo de Gubbio.
Quinto e último elemento de nossa consideração: A parábola apresenta Francisco como uma figura utópica do homem reconciliado com toda a criação.

Retomando a utopia de Isaías, Francisco é apresentado como a criança que brinca com o animal selvagem, do cordeiro que come com o lobo.

Aliás, esta interpretação de Francisco como homem reconciliado já se encontra na primeira biografia, em que Tomás de Celano assim se expressa: "Enfim, chamava todas as criaturas com o nome de irmão e, de maneira eminente e não experimentada por outros, percebia com agudeza as coisas ocultas do coração das criaturas, como quem já tivesse alcançado a liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (27).

Portanto, Francisco é interpretado como homem reconciliado, homem da utopia, homem do reino de Deus.

A parábola tem esta significação como pano de fundo.

8. OFS: uma política da paz (a decisão pessoal que transforma a sociedade)
O movimento franciscano desdobrou-se rapidamente em três Ordens.

Dentre as três Ordens, a Ordem Terceira, hoje conhecida como OFS, tem uma maneira especial de evangelizar: levar o carisma franciscano a todos os ambientes seculares.

A secularidade é que dá a nota marcante e distintiva dessa Ordem.
Lamentavelmente, com a OFS aconteceu algo que não devia ter acontecido em termos de engajamento na vida secular.

Ela perdeu a força de Ordem e tomou-se, em muitos lugares, uma associação de pessoas piedosas.

Como Ordem, ela teve um papel muito importante nos primórdios. Ela foi uma das forças motoras de construção da paz.

De fato, a história mostra que a decisão dos chamados terceiros ou terciários de não portar armas, uma decisão de nível pessoal, acabou por provocar uma mudança radical na mentalidade bélica da Idade Média.

Quando cada um decide fazer a sua parte, por mais pequenina que possa parecer, algo na sociedade muda.

De novo, trata-se de acreditar no pequeno, no frágil. Uma atitude frágil acrescentada a outra atitude frágil pode criar aos poucos um modo de pensar diferente.

Tanto isto é verdade sobre a OFS que temos documentos em que os príncipes escreviam aos papas, pedindo que obrigasse os terceiros (terciários) a portarem armas novamente.

Eles perceberam que estava acontecendo um verdadeiro desarmamento dos cidadãos. Desarmamento, gesto concreto de construção da paz; decisão pessoal que ajudou a criar toda uma mentalidade de paz.
A OFS, como Ordem franciscana cuja característica é a inserção na secularidade, deveria estar mais presente na vida política e social.

E a partir daí ser uma presença evangelizadora e anunciadora da paz. E como é necessária uma presença evangelizadora nesses setores da sociedade!

Seria um modo de estar constantemente denunciando a corrupção, o descaso pelo bem comum, o desapreço pela vida dos cidadãos, mormente pela vida dos pobres.
A política partidária é lugar da OFS, pois ela é secular. E sua missão é evangelizar os partidos em vista de um serviço mais evangélico à sociedade, preferencialmente aos pobres.
ConclusãoSanto Antônio afirmava que os pregadores (evangelizadores) são os pés da Igreja. Esperar-se-ia que eles fossem a boca da Igreja. Possivelmente, Antônio se baseou no texto de Isaías: "Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, do que proclama boas novas e anuncia a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina" (Is 52,7; cf. Na 2,1). Então, surge a pergunta: Por que os pés e não a boca?

Por que também Isaías faz referência aos pés do mensageiro? Porque, para que alguém seja evangelizador, é necessário usar os pés. São os pés que lhe permitem percorrer todos os cantos e recantos das cidades, aldeias e vilas.

Aquele que evangeliza, anunciando a paz, não pode estar estático (stabilitas loci), com os pés amarrados, parado num só lugar, mas ir ao encontro das pessoas para transmitir-lhes a mensagem.

Não pode esperar que as pessoas venham ao seu encontro, mas ir ao encontro delas. Ser evangelizador (anunciador da paz) implica dinamismo, mobilidade, itinerância (28). Elementos básicos do modo de ser franciscano - segundo nosso parecer - a serem profeticamente resgatados.

Na linha da itinerância e da mobilidade dos pés estaria a direção da busca de novas formas de presença evangelizadora por parte dos seguidores de Francisco.
______________________________________________________________________________________________1. Cf. 1Cel 222. 1Cel 23, 1.5-8. 3. AP 8,6-9, 1. 4.
Para LTC 33,1, os outros dois foram para outra direção5.
que o AP coloca a pregação propriamente dita de Francisco somente após a aprovação da regra; cf. AP 36,8; cf. LTC 54,1. 9.
RnB Prol., 2. 10. AP 38,7; cf. LTC 58,4.11. RB 3,10-14. 12. 2Cel 146,1-2.4.7.13.
RnB 16,6. 14.
Uma interpretação, aliás, que precisa de maior estudo e aprofundamento, pois entre cristãos e sarracenos havia, inclusive, grandes atividades comerciais. 15.
Tm B, 14.16. 2Cel 108. 17. AtF 11. 18. LTC 26,5. 19. 1Cel 57; LM 9,7-8; AtF 27; Fior 24; TM A,7; A,9; TM B,1,c p. 1426; B,5. 20. AtF 27; Fior 24. 21. Cf. CA 84,422. CA 101, 16-2223. CA 84,1-224.
O podestà teria sido o pai de Inês, dama pobre que foi a décima testemunha no Processo de canonização de santa Clara.
25. cf. AtF 23; Fior 21.26.
Lobo, na parábola, é o símbolo do diferente que ameaça o ser humano; por isso, a tentação de eliminar o diferente ameaçador. 27.
1Cel 81,528.
Na Igreja São Francisco na Pampulha, em Belo Horizonte, o famoso pintor Cândido Portinari retratou o santo com pés grandes; uma possível interpretação é a que vê em Francisco o evangelizador, o homem do caminho, o homo viator, peregrino e itinerante.
Texto publicado na “Revista Franciscana”, FFB, 2005, volume V

terça-feira, 2 de junho de 2009

FRANCISCANOS ESCOLHEM O NOVO MINISTRO GERAL

Franciscanos em Capitulo Geral: esta semana a eleição do novo Ministro Geral

(2/6/2009) Teve inicio no passado dia 24 de Maio, na Basílica de Santa Maria dos Anjos, em Assis, Itália, o 187.º Capítulo Geral dos Franciscanos (Ordem dos Frades Menores). O encontro, que decorrerá até 20 de Junho, reúne 152 delegados. A assembleia, que é convocada a cada seis anos, tem como objectivos avaliar a vida da Congregação, programar as linhas de acção e eleger o Governo dos cerca de quinze mil irmãos que vivem e trabalham em 113 países.Entre os assuntos tratados durante a primeira semana do Capítulo pelos dez grupos linguísticos, destaca-se o tema da «Missão». O Ministro Geral, Fr. José Rodríguez Carballo, sublinhou que a Ordem existe para a missão, mas para isso os irmãos devem ter um olhar aberto ao mundo e serem capazes de acolher as exigências dos seus contemporâneos, respondendo-lhes com generosidade, criatividade e audácia. É a partir da contemplação de Cristo, que vem ao encontro do homem e se coloca ao seu nível, que nasce a atitude que impulsiona os irmãos a ir como pobres para o meio dos pobres, fazendo resplandecer a imagem de Deus sobre o rosto de cada um. Os delegados abordaram igualmente questões relacionadas com a formação e o diálogo inter-religioso e inter-cultural.Os primeiros dias do Capítulo foram também marcados pela comunicação feita pelo Ministro Geral sobre os seus sonhos para a família franciscana: que tenha a capacidade de escolher uma vida mais contemplativa, plena de entusiasmo por Jesus Cristo, capaz de ir às periferias, às fronteiras, aos claustros desumanos, num mundo de pessoas marginais, feridas e inseguras, anunciando-lhes o rosto misericordioso de Deus, a fraternidade, a reconciliação, a paz e a solidariedade.Esta semana será dedicada quase inteiramente à eleição do novo Ministro, marcada para o próximo dia 4, numa sessão presidida pelo enviado especial do Papa , o Cardeal D. José Saraiva Martins, prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos. O Capítulo elegerá igualmente o novo Governo da Ordem.

Fonte: RV

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - ÚLTIMA PARTE


Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
Última Parte


A GRAÇA DAS ORIGENS
Frei Celso Márcio Teixeira ofm


Em 2004, o Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores enviou carta a todos os frades sob sua autoridade, convocando-os à celebração dos 800 anos da aprovação da Regra. Juntamente com a carta, explanava toda a programação que se estendia de 2006 até o ano de 2009. E propunha três atitudes fundamentais que deveriam marcar as celebrações: recordar o passado com gratidão, viver o presente com paixão e abrir-se ao futuro com confiança.
A convocação soou-nos, porém, pouco empenhante. Claro que nas entrelinhas há um desejo e apelo a vivermos mais plenamente o carisma, mas, segundo nosso parecer, falta algo que nos conclame a comprometimentos mais corajosos. Corre-se, assim, o risco de uma celebração muito bonita, triunfalista, cheia de incenso voltado para nós mesmos; leva-nos a um ingênuo estar contentes com nós mesmos (portanto, se justificaria ficar ou continuar como estamos); não nos incentiva a uma busca nem nos incita a mover-nos.

A Ordem precisaria de convocação mais provocativa, contundente, profética. Algo que nos incomodasse, que nos despertasse de nossa letargia, que nos questionasse em nosso auto-contentamento e nos colocasse em movimento ou em processo de conversão.

Não somos contra a atitude de gratidão ao dom recebido nem de viver com paixão nem de ter confiança no futuro. Mas talvez seja o momento de questionar: Quais são as nossas origens? O que fizemos com o carisma recebido? Em que estamos investindo as entranhas de nossa paixão? Quais as bases concretas para termos confiança no futuro?

Esta pequena reflexão pretende retomar com simplicidade a convocação do Ministro Geral e de seu governo com a finalidade de torná-la mais incisiva em nossa vida.

1. Retorno crítico às origens

Mais do que por recordar as origens com

gratidão, porém sem descartar esta atitude, nosso retorno às origens deveria ser marcado por uma atitude crítica. Esta consistiria em buscar com discernimento o que constitui a proposta original do nosso carisma. Incluiria um estudo ou aproximação da maneira como esta proposta se concretizava naquela época e do impacto que aquela novidade causava na Igreja e na sociedade em geral.

Sem dúvida, esta aproximação metodológica exigiria um grande esforço, pois seria como um deslocar-se do século XXI ao primeiro quarto do século XIII. O retorno às origens – ou situar-se na origem – seria a maneira mais própria a permitir a verificação da proposta original e das formas concretas que ela assumia e, inclusive, das variações que sofria ou das evoluções (naturais) pelas quais passava.Duas grandes dificuldades encontramos para nos colocarmos nas origens, uma em nível teórico e outra em nível prático.


a) Em nível teórico. Ousamos afirmar que o franciscanismo em que fomos formados não é o das origens. Para provar que não afirmamos coisas absurdas e sem sentido, lembramos que é somente a partir das últimas décadas que temos a ventura de poder confrontar-nos diretamente com todos os escritos de São Francisco. Tínhamos conhecimento apenas da Regra Bulada e do Testamento. E mesmo aquilo que hoje compreendemos como “origens” nos foi transmitido por ideologias que marcaram profundamente a história (e a formação) da Ordem. Portanto, a leitura que temos das nossas origens foi feita com óculos de ideologias que muito pouco têm das origens verdadeiras. Em nossa concepção atual de franciscanismo temos “verdades absolutas e inquestionáveis” que não passam de preconceitos (preconcepções) que nos foram transmitidos como as verdades das origens. Quem, por exemplo, nunca ouviu falar que São Francisco era contrário aos estudos? Quem nunca ouviu falar que a vocação de Francisco consistia em viver a pobreza e que esta é o elemento mais importante do franciscanismo? Para quem é novidade a afirmação de que Francisco foi enviado por Deus como “homem novo” não somente para tirar o mundo da lama dos vícios (cf. 3Cel 1,3), mas também como reformador da Igreja ou para inaugurar uma Igreja espiritual, cujo elemento de identificação era a pobreza? Quantos não se encantaram com os relatos poéticos e não menos caricaturais de Fioretti, a ponto de julgar que o franciscanismo que esta obra nos transmite é o genuíno franciscanismo das origens? Todas estas afirmações, geralmente categóricas, são uma maneira preconceituosa de ler as origens, porque oriundos de grupos extremistas que fizeram sua leitura dos primórdios da Ordem e nos transmitiram seus conceitos (ou preconceitos), seu modo de conceber a vida franciscana.

Segundo nosso parecer, a formação do nosso modo de conceber e de viver o franciscanismo data da metade do século XIII. A partir daí, as nossas origens foram como que apagadas, e foi-nos transmitido como original um franciscanismo ideologizado. Diríamos que fomos formados não somente por um franciscanismo caricatural, mas híbrido, em que se misturam algumas inspirações de Francisco lidas e interpretadas não a partir do confronto com o Evangelho, mas com os óculos e a partir das teorias imaginosas de Joaquim de Fiore (recorde-se que Joaquim de Fiore teve enorme influência nos meios religiosos da época, influência comparável, a nosso ver, à de Aristóteles nas universidades). Desta maneira, nossa vida franciscana tem como imagem ou espelho não propriamente Francisco de Assis, mas os fraticelli, como eram conhecidos os idealizadores ou ideologizadores deste franciscanismo híbrido.

A proposta de um retorno crítico às origens requer, num primeiro momento, que se identifiquem esses grupos, que se questione a concepção que eles têm das origens. Torna-se imperativo para isto um embrenhar-se nos meandros da história em busca das idéias-força que configuraram a vida franciscana da época em que surgiram esses grupos. Num segundo momento, a busca propriamente dita das verdadeiras origens deve ter como alvo as opções fundamentais e inalienáveis de Francisco, as opções-eixos que imprimiam identidade à vida do frade menor, as práticas que concretizavam estas opções.

Esta busca, porém, não significa estacionar nas origens no sentido de querer copiar a vida tal qual acontecia naquela época. As origens não eram estáticas, mas dinâmicas, passavam por processos de evolução; a vida ia se concretizando diferentemente nas diversas circunstâncias de lugar, de tempo, de cultura, mantendo-se, porém, fiel às opções fundamentais. Pois evolução não significa renúncia às opções fundamentais e inalienáveis que constituem a identidade de um grupo. Onde há renúncia às opções fundamentais, não há evolução, mas desvio. As opções fundamentais do carisma são, portanto, irrenunciáveis. Uma verdadeira evolução mantém sempre a fidelidade às opções que constituem a identidade do grupo. E Francisco, em várias ocasiões de sua breve existência, sempre se mostrou consciente do que constituía o inalienável ou o inegociável de seu carisma.

b) Em nível prático. Também aqui, o que nos foi transmitido a partir da metade do século XIII foi decisivo para a nossa compreensão do franciscanismo. Até este período, estamos diante de uma Ordem marcada pela mobilidade (exatamente o contrário da stabilitas loci dos monges). A partir deste momento, a Ordem começa a passar por um processo de estabilização ou de fixação. A pregação itinerante, que marcava o estilo de vida do frade menor, acabou cedendo lugar a uma fixação cada vez mais acentuada, distanciando-se da proposta evangelizadora das origens. A nosso ver, não tanto o crescente número de frades e a necessidade de construir casas maiores (conventos) era a causa precípua da fixação, mas o fato de os frades assumirem cada vez mais as tarefas que competiam ao clero.

De um lado, esse processo é plenamente compreensível. Tratava-se de encontrar um espaço dentro dos quadros da Igreja. O que, no fundo, constituía uma busca de sua identidade no âmbito eclesial, visto que comumente os grupos se definem ou se identificam a partir do que fazem. E recorde-se que a pregação itinerante sempre fora mal vista por setores importantes da hierarquia eclesiástica. Nesta busca de espaço-identidade, pouco a pouco, a Ordem foi assumindo as tarefas que não lhe competiam, até para justificar sua presença e atuação na Igreja.

As igrejas dos frades passaram a atender os fiéis a exemplo das paróquias, o que causou no início brigas com o clero, pois este sentia que seu espaço estava sendo ocupado por intrusos. Tanto assim que o papa Inocêncio IV, atendendo às queixas dos seculares, chegou a proibir que os frades, nos dias solenes, abrissem as portas das suas igrejas antes da terça (por volta das 10 horas), para não afastarem os fiéis de suas paróquias (lembre-se que toda esta problemática incluía a questão muito concreta dos benefícios) (cf. Salimbene de Parma, Crônica, n. 38, em FFC, p. 1395). Neste processo de adequação à atividade do clero, o passo para que os frades se ocupassem de paróquias foi muito curto. Deste modo, a mobilidade inicial acabou ficando estática, constituindo um verdadeiro desvio daquilo que era a proposta clara das origens: os frades não seriam pastores (clero), mas auxiliares do clero na sua tarefa de “salvar as almas”; sua tarefa seria a de suprir o que porventura faltasse, portanto, a da complementaridade (cf. 2Cel 146,2).Pode-se argumentar que a Igreja hierárquica pressionava a Ordem a assumir as tarefas próprias do clero. Com ou sem pressão, porém, a Ordem não pode eximir-se da culpa e atribuir à Igreja a responsabilidade de seus desvios. Segundo nosso modo de ler a história, faltou à Ordem uma liderança lúcida que, como Francisco, fosse capaz de fazer valer suas opções fundamentais mesmo diante do papa. Apenas um exemplo: quando Francisco pediu a aprovação da Regra, o cardeal João de São Paulo lhe propôs uma das regras existentes, e o próprio papa achava muito difícil viver o que nela se propunha, mas Francisco recusou cortês e corajosamente qualquer outro caminho que não fosse o de sua opção.

Tanto quanto a clericalização jurídica da Ordem, esta clericalização prática, que açambarcava a tarefa do clero e a reivindicava como seu modo de dar fruto na Igreja (cf. 2Cel 148,10), não deixava de ser uma grande traição às origens. Com a fixação, perdeu-se a “novitas” ou o próprio que exatamente identificava a Ordem. Se nas origens muitos membros do clero acorriam à Ordem, deixando as tarefas próprias do clero para se tornarem pregadores itinerantes (em outras palavras, deixando de ser “clero” para tornarem-se frades menores), a partir deste período, o movimento torna-se precisamente o contrário: os frades, pouco a pouco, vão deixando a itinerância para se fixarem nas paróquias (vão deixando sua identidade de frades menores para assumirem inconscientemente a identidade de “clero”).Se de um lado, este processo é compreensível, de outro não se justifica, pois o processo preteria uma das opções irrenunciáveis que fazia parte da identidade dos frades menores e que constituía a sua “novitas” dentro da Igreja.

2. Ler o presente à luz das origens

O retorno às origens não significa um estacionar no passado com saudosismo. Deve provocar-nos a atitudes criativas para o nosso presente. Caso contrário, estaremos deslocados da nossa realidade. Uma vez verificadas as opções fundamentais das origens, trata-se de ver como elas estão concretizadas na nossa vida. Faz-se necessária uma leitura do presente à luz das opções das origens. Daí o questionamento: Elas continuam sendo as nossas opções fundamentais e inalienáveis?A leitura do presente à luz das origens (ou no confronto com as opções das origens) exige três atitudes complementares:

a) Humildade. Esta atitude nos levará a constatar que estamos mais distantes do que próximos das opções das origens. Permitir-nos-á identificar os desvios da Ordem ao longo desses 800 anos e que teimamos em manter com as mais belas justificativas. Se no início ela se caracterizava por uma “novitas”, por sua pujança progressista, por sua coragem de ser “de fronteira”, hoje ela é uma Ordem eminentemente conservadora, especialmente no que diz respeito à sua tarefa dentro da Igreja. Com uma Igreja burocraticamente imóvel, ela se fez igualmente imóvel e não tem a coragem de propor a mobilidade que a caracterizava nas origens. A uma Igreja que insiste em uma organização paroquial antiquada e anacrônica, baseada na centralidade do pároco, uma evangelização itinerante, como a das nossas origens, poderia ser uma proposta alternativa de evangelização. Mas a Ordem prefere conservar a mesma imobilidade.

A perda da mobilidade traz inevitavelmente como consequência a criação de estruturas pesadas: propriedades, casas grandes, equipamentos “indispensáveis” de evangelização, empresas, tudo de acordo com as exigências do mundo moderno, tudo em nome da evangelização. O que nos distancia sempre mais dos pobres. E embora a Ordem faça belos discursos sobre a opção pelos pobres, ela não tem coragem de partilhar a sorte, a vida, a mobilidade e a insegurança dos pobres. E é conveniente que nos lembremos de que quanto mais nos afastamos dos pobres, mais nos afastamos de nossas origens, visto que Francisco queria a presença dos frades preferentemente no meio dos pobres. Sem dúvida que muitos frades pessoalmente estão buscando recuperar os valores das origens, mas institucionalmente, como Ordem, estamos num conservadorismo que não tem outra consequência que a de asfixiar a vida franciscana.

O confronto com as origens permitir-nos-á verificar também o grau da nossa fidelidade a elas. Nem tudo é desvio. Certamente existe algo da nossa identidade das origens que ainda nos torna frades menores e nos faz ser conhecidos como tais. E da mesma maneira que somos convidados humildemente a retificar os desvios, semelhantemente somos convidados a intensificar criticamente (com discernimento) as nossas fidelidades.

b) Criatividade. A humildade em reconhecer nossos desvios históricos não deveria apenas levar-nos a bater no peito por nossas faltas, numa lamentação inócua, mas principalmente dispor-nos a tomadas de atitudes positivas. Trata-se de perguntar-nos: como concretizar hoje e daqui para frente as opções de origem? Como reencarnar na diversidade da vida de hoje as nossas opções fundamentais que nos caracterizam como frades menores?

Longe de nós a tentação de copiar anacronicamente as práticas do século XIII! Atitude essencial seria a de repropor-nos o carisma com criatividade. Isto implicaria na busca de novas formas de presença e de atuação na Igreja e no mundo (novas práticas); implicaria em termos coragem de abandonar inúmeras estruturas que nos amarram e encontrar novas formas de mobilidade que deveria ser, como nas origens, uma marca própria do frade menor; implicaria igualmente em propormos alternativas não somente para a Ordem, mas para a Igreja, em sua tarefa evangelizadora; implicaria em retomarmos “as fronteiras” da evangelização, isto é, os lugares de perigo e de risco, bem como os lugares de ponta nas grandes questões e debates da humanidade. Pois o conservadorismo não faz parte do estilo de Francisco de Assis; por conseguinte, não deveria fazer parte do estilo dos frades menores. Devemos recriar (ou encarnar) o carisma em novas práxis, sempre, como foi dito acima, na fidelidade às opções irrenunciáveis das nossas origens, pelo que agradecemos a Deus. Somente assim seremos capazes de manter acesa a “novitas” do carisma franciscano. Caso contrário, seremos uma Ordem velha, não pela idade de seus membros, mas pela falta da novidade evangélica.

Uma coisa deve ficar muito clara: Não está em questão a bondade ou a validade do que fazemos. Tudo o que fazemos em nível de trabalhos paroquiais, em nível de promoção humana e em inúmeros níveis é e poderá ser muito bom e válido. A questão pode ser impostada nestes termos: É necessário ser frade menor para fazer o que fazemos? A nossa vida e a nossa atividade evangelizadora estão na linha da fidelidade às nossas opções de origem?

c) Re-opção. Para que a criatividade não se disperse numa busca aleatória, é necessário que ela esteja fundada, movida e orientada por uma re-opção. Isto equivale a dizer que no fundo da busca de novas formas de encarnar hoje o carisma é imperativa a retomada das opções de origem. Caso contrário, haveria uma alienação da proposta original, e a criatividade seria confundida com busca de singularidades.

A proposta de uma re-opção não é uma proposta de reforma em seu sentido histórico. A Ordem teve inúmeras reformas ao longo de sua história. Todas elas pecaram por certo observantismo reducionista, isto é, se propuseram observar a proposta original, só que em um ou dois aspectos, deixando fora do seu projeto reformista elementos essenciais das opções da origem; um observantismo que beirava ao fundamentalismo, no qual primava a observância literal da Regra; um observantismo que privilegiava o rigorismo ascético sobre qualquer outra dimensão do carisma; um observantismo que acabou se tornando chave de interpretação não só da regra, mas também da própria existência humana.Re-opção significa assumir as opções fundamentais das origens em sua globalidade, sem reducionismos e sem os outros “ismos” interpretativos que as desvirtuam, as desfiguram, as mutilam.Evitamos propositalmente o termo “refundação”, amplamente utilizado nas reflexões da vida consagrada há uma década aproximadamente. De fato, não refundamos nada, pois a Ordem que temos já foi fundada, e ninguém funda a mesma coisa de novo. A preferência pelo termo “re-opção” deve-se ao fato de este engajar a nossa vontade num processo de retomada do caminho, de conversão. Sem a vontade não se dá um passo sequer neste processo. E é a vontade que precisa ser ativada para que a Ordem retome seu caminho.

3. Inaugurar o futuro já

O futuro não existe como realidade, mas apenas como possibilidade. Só podemos falar de esperança ou de confiança em um futuro a partir do que concretizamos no presente. É a nossa atitude no presente que vai fornecer as bases do futuro. Portanto, o futuro se começa a construir hoje.

Muitas vezes, a reflexão sobre a virtude teologal da esperança a coloca relacionada ao “depois”, ao “além”, ao “ainda não”, desvinculando-a de nossa existência concreta. Mas ela deve estar presente no “agora”, no “aqui”, no “já”. Esperança não é esperar acontecer, mas fazer acontecer. Por exemplo, só podemos ter esperança de que uma semente dê fruto, se a plantarmos. Plantando-a, criamos condições de existência do fruto. Caso contrário, não há sequer como falar de esperança. É a esperança do fruto que nos move a plantar a semente. A esperança é, então, o dinamismo que move a ação presente que, por sua vez, possibilita o desabrochar do futuro. Portanto, a esperança é força propulsora da própria ação do presente.Deste modo, só podemos falar de esperança e de confiança no futuro da Ordem, se fizermos a nossa re-opção no presente, se retomarmos agora as opções que constituem a nossa identidade como frades menores. À medida que concretizarmos no presente as opções de origem, criaremos as condições para uma vida franciscana mais autêntica tanto agora como para o futuro.

Evidentemente não se constrói uma casa com um estalar de dedos. Requerem-se paciência e perseverança. Mas é no pouco que construímos a cada dia com esperança que podemos falar e desejar um futuro melhor. Importante é dar os primeiros passos, mesmo que pequenos. Urge começar, como dizia Francisco: “Comecemos, irmãos, porque até agora apenas pouco ou em nada progredimos”.Não há outro caminho: ou plantamos agora ou não podemos sequer ter esperança de colher no futuro.

Conclusão

Esta reflexão pode ter causado certo mal-estar, pois, ao mostrar que a Ordem passou por sérios desvios de suas opções fundamentais e tem longo e árduo caminho a percorrer na busca de suas origens, nos incomoda, nos provoca a sair da nossa acomodação, nos sacode do nosso auto-contentamento, nos põe em movimento de conversão. Mal-estar é sinal de que percebemos a necessidade de conversão. Lamentável seria se achássemos que não precisamos de conversão. Por isso, o mal-estar é extremamente benéfico.

Semelhantemente, uma celebração, que não reconhecesse os erros cometidos e o caminho a percorrer, cairia inevitavelmente no triunfalismo e na auto-incensação. E nada pior do que o contentamento consigo mesmo para impedir qualquer progresso.

A graça que Deus concedeu a Francisco e aos companheiros nas origens não nos será negada hoje. Importante, porém, é fazer com que essa graça não seja vã e que produza seus frutos. E para produzir frutos, é necessário que retomemos com paixão as nossas origens, na esperança de que do que plantarmos agora colheremos melhores frutos no futuro.


Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 13ª PARTE


Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
13ª Parte





Oração para a terceira etapa(2008/09) do 8º Centenário da Ordem

Senhor Jesus, o único Santo,abra nosso coração à plenitude de teu amor,coloca-nos no caminho das bem-aventuranças,dá-nos a graça de ser santos.Senhor Jesus, bom Mestre,ensina-nos o caminho a seguir neste novo tempo;encha nosso coração de agradecimentopor todo o bem que tem feito em nossa Fraternidade e em nós mesmos,ensina-nos a fazer festa, encantandos por teu amor e tuas maravilhas.


Senhor Jesus, verdadeiro Amigo, dá-nos olhos penetrantes, para esquadrinhar a noite,dá-nos a sabedoria que nasce de tua amizade, para saber discernir o que vem de ti,dá-nos valentia para testemunhar diante dos homens, nossos irmãos, a beleza de te seguir.


Senhor Jesus, único Salvador,Vem em socorro de nossa fragilidade, para que não nos desanimemos nos momentos difíceis,dá-nos a simplicidade da pomba, para ir entre os povos, E a astúcia da serpente para não ser do mundo, Olha-nos com amor, também quando Te negamos.


Altíssimo, onipotente e bom Senhor, Te damos graças porque nos pensou, criou e chamou à vida franciscana,te bendizemos porque mantém vivo em nós o propósito de te seguir mais perto, Te louvamos porque, como Francisco,nos tem dado a graça de te descobrir como verdadeiro tesouro de nossa vida.A Ti o louvor, a bênção e toda a honra. Amém.



Fr. José Rodríguez Carballo, OFM, Ministro Geral, Assis, 27/10/07


Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 12ª PARTE


Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
12ª Parte





São Francisco de Assis, uma alternativa humanística e cristã

O contato com Francisco produz uma crise muito profunda e salutar. Sua figura envolve os leitores dentro de um círculo luminoso no qual descobrimos nossa mediocridade e lentidão face aos apelos que vêm da verdade mais profunda do coração e do evangelho. Ele conduziu sua vida sempre a partir da utopia e a manteve viva como uma brasa contra todas as cinzas do dia-a-dia e a razoabilidade da história. Incorporou o arquétipo da integração dos elos mais distantes, historizou o mito da reconciliação do céu e da terra, dos abismos e das montanhas. Daí o fascínio que se irradia dele e a catársis humana e religiosa que ele opera.Diante de Francisco descobrimo-nos imperfeitos e velhos. Ele aparece como o novo e o futuro por todos buscado, embora tenha vivido há 800 anos. Mas este sentimento é sem amargura, pois sua mensagem encerra tanta doçura que o medíocre se sente convidado a ser bom, o bom a ser perfeito e o perfeito a ser santo. Ninguém fica imune à sua convocação vigorosa e ao mesmo tempo terna.Francisco em sua gesta nos coloca imediatamente diante do evangelho e do sermão da montanha. Tomou absolutamente a sério a mensagem de Jesus como se lhe fora dirigida pessoalmente a ele. Assumiu tudo ad litteram et sine glosa e procurou viver com coração generoso e alegre. Não queria saber de interpretações. Bem sabia que quase sempre as interpretações emasculam a força do evangelho. E o evangelho lhe era simplesmente a formula vitae.Se procurou orientar-se sempre a partir do evangelho e não da sensatez da razoabilidade, não era, entretanto, um fanático. Por isso se abraça a vida evangélica mostra também o sentido de uma regra; se vive do carisma compreende igualmente a instituição; se se entrega às duras penitências, sabe também alegrar-se e ser com todos cortês; se assume uma pobreza radical, postula outrossim uma fraternidade extremamente sensível à satisfação das necessidades uns dos outros; se é rigoroso para consigo mesmo, mostra-se ao mesmo tempo compassivo para com o confrade que grita na noite: morior fame!
Sempre segurou firme os dois pólos, mas começando todas as vezes pelo pólo do evangelho. Quebrou sem receios as barreiras instituídas para assegurar a vida livre do evangelho. Por isso é que nele coexistem admiravelmente ternura e vigor, que resultam da tensão sustentada permanentemente entre o evangelho e a regra, entre o sermão da montanha e a ordem. Se houvesse apenas vigor, emergiria então a figura de um santoduro, inflexível e sem coração. Se houvesse somente ternura, projetaria a imagem de um santo sentimental, adulçorado e sem perfil. Ternura e vigor compaginando-se na mesma pessoa criam o sol de Assis, como diria Dante, sol que gera ao mesmo tempoluz e calor, sol cantado pelo Poverello como “belo e radiante e com grande esplendor”, mas também criam a lua com sua luminosidade amena e amaciadora de todas as pontas que ferem e fazem sangrar. Francisco aflora assim como um homem solare lunar, integração feliz dos opostos.
Francisco faz ainda um apelo de inaudita importância para a nossa situação atual. Vivemos num mundo de objetos; tudo é feito objeto de troca, de interesse, de negociação, de falsificação, de mascaramento e de fetichização. As coisas mais e mais perderam seu uso humano direto e simples como satisfação de necessidades objetivas que devem ser atendidas coletivamente. Com sua pobreza radical Francisco postula uma radical expropriação, especialmente do dinheiro cuja natureza se resume em ser puro objeto de troca sem nenhum uso a não ser a troca. Inaugura, no exato momento de formação do espírito capitalista, assentado na troca, uma existência humana que se baseia unicamente no valor do uso: duas túnicas, um capuz, calçados para os que precisam, os instrumentos de oração e de trabalho. A ausência de qualquer excedente visa, limpar o caminho de todos os obstáculos para o encontro dos homens entre si em sua transparência de irmãos, servindo-se mutuamente como convém entre membros de uma mesma família. Este projeto pode parecer utópico e, de fato, o é. Mas a utopia pertence à realidade porque esta não se resume naquilo que é e pode ser medido, mas muito mais naquilo que nela é possível e pode ser no futuro. A utopia expressa as possibilidades todas da realidade concretizadas. Porque ainda não foram concretizadas, ela convoca para novas realizações, a superar o já feito e ensaiado na direção de formas mais plenas e humanizadoras.
A utopia de Francisco de uma fraternidade sem plus-valia e, por isso, não exploradora, anima as buscas modernas por caminhos de satisfação das necessidades coletivas com o menor custo social e pessoal possível.
A seriedade evangélica de Francisco vem cercada de leveza e de encanto porque é imbuída profundamente de alegria, finura, cortesia e humor. Há nele uma inarredável confiança no homem e na bondade misericordiosa do Pai. Em conseqüência exorcizou todos os medos e ameaças. Sua fé não o alienou do mundo nem fez dele um mero vale de lágrimas. Pelo contrário, transformou-o pela ternura e pelo cuidado em pátria e lar do encontro fraterno, onde os homens não aparecem “como filhos da necessidade, mas como filhos da alegria” (G. Bachelard). Podemos dançar no mundo porque ele constitui o teatro da glória de Deus e de seus filhos.
Francisco de Assis mais que um ideal é um espírito e um modo de ser. E o espírito e o modo de ser só se mostram numa prática, não numa fórmula, idéia ou ideal. Tudo em Francisco convida para a prática: exire de saeculo, sair do sistema imperante, numa ação alternativa que concretize mais devoção para com os outros, mais ternura para com os pobres e mais respeito para com a natureza.

Texto do livro de Leonardo Boff, “São Francisco de Assis, Ternura e Vigor”, Editora Vozes, 1981.


Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 11ª PARTE


Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
11ª Parte





O mundo hoje - da imagem para o símbolo

Sem dúvida, nossa geração está mais ligada à imagem do que à palavra. Imagens em rápida sucessão passam constantemente diante de nossos olhos com a intenção de prender nossa atenção e induzir-nos a decidir sem refletir. A cultura da imagem reforça o fenômeno do imediato. Separados do passado, vivemos submissos às exigências do presente numa subjetiva relativização dos valores.
Nossa vida não é só permanentemente marcada por aquilo que dizem e promovem os meiosde comunicação social, mas até as dimensões mais íntimas de nossa existência tornam-se material de exposição e de consumo público. Os meios de comunicação estão intimamente ligados às forças do mercado; entre outras coisas, vivem para mostrar ininterruptamente os conflitos geradospela violência; comunicam a imagem de uma humanidade presa de um permanente ciclo de frustração.
Por outro lado, cresce a consciência de que a cultura da imagem conduz à esterilização da imaginação, à redução do indivíduo a consumidor de imagens. Assim, vemos que se multiplicam as propostas alternativas de espaços educativos que incentivam a capacidade imaginativa e criativa do ser humano, salvaguardando nossa condição de criadores de símbolos.Em nossa sociedade, cresce a alternativa de uma virada simbólica (poesia, rito, pintura, dança, música, gestos), que ajude a unir-se profundamente à verdade pessoal e à transcendência.
Na sociedade civil, aumenta a exigência de uma ética dos meios de comunicação, para que eles não sejam somente receptáculos de misérias humanas, mas instrumentos capazes de oferecer imagens reais de justiça, de paz e de integridade da criação e de contribuir para criar uma esperança da importância e do significado globais.
A realidade nos confirma que o trigo e a cizânia crescem juntos (cf. Mt 13,24-30); isso constitui um convite urgente ao discernimento evangélico para decidir que direção deve tomar nossa caminhada de transformação pessoal e institucional. Percebemos a crise de fé provocada por estas realidades como um momento de graça, um kairós, que nos desafia a recriar nossa experiência de crentes em sintonia com os desafios de uma época em crise. É uma ocasião de experimentar um credo que faça emergir a totalidade da pessoa e a comprometa com a paz e com o bem. Também a crise da ética é vista como um momento de graça para desenvolver uma nova ética da vida, uma ética da coerência que supere a fragmentação mediante uma caminhada de harmonização e de integração: pensamentos e obras, oração e ação, palavra e trabalho, fé e vida, aspirações do coração para a fé e para a esperança e sua encarnação em formas visíveis (ações, ritos, estruturas).

Documento do Capítulo geral da Ordem dos Frades Menores - Assis, Pentecostes de 2003


Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

domingo, 12 de outubro de 2008

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 10ª PARTE

Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
10ª Parte


São Francisco, como o vejoDom Aloísio Lorscheider, OFM

À medida que passam os anos, São Francisco merece maior atenção. Em nossos dias, sobretudo, com a redescoberta do lugar social do pobre na Igreja e no mundo, o interesse pelos ideais de São Francisco faz-se mais vivo.
O meu contato com São FranciscoMuito deve a Igreja no Rio Grande do Sul aos filhos de Santo Inácio. Comecei a conhecer São Francisco, quando, em 1934, entrei no Colégio Seráfico de São Francisco, em Taquari (RS). Passei no Seminário Menor oito anos. Foi neste período que foi aumentando em mim o conhecimento, a admiração e o amor pelo Poverello. Tínhamos no Seminário a Ordem Terceira Franciscana, hoje denominada Ordem Franciscana Secular. As reuniões mensais e o espírito que os nossos formadores, por seu exemplo e palavra, imprimiam à nossa orientação, ajudou muito. O exemplo e o ideal vividos com muito entusiasmo pelos meus formadores, padres e irmãos franciscanos holandeses, foram benéficos. Eles concretizaram para nós o Serafim de Assis. Mais tarde, o noviciado, os anos de preparação para a profissão solene, a graça de, na Itália, visitar os lugares mais queridos ao coração de São Francisco, concorreram para formar em mim uma imagem do Santo da Dama Pobreza e da Perfeita Alegria.
Características de São Francisco1. A imagem de DeusSempre fiquei muito impressionado e atraído pelo amor quente e apaixonado que São Francisco dedica a Deus. Parece que no beijo do leproso ele entendeu, como Saulo no caminho de Damasco, a doação total de Deus a nós em seu Filho Jesus Cristo. Custou a Francisco não só descer do cavalo fogoso que no momento montava, mas muito mais do cavalo do orgulho e da vaidade com que ele queria conquistar o título de grande e nobre. Foi no caminho que a luz de Deus entrou mais forte em seu íntimo. Foi o beijo ao doente rejeitado, nada grande e nada nobre aos olhos dos homens, que fez a Francisco descobrir o enorme amor de Deus que nos dá todo o seu Filho: “Tanto Deus amou o mundo que lhe deu o seu Filho único... “(Jo 3, 16). É aí que aparece o “meu Deus e meu Tudo”. “Quem sou eu, quem sois Vós? Uma noite toda foi insuficiente para saborear esta realidade tão grande. Francisco embeveceu-se no amor divino. A transcendência cantou o coração de Francisco. Mais e mais ele se extasiava diante do Bom Senhor, do Altíssimo, do Sumo Bem, do Único Bem, de todo o Bem. E o que sentia ia-se tornando oração. Convém ler e meditar as orações que brotaram, espontâneas, desta alma toda repleta da imensa misericórdia do seu Senhor.São Francisco ajuda-nos a redescobrir a verdadeira imagem de Deus e “a graça salvadora de Deus que se manifestou a todos os homens”(Tt 2,11). É nesta imagem bíblica de Deus, assimilada por São Francisco, que se deve procurar a sua devoção à Encarnação do Verbo (presépio), ao Santíssimo Sacramento, à Palavra de Deus, aos Sacerdotes e à Cruz do Senhor.2. A sua DamaFrancisco viveu numa época conturbada. Fermentos de renovação dentro da Igreja; fermentos novos no mundo dos negócios e da política, onde a riqueza estava sendo vista como o grande valor da vida humana. Na Igreja é o tempo do Papa Inocêncio III. Tempo de muito poder e de muito fausto. Faziam-se sentir diversos movimentos de renovação a partir da pobreza. Infelizmente, tais movimentos queriam conseguir o seu objetivo colocando-se à margem daquele que por Cristo fora posto como Pedra, Pastor, Garantia de Fé.No mundo dos negócios e da política, as lutas entre os grandes partidos de então, guelfos e de gibelinos, entre as comunas, desejando uma superar a outra em importância e força, entre as classes sociais, buscando os do comércio conquistar os privilégios da classe nobre. É o tempo fogoso da Cavalaria.Francisco, por influência do próprio pai, estava metido nestas lutas de promoção. O “status” o atraía. Liderança não lhe faltava. Mas, na análise de sua pessoa, percebe-se que, no íntimo, outras forças o estavam trabalhando. Além da graça divina, que tinha os seus desígnios, uma sensibilidade muito forte em relação à realidade social e eclesiástica também jogava o seu papel. E foi assim que Francisco entendeu que o verdadeiro soberano era o seu Deus, que se revelara em Jesus Cristo pobre, pequeno, humildade. O importante não era ser “maior”, como ele com tantos do seu tempo pensavam, mas sim ser “menor”. Sem dúvida alguma a passagem bíblica: “Quem entre vocês quiser ser o maior faça-se o menor”(cf. Lc 22,26), mais tarde repetida aos seus frades, deve já antes ter ressoado no coração do Santo de Assis. Seja como for, Francisco se enamora tanto por ela, porque vê o próprio Jesus Cristo nos enriquecer com sua pobreza” (2Cor 8,9). A formação paulina, num contexto de comunhão de bens (esmolas) entre as Igrejas, torna-se ela luz para uma inteligência mais profunda do mistério de Deus que se comunica ao mundo por seu Filho Jesus, o Filho do seu amor (Cl 1,13). E Francisco nele se inspira.Começa, na Igreja, uma redescoberta do pobre, precisamente num período em que a Igreja parece ter atingido a culminância do seu poder e de sua influência no mundo. Poder espiritual e poder temporal estavam firmemente enfeixados nas mãos de um Papa que se soubera impor a príncipes e reis, dando ao Sacro Império Romano esplendores nunca dantes vistos e vividos. E foi no coração deste grande monarca que Francisco coloca; o seu modo de vida evangélica. Ele nada mais quer do que observar o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, Evangelho que tem a sua conotação específica na vivência da pobreza. Pobreza não à margem da Igreja Romana, mas pobreza no coração da Igreja Romana, em obediência total ao Papa e seus sucessores. Quando Francisco prescreve isto a seus frades, já era o Papa Honório, mas quando Francisco começou era Inocêncio que dominava.Esta atitude de São Francisco foi obra do Espírito Santo. Foi autêntica intuição evangélica de alguém que era todo poesia. As almas dos poetas são as que, sensíveis, enxergam mais longe.Em nossos dias revivemos esta redescoberta evangélica do pobre. Partimos de uma realidade diferente daquela do século 12, porque, hoje, nos angustia a injustiça institucionalizada, a injustiça que na sociedade, se tornou estrutura, ao passo que então a riqueza dentro da Igreja e os anseios de grandeza temporal dominavam os homens. Então, como hoje, as resistências dentro e fora da Igreja não são poucas. Entretanto, a profética opção preferencial e solidária pelos pobres corresponde inteiramente ao ideal de São Francisco, porque responde completamente ao Evangelho. E Francisco outra coisa não queria do que o Evangelho em sua mais completa pureza, sem glosa, sem glosa, sem glosa...O estilo de vida simples, sóbrio e austero que Puebla preconiza para todos os cristãos de nossos dias em identificação sempre mais perfeita com Cristo pobre e os pobres, exprime, sem ambigüidade, o que Francisco, já no século 12, sonhava e via como verdadeira renovação evangélica. Se hoje, partimos de outra realidade para a vivência a pobreza evangélica, o fundamento continua sempre o mesmo: Cristo que, sendo rico, se fez pobre; que sabendo não ser um roubo para Ele o ser igual a Deus, esvaziou-se, fez-se servo, fez-se em tudo solidário com os homens, obediente até a morte e morte de cruz (cf Fl 2,5-9)3. A perfeita alegriaSão Francisco é conhecido como sendo o São Francisco das Chagas, além de ser o São Francisco de Assis. As chagas do Senhor Jesus mostram outra faceta da rica personalidade de Francisco: um apaixonado pela paixão de Jesus Cristo, um apaixonado pela Cruz do Senhor. Tão grande a sua paixão que mereceu experimentar ao vivo na própria carne a paixão sobre a qual tanto meditara e chorara a ponto de ter ficado quase cego. O amor de Deus na Encarnação torna-se, para nós, o mais concreto possível na doação total que a cruz simboliza: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jô 15,13).Penso que na mística franciscana da Paixão do Senhor se deva procurar o sentido mais profundo da perfeita alegria que os “Fioretti” nos retratam com forma tão viva e poética. Ser rejeitado pelos próprios irmãos, ser afastado do convívio deles como elemento perigoso, como perturbador da paz e do silêncio de nossa casa, e saber aceitá-lo sem querer mal a quem desconfia de nós, nos machuca, nos revolve na condição mais miserável, - é identificar-se com Jesus rejeitado, escarnecido, esbofeteado, carregado com a cruz, crucificado. A perfeita alegria, está, pois, na mais perfeita identificação com Cristo, o Servo Sofredor de Jahvé.Parece que o mundo de hoje nos oferece inúmeras oportunidades para vivermos este capítulo da perfeita alegria. Numa época de renovação, exige-se muito espírito de sacrifício, muita renúncia, muita assimilação com a paixão e morte de Jesus Cristo, com a oração sincera: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”(Lc 23,34)4. Homem livreEste tríplice olhar evangélico de Francisco – imagem de Deus, Dama Pobreza, perfeita Alegria – fez de Francisco um homem livre, amarrado a ninguém, levando-o a redescobrir a pureza original das criaturas. Indubitavelmente, o Cântico das Criaturas expressa esta liberdade interior e exterior conseguida pelo Santo de Assis. Só uma vida inteiramente aberta a Deus e ao Irmão é capaz de dar à criatura humana o gozo da libertação, que conduz à liberdade pura e santa com que Deus nos criou.ConclusãoO próprio São Francisco escreveu a conclusão. Dando aos seus seguidores o nome de FRADES MENORES, ele disse tudo. O ser “frade”, o ser “irmão”e o ser “menor”, o ser “pequeno”, o ser “humilde”, o ser “servo”de todos, exprime todo o ideal franciscano, com o seu fundamento em Deus, o único Absoluto, sem ídolos, em total doação. Se os filhos e filhas de São Francisco, nas várias Ordens, Congregações, Institutos, vivessem, ao máximo, este ideal, novo sopro evangélico renovador purificaria o ar da Igreja e do Mundo.

Texto publicado na Revista “Grande Sinal”, 1982.
Fonte: Franciscanos (matéria e foto)

A GRAÇA DE CELEBRAR 800 ANOS DO CARISMA FRANCISCANO - 9ª PARTE


Oitavo Jubileu de Fundação da Ordem Franciscana
800 anos do carisma Franciscano
9ª Parte

A docilidade ao Espírito requer ousadia
Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM

Vivemos numa situação de crise e, entre surpresos e perplexos, constatamos um processo de profundas transformações. Muitas são as indagações que brotam da experiência dos homens e das mulheres do nosso tempo. Inúmeras, as sementes de vida e de esperança entranhadas no nosso cotidiano que, ansiosamente, atendem o momento propício da germinação. Estamos convencidos de que o projeto evangélico de Francisco de Assis goza de uma atualidade surpreendente. Ele tem despertado em todas as culturas e épocas fascínio e acolhida. Seremos capazes, também nós, de encarnar o projeto evangélico de Francisco? Estamos dispostos a oferecer-lhe aquela concreção singular capaz de contagiar alma e corpo, vida e palavra, atitudes pessoais e relacionais?

1. A “ortopráxis” como verificação da “ortodoxia” do nosso carisma

O Vaticano II convocou-nos à recuperação do nosso carisma inspiracional. Desde então, temos nos empenhado em redescobrir nossa. identidade franciscana, mediante o estudo das Fontes, e em repropô-la nas nossas legislações e documentos recentes. Nossa maior dificuldade, todavia, tem sido encarnar de maneira significativa aqueles valores nosquais cremos e esperamos e que publicamente professamos. Precisamos estabelecer com a nossa mais genuína tradição uma relação de “fidelidade criativa”. Não basta se debruçar sobre os textos franciscanos. Eles surgiram como fruto da experiência concreta de Francisco e de seus primeiros companheiros. Testemunham o esforço deles em encarnar o evangelho em meio à realidade desafiante dos inícios do século XIII.
Celano escreve que Francisco “fez do seu corpo uma língua” (1Cel 97). Pois compreender é bem mais do que simplesmente explicar. Não que a explicação se oponha à reta compreensão. No entanto, muitas das nossas explicações, ao invés de conduzir-nos à aplicação, nos detêm num prazeroso “incesto intelectual”, responsável por situações de perniciosa estagnação. Importa recuperar o princípio evangélico de que é pelo fruto que se conhece a árvore. Não se trata, portanto, de condicionar o ser ao fazer quanto de perceber que o ser se revela e se verifica no fazer.

2. O desafio perene de requalificar nossa vida

Não estamos imunes à onda do pragmatismo e do eficientismo. Preocupamo-nos demasiadamente com a visibilidade e, não raras vezes, assumimos atitudes triunfalistas e prepotentes. Francisco recorda que somos chamados a ser irmãos e menores e que nisto consiste propriamente nossa missão evangelizadora. Importa recuperar a gratuidade fundamental da nossa existência, expressão do dom livre e desinteressado deDeus. Discernir em cada situação a presença discreta de Deus que nos desafia e interpela.
Ver as diferenças não como ameaça à unidade, nem como sintoma de uma comunhão perdida. Acolhê-las, ao contrário, como expressão da multiforme e fecunda graça de Deus. Não apenas suportá-las, numa atitude de indiferença, por vezes, reveladora de uma tácita cumplicidade. Mas assumi-las como ocasião propícia para se deixar surpreender pelo Deus de Jesus. Isso só é possível para aqueles que, sabiamente, aprenderam a suspeitar de si mesmos e dos próprios projetos. E perceberam quea diferença do outro, muitas vezes, pode se tomar oportunidade privilegiada de enriquecimento e de amadurecimento.
Para tanto, é necessário que nos proponhamos a reconstruir nossa identidade interior. Resgatar o mistério da própria vocação mediante a escuta silenciosa da Palavra de Deus e a participação assídua à Eucaristia. Redescobrir, através da leitura atenta e da meditação da Palavra de Deus, que Ele irrompe na nossa vida cotidiana de formas e modos cada vez novos e que nos interpela a realizar sua vontade.
Celebrar a Eucaristia como memória do Mistério pascal de Cristo que se recria na vida de cada um de nós e das nossas fraternidades. Somente em tal caso a Eucaristia será experimentada como aquele alimento que nos revigora no esforço em “fazer o que sabemos que Ele quer e de querer sempre o que lhe agrada” (Carta a toda a Ordem, 50). Somente enquanto alicerçados sobre uma formação espiritual sólida, seremos capazes de reconciliar as diversidades presentes em nossas fraternidades e províncias.
Somos chamados, hoje mais do que nunca, a recuperar os votos na sua força libertadora. Não são, em primeiro lugar, sinais de uma carência que deve ser abraçada numa atitude de ascetismo heróico. São, na verdade, expressão de um amor maduro, desinteressado, capaz de suportar todo e qualquer sacrifício. Não devemos, portanto, nos comportar como pessoas castradas na sua humanidade. Os votos, quando vividos na sua radicalidade, deixam transparecer aquela humanidade mais genuína que, como germe, está escondida no âmago de cada um. Eles testemunham uma sadia experiência de êxodo: nos libertam da idolatria do poder, do ter e do prazer e nos propiciam o encontro com o outro na sua irredutível diferença.

3. A urgência e a imprescindibilidade de se recuperar a ousadia

Olhando para a realidade das nossas províncias, surge quase que espontaneamente a pergunta: “Será mesmo necessário agir sozinho para poder ser criativo?” O que fazer para não nos deixarmos sucumbir frente à tentação sedutora da estagnação ou da estéril repetição do passado? Somos suficientemente contemplativos a ponto de discernir em cada acontecimento uma senda que conduz a Deus e de acolher com generosidade os inúmeros apelos que Ele nos lança em meio a tantas situações que constituem o nosso cotidiano mais ordinário? O que fizemos daquela ousadia com a qual abraçamos a vida franciscana? Por que nossas fraternidades se deixam contaminar pelo vírus do uniformismo massificante e asfixiante?
Entre tantos desafios que nos são colocados, talvez o maior de todos seja justamente o de restituir credibilidade ao nosso projeto de vida. E isto requer ousadia. Não podemos nos omitir nem mesmo postergar esta incumbência às gerações futuras. É fundamental que assumamos uma atitude de diálogo com nossos reais interlocutores. Que estejamos dispostos a ouvi-los com respeito e caridade, conscientes de que temos tanto a aprender deles. Que saibamos discernir, a exemplo dos nossos pais na fé, “as sementes do Verbo”, a secreta presença de Deus no mundo moderno e nas demais religiões e culturas. Que estejamos abertos a promover, juntamente com todos os seres humanos de boa vontade, relações mais justas e fraternas, no respeito pela liberdade e dignidade de cada pessoa.
Esta atitude dialógica assume feições muito concretas no trato com os jovens que pedem para serem admitidos à nossa experiência de vida. Não há dúvida de que cabe a nós propor-lhes a riqueza da nossa tradição cristã e franciscana. É preciso, todavia, respeitar e valorizar a “recepção criativa” testemunhada por eles ao encarnar o carisma franciscano nas concretas situações em que vivem e segundo desafios e indagações inusitados. Não tem sido esta a dinâmica do processo histórico de constituição da nossa mais genuína tradição franciscana?

4. Deixar-se inspirar por Aquele que faz novas todas as coisas

Estamos imersos num mundo em constante transformação. Precisamos vencer o medo e a inércia que paralisa nosso caminhar. Para estarmos à altura dos inúmeros desafios do tempo presente é preciso, em primeiro lugar, alargar nossos horizontes para além das preocupações com a própria sobrevivência e com a eficiência antropocêntrica. Necessário se faz, portanto, rever nossos critérios e projetos. Somos convocados a fazer memória do nosso passado, deixando Cristo irromper em nossa vida através do Seu Espírito Vivificante. Francisco dizia que o Ministro Geral da Ordem era o Espírito Santo. A razão de tal escolha não residiria propriamente no fato de ser Ele aquele que “faz novas todas as coisas”?

Texto da “Revista Franciscana”, 2006, da FFB.

Fonte: Franciscanos (matéria e foto)